Rodrigo Rocha
O mapa que o Brasil não olha
Vento minuano sopra de verdade
Colabore com a propagação do vento: pix@tribuna.com.br Há caminhos que não aparecem nos mapas. Não porque não existam — mas porque quase ninguém olha para eles.
Alguns começam em uma conversa despretensiosa, outros em um projeto que parecia simples e que, aos poucos, se transforma em uma travessia de anos. No nosso caso, tudo começou em 2019, quando a VIDEIRAINVEST foi contratada para estruturar um plano de negócios para a instalação de um frigorífico no sul do Brasil.
Era um projeto promissor. Identificamos linhas de crédito na Europa, parceiros estratégicos, oportunidades claras de integração produtiva. Mas então veio a pandemia. O mundo parou. O projeto congelou. E, para nossa tristeza, dois dos diretores do fundo europeu que participavam da iniciativa acabaram falecendo em decorrência da COVID-19.
Durante algum tempo, parecia que aquela estrada tinha terminado ali.
Mas os caminhos verdadeiros costumam ser mais teimosos que as circunstâncias.
Retomamos as conversas em 2022, já com a convicção de que qualquer operação de proteína de alto padrão deveria nascer no território onde o gado realmente se forma com excelência: o Pampa. Foi assim que chegamos a Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, fronteira aberta com Rivera, no Uruguai.
Ali começamos a olhar o território com atenção quase obsessiva. Distâncias portuárias. Custos logísticos. Fretes ferroviários. Preço da arroba. Infraestrutura regional. Descobrimos algo que, para muitos no Sudeste brasileiro, ainda parece difícil de compreender: Montevidéu está praticamente à mesma distância logística que Rio Grande, mas com custos mais previsíveis e uma estrutura portuária muito mais estável.
Seguimos andando. Participamos de congressos, organizamos encontros, conversamos com produtores, operadores logísticos, autoridades e empresários locais. Aos poucos fomos encontrando pessoas que compartilhavam da mesma visão: uma integração produtiva e logística entre o sul do Brasil e o Uruguai, baseada em eficiência, infraestrutura e visão de longo prazo.
Foi nesse ambiente que nasceram as bases da PAMPA LOG. Recentemente, comentando sobre essa jornada com um amigo e sócio uruguaio, eu lhe disse algo que me saiu quase como um desabafo:
“Es increíble lo poco que los brasileños del sudeste perciben las enormes oportunidades que ofrecen Uruguay y Rio Grande do Sul. Es como si estuviera hablando con una persona sorda.”
Ele respondeu com naturalidade, como quem já se acostumou com essa perplexidade:
“Lo sé. Hablábamos con empresarios brasileños sobre una operación de fertilizantes y no podían creer que existieran regímenes libres de impuestos. Lo que falta es marketing.”
Talvez seja exatamente isso. Talvez falte olhar o mapa com mais atenção. Talvez falte compreender que algumas das oportunidades mais sólidas do nosso tempo estão justamente em territórios discretos, longe dos grandes centros financeiros e das modas passageiras da economia global.
Enquanto o mundo atravessa guerras, crises geopolíticas e incertezas econômicas, a região do Pampa — entre o sul do Brasil e o Uruguai — continua oferecendo algo raro nos dias de hoje: previsibilidade, produção real e espaço para construir.
Talvez seja mesmo o vento pampeiro que nos empurra adiante.
Ele sopra silencioso sobre as coxilhas, atravessa fronteiras sem pedir licença e lembra aos teimosos que ainda existem caminhos novos esperando para ser trilhados.
Enquanto muitos discutem mapas que já não levam a lugar algum, seguimos olhando para o sul — onde o horizonte é largo, os trilhos apontam para o futuro e o vento do Pampa insiste em nos lembrar que ainda há muito por construir.
Porque o vento pampeiro sopra justamente onde nascem novos caminhos.



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