Marcio Minguta

Escala 6x1

Durante décadas, o debate sobre jornada de trabalho no Brasil foi sequestrado por uma lógica que parte de uma premissa frágil: trabalhar mais horas gera mais empregos e mais riqueza. A história econômica global mostra exatamente o oposto.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 — seis dias de trabalho para apenas um de descanso — não é uma invenção ideológica nem um experimento arriscado. Trata-se de uma correção tardia de um modelo que já foi superado nas economias mais dinâmicas do mundo.

BRASIL NA ROTA DO ATRASO COMO SEMPRE 

Hoje, a esmagadora maioria dos trabalhadores brasileiros está concentrada em comércio e serviços, setores intensivos em mão de obra, com baixa automação e forte dependência de consumo interno.

  • Serviços e comércio juntos respondem por mais de 70% do emprego formal no país
  • São também os setores que mais utilizam escalas extensas, incluindo 6×1 e 6×2
  • Os setores mais afetados por qualquer mudança seriam:
    • Bares e restaurantes
    • Shopping centers
    • Salões de beleza
    • Hotelaria e lazer

Nada disso é particularidade brasileira. A diferença é que outros países já enfrentaram esse dilema — e avançaram.

2. O que aconteceu quando outros países reduziram jornadas?


Alemanha



  • Redução gradual da jornada ao longo de décadas
  • Forte uso de turnos e contratação adicional
  • Resultado: alta produtividade, baixo desemprego estrutural e salários mais elevados
  • O país é um dos maiores exportadores do mundo, mesmo trabalhando menos horas




França



  • Jornada legal de 35 horas
  • Houve contratação líquida nos setores de serviços e comércio
  • O consumo interno aumentou, compensando o custo do trabalho




Reino Unido e países nórdicos



  • Escalas flexíveis, mais turnos, menos horas por trabalhador
  • Resultado recorrente: mais postos de trabalho para manter o mesmo nível de operação



👉 Nenhuma dessas economias experimentou destruição estrutural de empregos por reduzir jornada.

O que houve foi redistribuição do trabalho entre mais pessoas.





3. O erro conceitual da crítica ao fim da escala 6×1



A crítica dominante parte de um raciocínio simplista:


“Se o trabalhador trabalhar menos dias, o custo aumenta, então o empresário demite.”


Isso ignora três fatos empíricos básicos:



Fato 1 – A demanda não desaparece



Bares, restaurantes, shoppings e serviços continuam tendo clientes.

A empresa não pode “fechar” a demanda.



Fato 2 – Operação contínua exige gente



Se um shopping funciona 7 dias por semana, alguém precisa estar lá.

Menos dias por trabalhador=mais trabalhadores necessários.



Fato 3 – O custo do trabalho volta como receita



O trabalhador contratado:


  • consome
  • paga aluguel
  • compra comida
  • usa transporte
  • movimenta serviços



Isso retorna para o próprio setor produtivo.





4. A abertura total dos shoppings aos domingos: o elo esquecido



O Brasil mantém uma distorção absurda:

shopping centers — templos do consumo — funcionam parcialmente aos domingos, como se ainda estivéssemos nos anos 1990.


No mundo desenvolvido:


  • Domingo é dia cheio
  • Horário normal
  • Forte geração de empregos temporários e permanentes




O impacto combinado é decisivo



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