Rodrigo Rocha

Toda tese de investimento passa pela margem e pelo risco

Componentes que ajudam a definir o preço justo

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Toda tese de investimento passa pela margem e pelo risco Fale com o colunista: rodrigo@videirainvest.com

Existe um ponto que une todos os empreendedores do Brasil — do pequeno comerciante ao operador logístico que tenta abrir uma rota internacional: a busca por capital.


Mas, por mais que a palavra “capital” pareça neutra, a verdade é que ela carrega uma tensão permanente. De um lado, quem precisa de recursos para erguer, expandir, industrializar, exportar, contratar, produzir. Do outro, quem tem dinheiro disponível e precisa decidir: deixo paradoColoco no bancoEmprestoInvistoCorro risco?


E, entre esses dois polos, existe um terceiro ator, quase sempre inevitável: a intermediação. Bancos, gestoras, fundos, plataformas, distribuidores, estruturas jurídicas, consultorias, agentes, redes de relacionamento. A economia moderna transformou a intermediação em indústria — e não raro o investidor e o tomador de recursos começam a se perguntar: qual é, afinal, o preço justo disso tudo?


Tenho refletido sobre esse triângulo — tomadores de recursos, intermediários e investidores — e chego a uma conclusão direta, útil e sem romantismo:

 

Toda tese de investimento passa pela margem e pelo risco. A margem é o “motor” que paga o capital. O risco é o “freio” que define o preço.


Não adianta o empreendedor dizer que terá lucro se o investidor sente que pode não receber. E não adianta o investidor exigir taxas irreais se a operação não gera margem suficiente para sustentar o custo do dinheiro. Quando uma dessas pontas ignora a outra, o resultado é sempre o mesmo: frustração, desgaste e oportunidades perdidas.

 

O QUE TORNA UMA TAXA “JUSTA”?

Quando se fala em taxa, muitos imaginam um número que deveria ser “moralmente correto”. Mas taxa de investimento não nasce de moral — nasce de engenharia.

Em termos simples, um investidor quer ser remunerado por quatro fatores principais:


  1. O tempo (o custo de deixar o dinheiro indisponível);
  2. O risco de não pagamento (default);
  3. A iliquidez (a dificuldade de sair do investimento antes do prazo);
  4. O trabalho de análise e monitoramento (quando o investidor ou alguém faz o papel do banco).

A taxa “justa”, portanto, é sempre uma combinação. Uma soma de pedaços.


Taxa justa=taxa base + prêmio de risco + prêmio de iliquidez + custos de estrutura


E aqui mora um ponto que poucos dizem em voz alta: bancos e intermediários não cobram caro só porque são maus. Eles cobram caro porque operam sob camadas de custo, compliance, operação, risco reputacional, risco regulatório e margem.

Mas também é verdade o inverso: há intermediários que cobram caro demais porque não assumem risco econômico real, apenas “emprestam o nome” e cobram pedágio pela ponte.


Isso nos leva a uma pergunta cada vez mais atual: se o investidor e o tomador pudessem se encontrar sem intermediário, quanto custaria esse capital?

 

QUANTO É JUSTO QUE UM INTERMEDIÁRIO RECEBA?

A resposta depende da utilidade real que ele entrega.

Em operações privadas, normalmente a intermediação aparece em três frentes:

 

- Taxa de estruturação e originação (montar o deal, organizar documentação, aproximar partes);

- Taxa de sucesso (só se a operação fechar);

- Taxa de monitoramento/ gestão (acompanhar desempenho, covenants, garantias, alertas).


Quando há trabalho real e responsabilidade, é justo haver remuneração. O problema começa quando o intermediário vira um custo desproporcional ao risco que assume. Se ele não carrega o risco do principal e tampouco “opera” o projeto, a conta precisa ser compatível com o serviço prestado — e não com uma fantasia de onipresença.

 

TAXA CARA OU BARATA DEPENDE DA MATURIDADE DO NEGÓCIO


Agora vem a parte que interessa ao empreendedor de verdade: quando uma taxa é cara ou barata?

Depende da maturidade do empreendimento. E aqui eu gosto de comparar dois casos bem diferentes:

 

1) Um restaurante tradicional abrindo nova filial

Imagine um restaurante que está há décadas no mesmo endereço. Receita constante. Cliente fiel. Padrão previsível. Decide abrir uma nova unidade.

Esse negócio carrega um risco, sim — mas é um risco “com chão”. Ele tem histórico, tem marca local, tem prova de funcionamento. O risco maior é o de execução da nova filial, e não de “existência” do negócio.


Nesse cenário, dependendo das garantias e do prazo, uma taxa tende a refletir um risco baixo a moderado. Ela não precisa ser exorbitante para fazer sentido, porque há previsibilidade.

 

2) Uma primeira operação internacional de madeira para celulose


Agora imagine outro caso: estruturar a primeira exportação de madeira para celulose, a partir de fornecedores diversos, com volumes estáveis, para um comprador internacional robusto, pagando à vista, com regras claras — mas sem histórico operacional anterior.


Aqui o risco é híbrido. De um lado, o pagamento à vista é um mitigador enorme. Se o comprador paga antecipado (ou paga após vistoria presencial), o risco de inadimplência cai. Se a operação é FOB, o risco marítimo não fica no colo do operador. Se a commodity tem padrão, melhora.


Mas o primeiro ciclo sempre pesa: fornecedor, documentação, logística, timing, qualidade, despacho, porto. O risco aqui é o da execução inicial — e essa é uma categoria de risco que o mercado costuma cobrar mais caro, porque poucos sabem operar.


Esse segundo caso tende a justificar um custo de capital mais alto do que o restaurante, mesmo com um comprador forte, pelo simples fato de ser a primeira engrenagem.


A margem paga o juro — mas o risco define o preço


A tese que uso como régua é direta:

- A margem é a capacidade de pagar.

- O risco é a probabilidade de falhar.

- A garantia é o plano B.

 

Quando um investidor olha para uma operação, ele enxerga isso como uma pergunta prática:


“Se der certo, quanto ganho? Se der errado, quanto recupero?”


E por isso, para crédito, garantias e executabilidade importam tanto. Crédito é o mundo do “piso”. Do retorno previsível. Do contrato. Do enforcement. Já o equity é o mundo do “teto”. Do upside. Da participação no sucesso.


E há um formato que une os dois, muito útil para projetos em aceleração: crédito com participação na performance, um tipo de operação que dá previsibilidade ao investidor e não sufoca o caixa do empreendedor no início.

 

TAXA JUSTA É ENGENHARIA, NÃO EMOÇÃO

O Brasil precisa amadurecer esse debate. Não apenas do lado dos investidores — mas também do lado dos empreendedores, que muitas vezes querem capital barato antes de terem previsibilidade, garantias e um plano de execução.


capital existe. O investidor existe. O empreendedor existe. O que falta, quase sempre, é linguagem comum. Por isso, deixo aqui a síntese que tenho repetido como método:


1) Toda tese de investimento passa pela margem e pelo risco.


2) Margem sustenta o retorno.


3) O risco define o preço.

Quando empreendedores e investidores se encontram nesse ponto — com transparência, governança e um plano claro — o capital deixa de ser obstáculo e passa a ser consequência.


E, no fim, é isso que faz um país crescer: não é só ter dinheiro. É ter projetos com margem, risco compreendido e execução real.



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