Feito rei em palanquim, Pelé é erguido após o Tricampeonato em afirmação de sua divindade quitônica Por Italo Godinho
Qual é a fraqueza de um rei?
No xadrez, dizem os manuais, é a baixa mobilidade combinada com seu valor absoluto. E no futebol? Eu vos digo que são os próprios súditos, ou melhor, a trágica cretinice dos súditos.
Nossos tempos são tão escandalosos que muitos brasileiros, movidos por desatinos de ocasião, fazem coro às campanhas difamatórias que visam destronar Pelé, o maior atleta de todos os tempos.
Noto que alguns fecham-se às maravilhas do presente, agindo como se o futebol de outrora fosse em tudo superior. Mas crime ainda pior comete o sujeito que, de borracha em riste, tenta apagar as arestas que dão forma à nossa história, só porque as julga obsoletas:
— O futebol mudou! Os craques de outrora são ameixas passadas! Pelé hoje não arrumaria nada.
Olhei para o infeliz com a piedade que se deve a cegos de nascença e respondi:
— Passada está sua alma! O gênio não envelhece nem caduca.
Os idiotas da objetividade só acreditam no que pode ser medido por cronômetros e provetas. Exigem estatísticas, gráficos, lâminas de laboratório.
Agora querem comparar o Rei com Lionel Messi, o mais novo aspirante ao trono. Ora, façam-me o favor! “La Pulga” é uma maravilha de estufa, um gênio desenvolvido por tubos de ensaio, nutrido a xaropes e hormônios sintéticos.
Tirem de Messi a ciência moderna e joguem-no à poeira dos anos 1960, cercado por magarefes que distribuíam patadas e rugidos, sem a proteção maternal dos juízes. O que sobra? Um argentino franzino, lívido como defunto, a reclamar compaixão.
Já Pelé, o verdadeiro homem vitruviano, ostentava proporções e saúde perfeitas à prática do máximo desporto. Era anatomicamente perfeito; biologicamente imaculado! Seu torso, nu ou coberto, brilhava como um candelabro de azeviche.
Não por acaso, tornou-se, desde 1958, a personificação máxima do futebol nos quatro cantos da Terra, visto que reuniu em si, com idêntica culminância, o ápice da excelência física e técnica. Portanto, a genialidade do Rei é fato ontológico, geográfico e divino.
Seja como for, não podem os cultores do presente levar guerra a tudo que lhes é remoto, pois o tempo vai-se para todos. Quem hoje escarra no passado, amanhã será devorado pelo futuro.
Sem vergonha o digo: a grandeza esportiva de Pelé está muito além do que nossos olhos tenham visto. Na teologia popular, ele — o demiurgo da bola — é uma força sobrenatural que humilha a lógica humana, para infelicidade dos eunucos espirituais que veem no futebol nada mais que futebol.
Como bem escreveu Armando Nogueira, "Pelé já era o melhor antes mesmo de sê-lo e continua sendo mesmo depois de ter sido.”




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