Evandro Estebanez
Ormuz sob ameaça
Guerra, poder naval e o choque que já atinge o Brasil
O fracasso nas negociações de cessar-fogo no conflito envolvendo o Irã inaugura uma nova fase de tensão internacional — mais perigosa, mais imprevisível e, sobretudo, mais cara para o mundo. A ausência de um acordo imediato desloca o eixo da crise do campo diplomático para o estratégico-militar, e a resposta americana, sob a liderança de Donald Trump, segue uma lógica clara: impedir que o Irã transforme o Estreito de Ormuz em instrumento de chantagem global. O sinal mais contundente dessa postura foi a disposição de bloqueio imediato da região em caso de escalada, uma medida extrema, mas coerente com a doutrina de garantir a liberdade de navegação em uma das artérias energéticas mais críticas do planeta.
O impacto foi instantâneo. O mercado internacional reagiu com a elevação abrupta do preço do petróleo, não apenas pela interrupção potencial do fluxo físico, mas pelo risco sistêmico que um bloqueio de Ormuz representa. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por aquele corredor marítimo estreito e vulnerável. Quando há ameaça concreta — e não apenas retórica — de interrupção, o preço deixa de refletir oferta e demanda e passa a incorporar medo, prêmio de risco e antecipação de escassez. Derivados seguem a mesma trajetória, pressionando cadeias logísticas globais e alimentando expectativas inflacionárias em escala mundial.
Resposta ao impasse
Nesse cenário, o deslocamento do maior porta-aviões da Marinha americana para a região não é um gesto simbólico, mas uma mensagem estratégica inequívoca. A presença de um grupo de ataque naval dessa magnitude indica que Washington está preparado para garantir, pela força, a manutenção das rotas energéticas. Mais do que isso, sinaliza que a crise ultrapassou o campo da dissuasão diplomática e entrou na esfera da contenção operacional. O envio desse tipo de ativo militar altera o cálculo de risco de todos os atores envolvidos — do Irã aos mercados financeiros.
A possibilidade de um “boots on the ground”, ou seja, o envio direto de tropas americanas para operações terrestres, amplia ainda mais o grau de incerteza. Trata-se de um cenário que, embora ainda em fase de avaliação, não pode ser descartado diante do agravamento da situação. Historicamente, intervenções desse tipo são custosas, prolongadas e politicamente sensíveis, mas também são acionadas quando interesses estratégicos vitais — como o fluxo global de energia — estão em jogo. Para investidores e governos, a simples possibilidade já é suficiente para reprecificar ativos e redesenhar projeções econômicas.
Logística hostil
No plano operacional, um dos maiores desafios imediatos reside na tentativa de manter a navegação de petroleiros em um ambiente hostil. A colocação de minas marítimas na região pela Guarda Revolucionária Iraniana transforma o Estreito de Ormuz em uma zona de alto risco. A remoção dessas minas não é trivial: exige tempo, tecnologia, coordenação internacional e exposição militar direta. Enquanto isso, seguradoras elevam prêmios, armadores reconsideram rotas e parte da frota global simplesmente evita a região. O resultado é uma engrenagem logística travada — e, novamente, preços em alta.
Raiz histórica
Essa crise não pode ser compreendida isoladamente, sem levar em conta o pano de fundo histórico das relações entre os Estados Unidos e os países árabes produtores de petróleo. Desde o rearranjo geopolítico promovido por Richard Nixon no início da década de 1970, consolidou-se o sistema dos petrodólares: os países do Golfo passaram a comercializar petróleo majoritariamente em dólares, enquanto os Estados Unidos garantiam proteção militar e estabilidade regional. Esse pacto informal moldou o sistema energético global por décadas e ainda hoje sustenta a centralidade americana na segurança das rotas petrolíferas. O que está em jogo agora é, em grande medida, a continuidade desse arranjo — sob novas tensões e novos atores.
Reflexo sobre segurança alimentar
Se no plano global o petróleo é o epicentro, no Brasil o efeito mais imediato e potencialmente mais devastador emerge em outra frente: a crise de fertilizantes. O alerta já foi emitido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, que aponta risco elevado de desabastecimento para a safra do segundo semestre de 2026, com impacto direto sobre a produção agrícola e pressão inflacionária interna. O problema é estrutural. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, o que o torna extremamente vulnerável a choques externos — especialmente em um momento de ruptura logística global.
A situação se agrava com o movimento de grandes fornecedores internacionais. China e Rússia já adotam medidas de restrição à exportação de fertilizantes, priorizando seus mercados internos e ampliando o efeito de escassez global. No epicentro da crise, ao menos dois navios carregados com insumos agrícolas permanecem parados na região de Ormuz, incapazes de seguir viagem diante do risco operacional. Esse tipo de interrupção, ainda que pontual, tem efeito multiplicador: encarece contratos, reduz disponibilidade e pressiona toda a cadeia de abastecimento.
O impacto direto recai sobre a ureia, um dos principais insumos para a produção agrícola. Com oferta restrita e custos em alta, o produtor rural brasileiro se vê diante de uma equação cada vez mais difícil: produzir mais caro em um ambiente de incerteza logística e volatilidade de preços.
O resultado inevitável é o repasse ao consumidor final, ampliando o risco de inflação de alimentos — o tipo de inflação mais sensível social e politicamente.
Déficit na visão estratégica nacional
Já dizia o filósofo Estoico Romano Sêneca, em sua obra Cartas a Lucílio “Para o navegador que desconhece seu ponto de destino, nenhum vento lhe é favorável”.
E de fato não é! O ponto mais crítico dessa crise não está apenas no cenário externo. Ele está dentro do próprio Brasil. A atual vulnerabilidade não é fruto do acaso, mas de uma sequência de decisões equivocadas, omissões estratégicas e descontinuidade de políticas públicas. Em 2014, a Petrobras operava três importantes unidades de produção de fertilizantes: em Camaçari (Bahia), Laranjeiras (Sergipe) e Araucária (Paraná). Esta última respondia por cerca de 30% da produção nacional de ureia e amônia.
Hoje, todas estão paralisadas. As unidades da Bahia e de Sergipe foram desativadas em 2018. A planta de Araucária encerrou suas operações em 2020, resultando na demissão de mais de mil trabalhadores e na eliminação de uma parcela significativa da capacidade produtiva nacional. Paralelamente, a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN-III), em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, que já contava com investimentos da ordem de R$ 3,2 bilhões, teve sua construção interrompida, tornando-se símbolo de desperdício de capital e falta de continuidade estratégica.
É evidente que o contexto da Operação Lava Jato revelou graves problemas de corrupção e má gestão, que exigiam correção. No entanto, o combate à corrupção não poderia — e não deveria — ter resultado na completa desarticulação de um setor estratégico. O que se observa é que, em vez de reformar, modernizar e preservar a capacidade produtiva, optou-se por desmontá-la. O resultado é um país que abriu mão de sua autonomia em um insumo essencial para sua própria segurança alimentar.
A crítica que se impõe é direta: faltou visão de Estado. Faltou compreender que fertilizantes não são apenas um produto industrial, mas um elemento central da soberania nacional. Em um mundo cada vez mais fragmentado, onde cadeias globais são frequentemente interrompidas por conflitos e disputas geopolíticas, depender massivamente de importações é uma escolha de alto risco — e de alto custo.
A crise atual escancara essa fragilidade. O Brasil, uma das maiores potências agrícolas do planeta, encontra-se paradoxalmente dependente de fornecedores externos para garantir sua própria produção de alimentos. Essa dependência compromete não apenas a competitividade do agronegócio, mas a estabilidade econômica e social do país.
A ausência de uma política robusta para o setor de fertilizantes expõe o país a choques externos recorrentes, compromete a previsibilidade do agronegócio e transfere para o consumidor final o custo da ineficiência estatal. Enquanto outras nações tratam segurança alimentar como questão de soberania, o Brasil permanece vulnerável, reagindo de forma tardia e fragmentada a crises que já se tornaram previsíveis. O resultado é um ciclo vicioso: dependência externa, volatilidade de preços e perda de competitividade.
A crise no Estreito de Ormuz, portanto, é mais do que um episódio regional. Ela revela, com clareza incômoda, as interdependências do mundo contemporâneo e as fragilidades de países que não se preparam adequadamente para enfrentá-las. A guerra, ao interromper fluxos e elevar custos, funciona como um teste de resiliência econômica — e o Brasil, mais uma vez, mostra-se despreparado.
A conclusão é direta e sem concessões. O fracasso do cessar-fogo no Irã, a resposta firme dos Estados Unidos, a militarização do Golfo e o risco crescente às rotas energéticas inauguram um novo ciclo de instabilidade global. Nesse cenário, o petróleo volta a ser instrumento de poder, a inflação retorna como ameaça e a segurança alimentar se impõe como prioridade estratégica. Para o Brasil, a lição é clara: não basta reagir à crise; é preciso antecipá-la. Sem soberania energética ampliada e sem autonomia na produção de insumos críticos, o país continuará refém de conflitos distantes — pagando, em moeda forte e no prato do cidadão, o preço de sua própria omissão.
Evandro Estebanez é advogado, analista geopolítico, Ex-Supervisor Jurídico da ANAC, especializado em Petróleo e Gás pela COPPE/UFRJ, MBA em Direito Tributário pela FGV-RIO, empresário e consultor internacional, Membro Acadêmico em posse da cadeira n° 93 da Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura e fundador da Brastax Consultoria Empresarial em projetos internacionais de combustíveis e commodities.




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