Evandro Estebanez
O Petróleo como Arma: Irã, EUA e o Preço da Instabilidade
Do avanço nuclear ao risco de colapso do regime: quando geopolítica vira logística e logística vira inflação.
Genebra voltou a ser, por alguns dias, uma espécie de capital provisória do risco global. À primeira vista, o tema é técnico: centrífugas, níveis de enriquecimento, mecanismos de verificação e cronogramas de reversão. Mas o que está em disputa nas conversas sobre o avanço nuclear do Irã é menos “um acordo” e mais a arquitetura invisível que sustenta a vida cotidiana em economias abertas: a confiança de que o mundo continuará girando sem que um gargalo marítimo, uma decisão política ou um erro de cálculo transforme o preço da energia em gatilho de instabilidade social.
Quando esse tabuleiro se move, ele não se move apenas em Teerã, Washington ou Jerusalém. Ele se move também em São Gonçalo, em Duque de Caxias, em Paulínia, no interior do Brasil onde o diesel paga o frete do alimento, e na periferia onde a inflação de combustível vira inflação moral — a sensação de que o futuro ficou caro e o presente ficou frágil.
A diplomacia que tenta comprar tempo
As negociações em Genebra são, no fundo, uma tentativa de comprar tempo: tempo para reduzir o risco de proliferação; tempo para evitar que a dissuasão escale para guerra; tempo para que cada lado consiga vender internamente um arranjo imperfeito como “o melhor possível”. Há sinais de progresso “de procedimento” e de entendimento sobre princípios, mas o histórico desse tipo de mesa é uma lição severa: o caminho entre “avanço” e “colapso” pode ser de horas, não de meses.
A diplomacia, aqui, não é um gesto de idealismo. É um instrumento de administração do imprevisível. E, por isso mesmo, ela é vulnerável ao que não cabe nas atas: ataques de grupos proxy, pressões domésticas, vazamentos, humores eleitorais e o permanente risco de que um lado interprete a cautela do outro como fraqueza — e a fraqueza como convite.
Israel e o dilema do “quase nuclear”
Israel atua nesse tema com uma lógica que não tolera zonas cinzentas. Um Irã “quase nuclear” pode ser, do ponto de vista israelense, o pior dos mundos: suficientemente avançado para ameaçar, mas ainda protegido pela ambiguidade que dificulta uma resposta internacional consensual. Por isso, a pressão israelensetende a empurrar os parâmetros das concessões para um ponto em que o acordo só vale se for verificável, imediato e reversível — e em que a opção militar permanece na mesa como linguagem complementar da negociação.
Esse vetor de pressão altera o cálculo do risco. Ele aumenta o prêmio do “incidente” e eleva o custo de qualquer fórmula que pareça, aos olhos de Israel, uma normalização do limiar nuclear. E, quando a diplomacia opera sob essa sombra, o mercado — que não tem ideologia, mas tem memória — começa a precificar não o que foi dito em Genebra, e sim o que pode acontecer no estreito mais sensível do planeta.
Trump, cautela e calendário: a política interna como variável estratégica
Do lado americano, a cautela do presidente Donald Trump não deve ser lida apenas como prudência militar. Ela é também prudência política. Conflitos no Oriente Médio costumam produzir uma fotografia macroeconômica previsível: petróleo mais caro, seguros e fretes mais caros, inflação pressionada, juros mais difíceis, e uma opinião pública que rapidamente migra do “patriotismo” para a pergunta simples: quanto custa isso na minha vida?
E o custo político se torna especialmente sensível quando o país se aproxima do ciclo eleitoral das Casas do Congresso. Uma escalada que encarece energia pode transformar a pauta doméstica em refém do Golfo Pérsico. Assim, a decisão de apertar ou aliviar o gatilho estratégico passa a dialogar com a necessidade de evitar um choque de preços que contamine a disputa legislativa. Em geopolítica, o relógio eleitoral é uma arma silenciosa: ele não dispara, mas limita.
A esperança da libertação — e o dever de evitar o vácuo
Toda crise desse tipo reabre, com força moral e estratégica, a possibilidade de superação do atual regime iraniano. Para muitos, “mudança de regime” não é atalho: é a chance real de libertar um povo há décadas submetido à repressão, ao medo e a uma economia capturada por estruturas extremistas, e de devolver ao país a possibilidade de normalidade política e prosperidade. Ao mesmo tempo, a comunidade internacional precisa reconhecer um ponto crucial: o objetivo não deve ser apenas a queda, mas a transição — porque a liberdade, para se sustentar, exige instituições mínimas e previsibilidade.
Se conduzida com coordenação, garantias e um plano de estabilização, a saída de um grupo radical do comando pode reduzir riscos de proliferação, enfraquecer redes armadas por procuração e diminuir a chantagem geopolítica sobre rotas vitais como Ormuz. O perigo não está na aspiração legítima do povo iraniano por liberdade, e sim no vácuo: quando o colapso ocorre sem arquitetura de governança, abre-se espaço para disputas entre facções, sabotagens e aventureirismo armado.
No mundo do petróleo — e da estabilidade global — previsibilidade é um ativo tãoimportante quanto produção; não basta haver barris, eles precisam fluir com segurança e regularidade.
Ormuz: o gargalo que transforma política em preço
O Estreito de Ormuz é a dobra geográfica onde a política encosta no preço. Ele não é apenas um trecho de mapa; é um mecanismo de transmissão. Quando há ameaça de fechamento, mesmo parcial — ou quando há apenas risco percebido de interrupção — ocorre uma reprecificação instantânea: do petróleo, do seguro, do frete, do crédito para cargas, do custo de capital das companhias, e, por fim, do custo de vida.
A lógica é simples e brutal. Se um chokepoint concentra parte relevante do fluxo, ele vira alavanca estratégica. E a alavanca não precisa ser puxada até o fim para funcionar: basta o mercado acreditar que pode ser puxada. A interrupção “parcial” já é suficiente para reduzir tráfego, alterar rotas, aumentar tempos e impor prêmios de risco. A guerra, aqui, pode começar sem explosão — pode começar como sobretaxa.
O Brasil: autossuficiência que não é blindagem
É comum ouvir: “o Brasil é grande produtor de petróleo, então está protegido”. Essa frase é perigosa porque simplifica um sistema que depende menos do volume bruto e mais da engrenagem do refino e do mix de derivados. A vulnerabilidade brasileira não é “falta de petróleo” em sentido absoluto; é o encaixe entre qualidade do óleo, capacidade do parque de refino, demanda interna e logística de suprimento — sobretudo em combustíveis cujo mercado e preço são altamente sensíveis a choques externos.
Além disso, a economia brasileira é movida por diesel na veia. O diesel é custo do alimento, custo do remédio, custo da construção, custo do ônibus, custo do agronegócio, custo do e-commerce. Ele é a moeda oculta da mobilidade. Quando ele sobe, a inflação não sobe apenas nos índices: ela sobe na psique coletiva. E, por isso, um choque em Ormuz se torna, para o Brasil, mais do que “assunto externo”: torna-se assunto doméstico.
Há ainda uma dimensão técnica frequentemente negligenciada no debate público: a dependência relativa de derivados e de perfis de petróleo (incluindo a necessidade de correntes leves para certas otimizações do refino e da oferta de produtos). Quando o mercado global encarece e as rotas ficam mais tensas, não é apenas preço que se discute — é disponibilidade. E disponibilidade, em energia, é soberania prática.
Da bomba ao voto: o circuito político da energia
Em ano eleitoral, o combustível é um acelerador da atual perspectiva. A alta do preço na bomba é um símbolo real de falha de controle, ainda que a origem seja externa. Ela denota uma sensação de impotência do Estado perante o cotidiano de todos os brasileiros. E essa sensação é politicamente corrosiva: alimenta a constatação da inoperância, desconfiança da administração do país e afasta soluções simplistas. Não é por acaso que governos, em todo o mundo, temem choques de energia perto de eleições, e neste caso a crise só corrobora com o atual sistema inoperante nacional.
No Brasil, esse efeito é amplificado por cinco razões:
(i) renda média pressionada, que transforma qualquer aumento em crise imediata;
(ii) cadeia logística rodoviária, que multiplica repasses;
(iii) memória social que atesta que os combustíveis são “termômetro” de incompetência da atual administração do governo;
(iv) Falta de investimentos com grau de suficiência no atual parque de refino nacional.
(v) diversificação séria e comprometida no sistema de logística e modal de transportes
O resultado é um ciclo de retroalimentação: o risco geopolítico eleva preços; preços elevam ansiedade; ansiedade pressiona política; política sem controle de preços; o descontrole gera distorções; distorções geram escassez ou déficit; e a insegurança inexoravelmente aumenta.
O que o Brasil pode fazer: menos retórica, mais engenharia de risco
Diante desse quadro, a pior resposta é a reação emocional — e a segunda pior é fingir que o problema não existe. A resposta adulta é tratar energia como risco estratégico, não como debate de torcida.
Alguns passos são pragmáticos:
- Fomentar alianças estratégicas com países líderes na produção de energia e traçar uma política energética a longo prazo.
- Diversificar origens e rotas de suprimento de derivados, mitigando dependências concentradas.
- Fortalecer instrumentos de hedge (quando aplicáveis) e governança de preços, para reduzir volatilidade em janelas críticas.
- Planejar estoques e logística com cenários de estresse (não apenas o “cenário base”).
- Reformar o parque de refino nacional para ampliar as opções de ingresso de petróleo pesado na conversão de subprodutos de petróleo para elevar o suprimento de combustíveis forçando uma estabilização de preços.
Nada disso elimina o impacto de Ormuz. Mas diminui a chance de que um choque externo vire crise interna por improviso.
O ponto central: geopolítica, no fim, é sobre cotidiano
O mundo gosta de imaginar que geopolítica é o jogo dos grandes — porta-aviões, acordos, cúpulas. Mas a verdade é mais íntima: geopolítica é o modo como decisões tomadas a milhares de quilômetros alteram a temperatura do cotidiano.
Genebra, hoje, não é apenas uma cidade; é uma tentativa de impedir que o preço do barril se transforme em preço da instabilidade. Se as negociações falharem e a escalada ocorrer, a guerra não será apenas um evento militar. Ela será uma crise logística. E crises logísticas, na era da interdependência, são crises políticas. É por isso que Israel pressiona: porque vive sob ameaça existencial. É por isso que Trump é cauteloso: porque entende que a economia é o campo de batalha invisível de qualquer conflito moderno. E é por isso que o Brasil precisa olhar para Ormuz como quem olha para uma ponte dentro de casa — não por paranoia, mas por maturidade estratégica.
O estreito pode não fechar. A diplomacia pode funcionar. Mas a lição permanece: quando o mundo depende de gargalos, a segurança deixa de ser um conceito e vira um preço. E, em ano eleitoral, além da reflexão de cada brasileiro, esse preço deve converter-se em voto coerente com quem deseja um país próspero e autossuficiente na produção de energia.
Evandro Estebanez é advogado, Ex-Supervisor Jurídico da ANAC, especializado em Petróleo e Gás pela COPPE/UFRJ, MBA em Direito Tributário pela FGV-RIO, empresário e consultor internacional, Membro Acadêmico da Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura e fundador da Consultoria Empresarial



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