Da amêndoa à marca própria: a Bahia quer vender também o chocolate
Empreendedores investem em qualidade, transformação e novos mercados para ampliar as possibilidades de uma atividade que faz parte da história do estado
Entre o cacau colhido e o chocolate colocado na prateleira, existe um caminho de conhecimento, investimento e decisões comerciais. É nesse percurso que empreendedores baianos procuram ampliar sua participação. A tradição agrícola oferece a matéria-prima e a experiência; o desafio é transformar essa base em produtos capazes de conquistar compradores.
Um movimento recente dá dimensão a essa busca. Em comunicado de outubro de 2026, o Sebrae anunciou a participação de nove marcas de chocolate das regiões Sul, Baixo Sul e Sudoeste da Bahia na Feira do Empreendedor de São Paulo, programada para os dias 19 a 22 do mesmo mês. A iniciativa foi organizada para aproximar os negócios de distribuidores, parceiros e novos mercados.
Por trás da presença em uma feira está uma questão maior: como fazer com que os municípios produtores participem de mais etapas da economia do cacau?
Algumas experiências mostram que essa construção já tem endereço. Em Coaraci, a Simplicitude reúne produção de cacau e fabricação de chocolate. Em Ibicaraí, está a fábrica Bahia Cacau. Ilhéus e Itabuna também abrigam empresas do setor. Esses empreendimentos integraram uma programação de visitas de compradores internacionais anunciada pelo Sebrae em novembro de 2025, conectando propriedades, fábricas e espaços de comercialização.
No Baixo Sul, a Tombador Cacau, empresa familiar de Valença, oferece outro exemplo de construção de mercado. Em dezembro de 2025, o Sebrae registrou que a marca mantinha pontos de venda na Bahia, em Recife e em Florianópolis. A mesma publicação informou a conquista de uma medalha de prata na premiação britânica Academy of Chocolate, com um chocolate branco de praliné de macadâmia e cumaru.
O reconhecimento de um produto ajuda a abrir portas. Para manter essas portas abertas, entram em cena a regularidade das entregas, os custos de distribuição, a apresentação das embalagens e a capacidade de conquistar novas compras. Uma boa receita precisa encontrar uma operação que se sustente.
Esse movimento começa antes da fábrica. Em setembro de 2026, a Escola do Cacau Qualidade iniciou uma formação em Jequié com participação do Centro de Inovação do Cacau, localizado na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus. A programação contempla aspectos da produção, da fermentação e da pós-colheita, além da avaliação das amêndoas.
O investimento em qualidade permite discutir diferentes caminhos. Um agricultor pode buscar compradores que valorizem suas amêndoas. Um grupo pode organizar o beneficiamento e a comercialização. Uma empresa pode assumir a fabricação do chocolate. Cada alternativa pede uma combinação própria de recursos, conhecimento e acesso ao mercado.
A existência de marcas regionais não significa que todos os produtores devam instalar uma fábrica. Tampouco o preço de uma barra revela, sozinho, quanto ganhou quem cultivou o cacau. Entre uma ponta e outra estão processamento, ingredientes, embalagem, transporte, comercialização e tributos.
Para avaliar o desenvolvimento regional, é necessário observar como essas atividades se distribuem. Quem fornece a matéria-prima? Onde o chocolate é fabricado? Quais serviços são contratados localmente? Como os agricultores participam das oportunidades abertas?
São perguntas que ajudam a transformar histórias empresariais em uma discussão sobre o território. Também orientam o apoio público: capacitação, infraestrutura e acesso a mercados precisam responder às necessidades concretas dos negócios.
A Bahia reúne experiências que aproximam sua tradição cacaueira do produto final. O passo seguinte exige continuidade comercial e condições para que mais produtores encontrem lugar nessa transformação.
A provocação cabe tanto ao setor público quanto às empresas: o que precisa ser organizado para que a origem baiana apareça com mais força nas prateleiras e para que essa presença se traduza em trabalho e renda nos municípios produtores?




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