Os candidatos têm planos. Mas alguém tem um projeto para o Rio?
Com as candidaturas definidas, a TRIBUNA DA IMPRENSA inicia uma série para examinar o que cada programa propõe, quanto custa, quem pode executar e, sobretudo, se existe uma estratégia capaz de integrar o Estado
As candidaturas estão registradas, as campanhas chegaram às ruas e o tabuleiro eleitoral fluminense começa finalmente a ganhar forma. Agora que sabemos quem pretende ocupar o Palácio Guanabara, está na hora de fazer uma pergunta menos eleitoral e muito mais importante: o que cada candidato pretende fazer com o Estado do Rio de Janeiro?
Não se trata apenas de comparar promessas. Durante os próximos 60 dias, a TRIBUNA DA IMPRENSA vai examinar programas, propostas e compromissos apresentados pelos candidatos ao Governo do Estado. A intenção não é indicar voto, muito menos estabelecer previamente vencedores e perdedores, mas verificar se aquilo que está sendo prometido pode efetivamente ser realizado. Existe uma enorme diferença entre apresentar uma relação de boas intenções e possuir um projeto de Estado.
UM ESTADO, MUITOS RIOS
O primeiro problema aparece quando olhamos o mapa. Durante muito tempo, acostumamo-nos a pensar o Rio de Janeiro a partir de uma divisão simplificadora: de um lado, a capital; do outro, o interior. O Estado real é muito mais complexo.
O Rio está oficialmente dividido em oito Regiões de Governo: Metropolitana, Baixadas Litorâneas, Centro-Sul Fluminense, Costa Verde, Médio Paraíba, Norte Fluminense, Noroeste Fluminense e Serrana. Dentro delas existem ainda territórios com identidades próprias e enorme importância econômica e populacional, como a Baixada Fluminense e o Leste Metropolitano.
Cada uma dessas áreas possui ativos diferentes. O Norte concentra petróleo, gás, energia, agroindústria e estruturas portuárias. O Noroeste possui forte vocação agropecuária e agroindustrial. O Médio Paraíba reúne siderurgia, indústria metalmecânica, setor automotivo e logística. A Costa Verde combina indústria naval, portos, turismo e economia do mar. A Região Serrana reúne indústria, tecnologia, agricultura e turismo, enquanto as Baixadas Litorâneas convivem com turismo, petróleo, pesca e economia do mar.
Na Região Metropolitana concentram-se serviços, finanças, universidades, conhecimento, indústria e uma enorme população consumidora e trabalhadora. O Rio, portanto, não é pobre em ativos. O problema está na dificuldade histórica de conectá-los, fazendo com que vocações que poderiam se complementar frequentemente funcionem como ilhas dentro do mesmo território. Esse talvez seja um dos grandes desafios estruturais que o próximo governador terá de enfrentar.
INTEGRAR NÃO É CENTRALIZAR
Integração regional não significa fazer com que todos os caminhos levem novamente à capital. Um Estado integrado precisa permitir que suas regiões desenvolvam vocações próprias e estabeleçam relações econômicas entre si.
O produtor do Noroeste precisa encontrar processamento, logística e mercado. A indústria do Médio Paraíba necessita de fornecedores, energia, formação profissional e infraestrutura. A economia do mar pode conectar estaleiros, portos, universidades, petróleo, pesca, turismo e tecnologia. Os centros de conhecimento, por sua vez, precisam dialogar com cadeias produtivas espalhadas pelo território.
Tudo isso exige estradas, ferrovias, portos, telecomunicações e energia, mas exige também governança. Integrar não é centralizar. É conectar. O desafio não consiste em levar desenvolvimento da capital para o interior, como se houvesse um centro encarregado de irradiar prosperidade para sua periferia. Consiste em criar condições para que diferentes polos produzam desenvolvimento e riqueza em rede.
Essa distinção será importante durante toda a campanha, porque uma obra localizada no interior não constitui, por si só, uma política de desenvolvimento regional. A pergunta é o que ela conecta, que atividade econômica estimula, quais oportunidades cria e de que maneira conversa com o restante do Estado.

SEGURANÇA É URGENTE, MAS O RIO NÃO TERMINA NA SEGURANÇA
É compreensível que a segurança pública ocupe posição central nesta eleição. O Estado enfrenta domínio territorial de organizações criminosas, expansão de milícias e facções, roubo de cargas, insegurança cotidiana e enormes dificuldades para assegurar presença efetiva do poder público em determinadas áreas. Sem segurança, qualquer estratégia consistente de desenvolvimento encontra limites evidentes.
Mas segurança, isoladamente, também não constitui um projeto de Estado. O mesmo vale para hospitais, escolas, estradas, concursos públicos, redução de secretarias ou novas linhas de transporte. Todas podem ser medidas necessárias, mas, somadas sem uma estratégia que as conecte, continuam sendo uma relação de providências administrativas.
Um projeto de Estado precisa ir além e responder para onde o Rio pretende caminhar. Precisa estabelecer prioridades, reconhecer vocações territoriais, identificar gargalos e explicar como políticas aparentemente distintas — segurança, educação, transporte, energia, desenvolvimento econômico e infraestrutura — podem trabalhar na mesma direção.
PAES E UMA OPORTUNIDADE POLÍTICA RARA
Eduardo Paes chega à disputa carregando uma vantagem que merece ser examinada independentemente de preferência eleitoral: experiência administrativa e elevada capacidade de articulação política. Caso seja eleito, poderá encontrar uma circunstância federativa particularmente interessante, pois sua rede de relações políticas e municipais cria a possibilidade de estabelecer interlocução entre Prefeitura do Rio, Governo do Estado, diferentes municípios e Governo Federal.
Essa capacidade poderá existir sob diferentes configurações políticas em Brasília. Uma eventual continuidade do atual governo federal manteria canais políticos já estabelecidos; uma vitória de um nome nacional do próprio campo partidário de Paes criaria outra possibilidade de interlocução; e mesmo uma Presidência oriunda de um campo político adversário não eliminaria a necessidade de cooperação institucional com um dos estados mais importantes da Federação.
Mas capacidade de articulação não é projeto de desenvolvimento. O verdadeiro teste para Paes será demonstrar se consegue transformar capital político em integração territorial. O circuito Brasília–Palácio Guanabara–Prefeitura do Rio não pode terminar na Avenida Brasil; precisa alcançar os 92 municípios e chegar não apenas por meio de obras, mas através de uma estratégia econômica capaz de conectar diferentes regiões.
A oportunidade existe. A série procurará descobrir se existe também o projeto.
RUAS E O DESAFIO DO “RIO REAL”
Douglas Ruas constrói parte importante de seu discurso sobre segurança pública, reorganização administrativa e a realidade encontrada fora do Rio dos cartões-postais. Há uma questão relevante nessa leitura. A precariedade dos serviços públicos, o domínio territorial do crime e as dificuldades enfrentadas diariamente por milhões de moradores das periferias constituem problemas concretos que nenhum governo poderá contornar.
A questão começa quando perguntamos o que acontece depois. Reduzir cargos pode tornar a administração mais eficiente e reorganizar as forças policiais pode melhorar a segurança, mas nenhuma das duas providências explica, isoladamente, de onde virão novos empregos, quais atividades econômicas serão estimuladas ou como as regiões serão conectadas.
É aí que infraestrutura, educação profissional, indústria, tecnologia e logística precisam aparecer. Ordem é condição para o desenvolvimento, mas não substitui o desenvolvimento. O programa de Ruas terá de demonstrar como pretende fazer essa passagem.
GAROTINHO E O CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO
Anthony Garotinho traz uma característica diferente para a disputa. Poucos personagens da política fluminense contemporânea construíram relações tão profundas com municípios do interior e determinados segmentos populares do Estado. Esse conhecimento territorial possui valor político e não deve ser desprezado em qualquer análise séria da eleição.
A pergunta, novamente, precisa olhar para frente: esse conhecimento acumulado consegue ser convertido em uma estratégia contemporânea de desenvolvimento? O Rio de 2026 precisa discutir energia, transformação digital, novas cadeias industriais, economia do mar, agroindústria, inovação, logística, qualificação profissional e integração regional. Conhecer o território é importante; é preciso também apresentar um projeto para transformá-lo.
Sua candidatura enfrenta questionamento jurídico que deverá ser decidido pela Justiça Eleitoral. Enquanto permanecer registrada e em disputa, suas propostas devem passar pela mesma régua aplicada às demais candidaturas, sem antecipação de julgamento político ou judicial.
A CONTA PRECISA FECHAR
Existe uma pergunta incômoda que acompanhará toda esta série: quem paga? O rigor não é acadêmico. O Rio entra nesta eleição ainda submetido a fortes restrições fiscais e a uma pesada conta da dívida pública. Cada nova política terá de disputar espaço dentro de um orçamento pressionado.
Durante uma campanha, prometer não custa nada ao orçamento público. Governar é diferente: cada decisão encontra uma conta, uma competência administrativa, um prazo e recursos que deixam de estar disponíveis para outra prioridade.
Há propostas que dependem exclusivamente do Governo do Estado, outras dependem da União, algumas precisam dos municípios e muitas exigirão concessões, financiamentos, parcerias ou participação do setor privado. Por isso, dizer que determinada obra ou política pública será realizada não basta. É necessário explicar quanto custa, de onde virão os recursos, quem possui competência para executá-la e quanto tempo será necessário.
É nesse ponto que a série pretende sair do debate eleitoral convencional. Uma ideia pode ser excelente e, ainda assim, estar sendo apresentada pelo candidato errado para executá-la, depender de recursos que não existem ou exigir dez anos quando é anunciada como promessa para um mandato.
A PROVA DOS PROGRAMAS
A série partirá prioritariamente dos programas registrados na Justiça Eleitoral. Discursos, entrevistas, debates e anúncios posteriores poderão complementar a análise, mas não substituirão aquilo que cada candidatura formalmente colocou no papel.
A TRIBUNA DA IMPRENSA adotará uma única régua para todos os candidatos, independentemente de partido, ideologia ou posição nas pesquisas. Cada proposta relevante será submetida a seis perguntas.
O que propõe? Precisamos compreender qual problema pretende resolver, se o objetivo está claramente definido e qual resultado promete entregar.
Quem pode fazer? A medida é competência do Governo do Estado ou depende da União, dos municípios, de outros poderes ou de parceiros privados?
Quanto custa? Existe uma estimativa realista do investimento necessário e das despesas permanentes que poderão decorrer da proposta?
Quem paga? Os recursos virão do Tesouro estadual, do Governo Federal, de financiamento, concessão, parceria privada ou de alguma fonte ainda não identificada?
Cabe em quatro anos? É possível iniciar e entregar resultados dentro de um mandato ou estamos diante de um projeto necessariamente plurianual?
Integra o Estado? A proposta resolve um problema isolado ou contribui para conectar territórios, cadeias produtivas, serviços públicos e oportunidades?

Essas perguntas ajudarão a separar duas coisas que durante campanhas eleitorais costumam aparecer misturadas: promessa e projeto executável. Isso não significa que toda boa proposta precise estar concluída em quatro anos. Projetos estruturantes atravessam governos, mas um programa responsável precisa dizer onde pretende chegar, como pretende começar e quais resultados poderá entregar.
QUAL É O MAPA ECONÔMICO DO RIO?
Há uma pergunta que atravessará todos os episódios desta série: qual candidato apresenta um mapa econômico para o Estado do Rio de Janeiro?
Não basta anunciar investimentos em Campos, Volta Redonda, Nova Iguaçu, Petrópolis, Cabo Frio ou Angra dos Reis. Precisamos saber por que determinada atividade deverá ser estimulada naquele território, a qual cadeia produtiva estará conectada, qual infraestrutura será necessária, onde serão formados seus trabalhadores, que universidades e centros tecnológicos poderão participar, quais mercados serão atendidos e de que maneira tudo isso será financiado.
É quando essas respostas começam a conversar entre si que uma coleção de propostas pode se transformar em estratégia. E é também quando desenvolvimento regional deixa de significar uma lista de obras espalhadas pelo mapa e passa a significar organização econômica do território.
MAIS DE R$ 1 TRILHÃO À PROCURA DE UM PROJETO
O Rio reúne uma economia superior a R$ 1 trilhão, posição geográfica privilegiada, petróleo, gás, portos, indústria, agricultura, universidades, centros de pesquisa, turismo, biodiversidade, economia do mar e um enorme mercado consumidor. Seu PIB estadual alcançou cerca de R$ 1,17 trilhão em 2023.
Na energia, sua importância nacional é extraordinária. O Estado responde pela esmagadora maioria da produção brasileira de petróleo e por parcela igualmente relevante do gás natural. Isso não transforma o petróleo em problema; transforma-o em oportunidade. A questão é saber se o Rio conseguirá utilizar uma vantagem dessa dimensão para desenvolver outras cadeias econômicas, conhecimento, infraestrutura e capacidade produtiva capazes de permanecer quando o peso relativo dos hidrocarbonetos diminuir.
O Estado possui ativos extraordinários e problemas igualmente grandes. O desafio desta eleição não é encontrar alguém que prometa resolver todos eles. Esse candidato não existe. O que interessa é identificar quem demonstra compreender como esses problemas e oportunidades se relacionam e apresenta meios plausíveis para enfrentá-los.
FAZER O RIO CONVERSAR CONSIGO MESMO
Ao longo dos próximos 60 dias, esta série examinará segurança, finanças públicas, infraestrutura, mobilidade, saúde, educação, saneamento, indústria, energia, logística, desenvolvimento regional, inovação e governabilidade. A mesma régua será utilizada durante todo o percurso, confrontando propostas com competências, recursos, prazos e capacidade de execução.
A TRIBUNA DA IMPRENSA não é governo nem oposição e, nesta série, também não será cabo eleitoral. O papel do jornal será informar, comparar e questionar, oferecendo ao leitor elementos para compreender melhor as escolhas colocadas diante dele.
Porque o próximo governador não precisará apenas administrar o Estado. Precisará fazer o Rio conversar consigo mesmo.
Os candidatos têm planos. Os próximos 60 dias ajudarão a descobrir se algum deles possui, de fato, um projeto para o Rio.




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