Carne premium do Pampa: luxo supérfluo ou ativo estratégico inelástico?

Tribuna da Imprensa entrevista Jorge Furtado, executivo especialista em mercado de gado de corte premium criado a pasto


Carne premium do Pampa: luxo supérfluo ou ativo estratégico inelástico? Imagem criada por IA

Num momento em que o mundo debate inflação alimentar, mudanças climáticas e novas exigências sanitárias, a carne bovina premium criada a pasto no Pampa gaúcho, uruguaio e argentino passa a ocupar um lugar singular no comércio internacional. À primeira vista, trata-se de um produto tipicamente supérfluo, associado ao consumo de alto padrão e a experiências gastronômicas sofisticadas. No entanto, a realidade dos mercados globais tem mostrado que essa proteína possui comportamento de demanda muitas vezes menos sensível ao preço do que sugerem os manuais clássicos de economia.


A teoria tradicional sustenta que bens de luxo tendem a apresentar elevada elasticidade, ou seja, seu consumo diminui de forma significativa diante de aumentos de preço ou de choques econômicos. No caso da carne premium grass-fed do Pampa, porém, a dinâmica revela nuances importantes. Consumidores de alta renda e redes gastronômicas especializadas valorizam atributos que transcendem o custo imediato, como origem territorial, regularidade de fornecimento, reputação sanitária e características sensoriais específicas. Nesse contexto, a substituição por carnes produzidas em sistemas intensivos ou de menor rastreabilidade não ocorre de forma direta, o que contribui para reduzir a sensibilidade da demanda a variações pontuais de preço.


Segundo o executivo Jorge Furtado, que atua em operações internacionais da HELFRIG AGROVIVA GLOBAL FOODS e na plataforma logística PAMPA LOG, a percepção de valor associada à carne premium do Pampa está profundamente ligada à confiança construída ao longo de décadas. Para ele, o consumidor que opta por esse produto não está apenas adquirindo proteína animal, mas também segurança sanitária, sustentabilidade produtiva e tradição cultural. Essa combinação de fatores altera significativamente o comportamento de compra e cria um ambiente de maior previsibilidade comercial. Furtado ressalta ainda que, no comércio internacional de cortes nobres, a regularidade logística e a padronização de carcaças podem ser mais determinantes do que oscilações pontuais de preço, já que importadores e redes de restaurantes trabalham com planejamento de cardápio, contratos de longo prazo e padrões rigorosos de qualidade.


O avanço da carne grass-fed do Cone Sul também reflete uma disputa simbólica no mercado global de proteínas premium. Ao lado do wagyu japonês, do beef australiano e dos cortes norte-americanos classificados como USDA Prime, a produção do Pampa constrói uma narrativa própria baseada em criação extensiva, menor dependência de grãos, bem-estar animal e menor pegada ambiental relativa. Esses atributos têm sido incorporados às estratégias de branding territorial, transformando regiões historicamente pecuárias em verdadeiras plataformas econômicas voltadas à exportação de valor agregado.


Do ponto de vista macroeconômico, especialistas observam que o fortalecimento desse segmento pode gerar impactos relevantes para o desenvolvimento regional. O aumento da demanda por certificações ambientais e sanitárias tende a estimular investimentos em tecnologia, rastreabilidade e logística frigorificada, ao mesmo tempo em que contribui para elevar a renda rural e consolidar clusters agroindustriais. Em um cenário de integração produtiva no Cone Sul, corredores logísticos, zonas portuárias e estruturas de processamento passam a desempenhar papel estratégico na inserção competitiva dessas proteínas nos mercados europeu, asiático e do Oriente Médio.


Assim, a carne premium criada a pasto no Pampa desafia classificações simplistas. Entre o luxo gastronômico e o ativo estratégico de exportação, ela representa uma nova fronteira em que economia, território e sustentabilidade se entrelaçam. Mais do que um nicho gourmet, trata-se de um vetor de posicionamento internacional capaz de redefinir o papel da pecuária regional no comércio global de alimentos.


Leia a seguir, a entrevista com Jorge Furtado:




TRIBUNA DA IMPRENSA: Em sua visão, a carne premium do Pampa é nicho gourmet ou ativo estratégico?


JORGE FURTADO: A meu ver, ela já ultrapassou o estágio de nicho gastronômico. Trata-se de um ativo estratégico de exportação porque agrega valor territorial, previsibilidade produtiva e reputação sanitária. Em mercados exigentes, como Europa e parte da Ásia, esses fatores pesam tanto quanto o preço.


TRIBUNA DA IMPRENSA: Bens supérfluos são mais sensíveis a preço. Isso ocorre nesse segmento?


JORGE FURTADO: Não totalmente. Existe sensibilidade a ciclos econômicos, mas dentro do público consumidor premium a elasticidade é menor do que se imagina. Restaurantes e importadores trabalham com posicionamento de marca e experiência, o que cria uma demanda mais estável para cortes de alta qualidade.


POSICIONAMENTO INTERNACIONAL


TRIBUNA DA IMPRENSA:  Quais são os diferenciais reais do Pampa?


JORGE FURTADO: O principal diferencial é a criação extensiva em pastagens naturais, com menor dependência de confinamento e grãos. O pampa abriga centenas de gramíneas de diferentes tipos que produzem um alimento natural extremamente rico e diferenciado para o gado. Animais criados a pasto nativo e pastagens produzem uma carne que, usando um sentido figurado, poderia ser chamada de "carne verde", pois é 100% natural, livre de compostos que atuam na aceleração da engorda. Isso gera perfil sensorial específico e permite construir narrativa consistente de sustentabilidade e bem-estar animal. 


TRIBUNA DA IMPRENSA:  Existe construção de marca territorial?


JORGE FURTADO: Sim, ainda de forma fragmentada. Alguns frigoríficos, tradings e operadores logísticos vêm trabalhando essa identidade. O desafio é integrar produção, certificação e comunicação para transformar o território em uma marca global reconhecida.


 LOGÍSTICA COM FATOR DE VALOR


TRIBUNA DA IMPRENSA: Quanto pesa a previsibilidade logística?


JORGE FURTADO: Pesa muito. Importadores não querem apenas bons cortes, querem regularidade de embarque e padronização. A confiança logística reduz riscos e permite contratos mais longos, o que sustenta margens melhores.


TRIBUNA DA IMPRENSA: Corredores logísticos podem mudar o jogo?


JORGE FURTADO: Sem dúvida. Infraestrutura eficiente reduz custos, encurta prazos e amplia mercados acessíveis. O Cone Sul tem potencial enorme, mas ainda enfrenta gargalos em integração portuária, rodoviária e burocrática.


ECONOMIA E CICLOS


TRIBUNA DA IMPRENSA: Em crises globais, o consumo despenca?


JORGE FURTADO: Há ajustes, principalmente em volumes e escolha de cortes. Porém, uma base de consumo premium permanece, porque atende a um público menos sensível à renda no curto prazo.


TRIBUNA DA IMPRENSA: O perfil dos compradores mudou?


JORGE FURTADO: Sim. Há maior presença de tradings estruturadas e redes internacionais que trabalham com planejamento de longo prazo. Isso profissionaliza o mercado e reduz volatilidade.


SUSTENTABILIDADE 


TRIBUNA DA IMPRENSA: A narrativa ambiental é consistente?


JORGE FURTADO: Ela é consistente em muitos casos, mas precisa evoluir em mensuração e certificação. O mercado caminha para exigir dados concretos de pegada ambiental e rastreabilidade.


VISÃO FINAL


TRIBUNA DA IMPRENSA: Qual o verdadeiro ativo econômico por trás da carne premium do Pampa?


JORGE FURTADO: A combinação entre território, reputação sanitária e capacidade logística. Esses três elementos, quando bem integrados, criam vantagem competitiva difícil de replicar. A carne produzida no bioma Pampa é considerada a mais saudável do planeta. E aliando estes todos estes pontos, a grande verdade é que no mercado premium global, quem garante regularidade logística e identidade territorial consistente constrói demanda antes mesmo de negociar preço.




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