Rodrigo Rocha
Quem tem medo da inteligência?
IA, oportunidades e um novo horizonte para o interior do Brasil
Há uma discussão curiosa crescendo no mundo. Algumas das pessoas que estão no centro do desenvolvimento da inteligência artificial defendem agora que seu avanço seja desacelerado. Nos Estados Unidos, Donald Trump reagiu aos alertas, afirmou que os robôs não dominarão o mundo e sustentou que seu país não pode abrir mão da liderança nessa corrida tecnológica. Entre uma posição e outra existe uma discussão necessária sobre segurança. Mas existe outra, menos comentada: o que acontece com as estruturas tradicionais de poder quando milhões de pessoas passam a ter acesso a uma capacidade de conhecimento que antes lhes era praticamente inacessível?
Essa pergunta interessa particularmente ao Brasil. Durante séculos, conhecimento de qualidade foi caro, concentrado e geograficamente desigual. Quem estava numa grande capital encontrava universidades, consultores, advogados, engenheiros, economistas, bibliotecas, centros de pesquisa e redes de relacionamento. Quem estava a centenas ou milhares de quilômetros desses centros precisava aprender a resolver seus problemas com aquilo que estivesse ao alcance.
A inteligência artificial começa a romper essa distância.
QUANDO O CONHECIMENTO MUDA DE ENDEREÇO
Pensemos menos no executivo de São Paulo que utiliza IA para resumir uma reunião e mais no pequeno empresário de uma cidade do interior que nunca teve um departamento de planejamento. Pensemos no produtor rural tentando compreender melhor seus custos, no jovem elaborando seu primeiro plano de negócios, numa associação de produtores pesquisando mercados, no comerciante tentando entender por que sua rua perdeu movimento ou no administrador de uma pequena cidade querendo conhecer soluções adotadas em outros lugares.
Nenhuma dessas pessoas se transforma automaticamente em especialista porque ganhou acesso à inteligência artificial. Mas todas passam a poder fazer perguntas que antes nem sabiam como formular. E isso é revolucionário.
O ABISMO DAS EXPECTATIVAS
Um dos grandes abismos brasileiros não é apenas o da renda. É também o das expectativas. Há territórios extraordinariamente ricos em terra, cultura, produção, natureza e gente empreendedora nos quais sucessivas gerações aprenderam a esperar pouco. Não porque lhes falte inteligência, mas porque frequentemente lhes faltaram informação, referências, instrumentos e acesso às pessoas capazes de ajudá-las a enxergar além do horizonte conhecido.
A IA pode funcionar como uma janela. Um produtor continuará precisando do agrônomo. Um empreendedor continuará precisando do contador e do advogado. Uma prefeitura continuará precisando de engenheiros, técnicos e servidores qualificados. A inteligência artificial não elimina o conhecimento especializado. Ela aumenta a capacidade das pessoas de conversar com os especialistas, compreender alternativas, comparar caminhos e formular perguntas melhores.
É aí que a discussão sobre refrear a tecnologia ganha uma dimensão econômica, social e política muito maior.
REGULAR O RISCO NÃO É REFREAR O CONHECIMENTO
Os riscos existem. Segurança é indispensável. Responsabilidade também. Crianças, dados pessoais, sistemas críticos, fraudes, armamentos e decisões que afetam direitos não podem ficar entregues à aventura tecnológica. Há razões legítimas para estabelecer salvaguardas, e parte da própria indústria vem defendendo maior cautela.
Mas regular riscos é uma coisa. Construir uma muralha ao redor do conhecimento é outra. Também seria ingênuo imaginar que uma transformação dessa magnitude não mexe com interesses econômicos e estruturas de poder. Quando uma tecnologia sofisticada deixa de ser privilégio de grandes empresas, governos, universidades e profissionais altamente especializados e começa a chegar ao cidadão comum, muda-se alguma coisa na distribuição do conhecimento — e, portanto, na distribuição do poder.
A humanidade já assistiu a movimentos semelhantes. A imprensa barateou a circulação das ideias. A escola pública espalhou alfabetização. O rádio e a televisão atravessaram distâncias. A internet colocou bibliotecas inteiras dentro de casas que jamais teriam uma. Em cada uma dessas transformações houve riscos, abusos e concentração econômica. Houve também uma formidável ampliação da capacidade humana.
A inteligência artificial acrescenta algo novo: ela não apenas entrega informação. Ajuda a organizá-la, questioná-la e transformá-la em ação. Para um país continental como o Brasil, isso pode ser extraordinário. Temos 5.570 municípios e milhares de comunidades que não precisam esperar que alguma inteligência desembarque de avião vinda de Brasília, São Paulo ou do exterior para começar a pensar seu próprio futuro. Ferramentas sofisticadas de análise e conhecimento podem acompanhar uma pessoa no interior do Piauí, do Pará, do Rio Grande do Sul ou do Rio de Janeiro pelo mesmo telefone que ela carrega no bolso.
QUANDO O CABRESTO DEIXA DE FUNCIONAR
E aqui está uma das questões centrais desse debate: quem sempre dependeu da escassez de informação para exercer poder terá mais dificuldade diante de uma população capaz de perguntar, pesquisar, comparar e contestar.
Uma sociedade de baixas expectativas é fácil de conduzir. Uma população que começa a descobrir suas vocações, compreender seus ativos, comparar experiências e enxergar oportunidades torna-se muito menos dependente daqueles que sempre lhe disseram até onde poderia chegar.
O cabresto não precisa ser de couro. Pode ser feito de ignorância, isolamento, dependência e falta de perspectiva.
Por isso, a inteligência artificial não deve ser tratada como uma divindade tecnológica, muito menos como substituta do ser humano. Também não deve ser transformada numa ameaça abstrata que justifique impedir milhões de pessoas de acessar uma das ferramentas de conhecimento mais poderosas já produzidas.
Não precisamos escolher entre prudência e progresso. Precisamos das duas coisas. Refrear abusos, sim. Refrear conhecimento, não.
O desafio brasileiro é colocar essa nova inteligência a serviço da inteligência que já existe nos nossos territórios. Permitir que pessoas que sempre conheceram profundamente sua terra, seu trabalho e sua realidade tenham instrumentos para enxergar mercados, tecnologias, experiências e possibilidades que antes estavam distantes demais.
Quando isso acontecer, muita gente que durante décadas enxergou apenas os limites de sua realidade começará a enxergar horizontes.
E horizontes, quando aparecem, têm uma inconveniência histórica para quem prefere os outros olhando para o chão: dão vontade de caminhar.





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