Rodrigo Rocha
O tempo do casulo
Preparando asas capazes de voar
Vivemos numa época em que todos querem mostrar as asas. Poucos aceitam viver o tempo do casulo.
O casulo parece fracasso para quem olha de fora. É silencioso. Não produz aplausos. Não rende manchetes. Dá a impressão de que nada está acontecendo. Mas é justamente ali que a natureza realiza sua obra mais extraordinária.
A lagarta não entra no casulo para fugir do mundo. Ela entra porque existe uma transformação que não pode acontecer em praça pública. Há processos que exigem silêncio. Há projetos que precisam amadurecer longe dos holofotes. Há pessoas que Deus recolhe por um tempo, não para diminuí-las, mas para prepará-las.
Vivemos num país fascinado por atalhos. A política procura atalhos. Parte do empresariado procura atalhos. Muitos querem resultados antes do trabalho, prestígio antes da construção e riqueza antes da criação de valor. A natureza ensina exatamente o contrário. Quem rompe o casulo antes da hora não salva a borboleta. Impede que ela voe.
Essa reflexão tem me acompanhado nos últimos dias. Olhando para trás, percebo que vivi uma longa imersão. Passei anos percorrendo o coração do Pampa Gaúcho, estudando logística ferroviária, mercados internacionais de proteína, estruturando uma empresa em Montevidéu, concebendo a marca SABORES BRASIL AGRONATURAL, desenhando o Brasil 350, amadurecendo a governança da AGROVIVA, desenvolvendo a plataforma Achei no Bairro, estudando Capital de Impacto, reconstruindo a TRIBUNA DA IMPRENSA e imaginando novas formas de aproximá-la do nosso propósito, como o projeto de revitalização das bancas de jornais integradas à oferta de alimentos saudáveis. Também errei. Fiz investimentos que não produziram os resultados esperados. Tomei decisões das quais hoje tiraria conclusões diferentes. Mas, curiosamente, não consigo chamar esse período de tempo perdido.
Enquanto muita gente mede o sucesso apenas pelo que já saiu do papel, Deus parece medir pelo que foi construído dentro de nós durante a caminhada. Nem todo investimento gera retorno financeiro. Alguns produzem discernimento. Nem todo projeto prospera. Alguns existem para ensinar o que não deve ser repetido. Há uma diferença enorme entre fracasso e lapidação. O fracasso encerra uma história. A lapidação prepara a próxima.
Hoje percebo que, antes de construir empresas, Deus costuma construir o empreendedor. Antes dos galpões, fortalece convicções. Antes dos investidores, consolida princípios. Antes das grandes realizações, ensina a reconhecer os atalhos que jamais poderão ser percorridos. Talvez por isso eu esteja mais tranquilo do que ansioso. Continuo sem dispor de todo o capital necessário para colocar de pé muitos dos projetos que sonhamos, mas possuo algo infinitamente mais valioso do que tinha alguns anos atrás: direção. E direção vale muito mais do que velocidade.
Foi justamente durante esse processo que compreendi melhor a razão de existir da VIDEIRAINVEST.
Durante muito tempo pensei que nossa missão fosse construir empresas. Depois imaginei que fosse estruturar investimentos. Mais tarde concluí que nossa vocação era integrar Arranjos Produtivos Locais. Tudo isso continua verdadeiro, mas hoje enxergo algo maior.
A VIDEIRAINVEST não é a lagarta. Também não é a borboleta. A VIDEIRAINVEST é o casulo.
Ela existe para proteger transformações. Para oferecer governança onde existe potencial, organização onde existe dispersão, confiança onde existe insegurança. Não pretende substituir produtores, empresários, cooperativas, agroindústrias, investidores ou comunidades. Sua missão é criar um ambiente seguro para que todos possam amadurecer e descobrir sua melhor forma de voar.
Essa compreensão mudou a maneira como passei a enxergar nossos projetos. A AGROVIVA deixou de ser apenas uma plataforma tecnológica e passou a representar um ambiente de integração. O Brasil 350 deixou de ser apenas um conjunto de propostas e tornou-se um método de organização territorial. A própria TRIBUNA DA IMPRENSA deixou de ser apenas um veículo de comunicação para assumir o papel de espaço de encontro entre ideias, pessoas e regiões do Brasil que insistem em produzir, empreender e acreditar.
Talvez seja essa a grande missão de qualquer instituição que deseja permanecer relevante: não disputar protagonismo com aqueles que ajuda a desenvolver. O casulo nunca compete com a borboleta. Sua alegria está justamente em vê-la voar. Se um dia conseguirmos contribuir para que centenas de ecossistemas produtivos floresçam pelo Brasil, pouco importará quem receberá os aplausos. Bastará saber que produtores prosperaram, cidades descobriram suas vocações, empresas nasceram sólidas e famílias encontraram novas oportunidades.
Hoje estamos decididos a iniciar a implantação do Campus AGROVIVA I, em Seropédica. Ainda não dispomos de todos os recursos financeiros que gostaríamos. Durante muito tempo eu teria dito que era preciso esperar. Hoje penso diferente. Algumas obras começam muito antes da chegada do dinheiro. Começam quando a convicção supera o medo. O capital financia construções; a fé inaugura caminhos.
Não por acaso, a passagem bíblica que mais tem falado ao meu coração nestes dias é a de Hebreus: “A fé é a certeza das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem.” O mundo costuma acreditar apenas naquilo que já está de pé. A fé nos ensina a trabalhar por aquilo que ainda está invisível.
Minha oração, portanto, tornou-se muito simples. Que eu jamais despreze o silêncio do casulo. Que eu tenha serenidade para permanecer nele enquanto Deus ainda estiver aperfeiçoando a obra.
E que, quando chegar o tempo certo, eu compreenda que o verdadeiro propósito do casulo nunca foi aparecer.
Foi preparar asas capazes de voar.




COMENTÁRIOS