Alberto Coimbra
O Setor de Combustíveis em Xeque?
A Recuperação Extrajudicial da Raízen e o Xadrez do Downstream
Colabore! pix@tribuna.com.br Ao longo de mais de uma década atuando na área jurídica do setor de petróleo, tive o privilégio de vivenciar os ciclos do nosso mercado por diversos ângulos. Fosse representando grandes companhias do upstream em escritórios especializados ou atuando diretamente nos departamentos jurídicos de empresas de refino, distribuição e revenda (downstream), aprendi que este é um setor de margens estreitas e resiliência proporcional aos seus riscos.
Nesta semana, o mercado foi impactado pelo pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, a segunda maior player do setor. O movimento, embora preventivo e focado em dívidas financeiras, acende um alerta sobre a complexidade do momento atual.
O Tamanho do Desafio e o Plano de Voo
O passivo da Raízen que motivou o pedido de recuperação extrajudicial gira em torno de R$ 65,1 bilhões. É um número que impressiona, mas é preciso olhar para a natureza dessa reestruturação:
• Foco Financeiro: O processo parece ser estritamente financeiro, em tese, não afetando fornecedores, parceiros ou a rede de revenda.
• Aporte de Capital: Um ponto fundamental para a credibilidade do plano é o suporte dos sócios. Há a previsão de um aporte de R$ 4 bilhões, sendo R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões da família Ometto (via veículo de investimento).
• Objetivo: Otimizar o perfil da dívida e garantir fôlego para que a geração de caixa operacional volte a superar o custo do capital.
Por que a crise chegou à "gigante"?
A análise dos fatores que levaram a Raízen a este ponto revela uma "tempestade perfeita" entre gestão e mercado:
1. Alavancagem e Juros: A empresa apostou em uma expansão agressiva e em tecnologias de fronteira (como o Etanol de Segunda Geração - E2G) financiadas por dívida. Com a manutenção da taxa Selic em patamares elevados, o custo desse capital tornou-se asfixiante.
2. Fatores Climáticos: Quebras de safra sucessivas e eventos climáticos extremos reduziram a produtividade da cana-de-açúcar, impactando o braço sucroenergético da companhia.
3. Concorrência do Etanol de Milho: Enquanto a Raízen investia em tecnologias complexas, o etanol de milho ganhou mercado com custos mais competitivos e execução mais ágil.
O Próximo Ato: Movimentações na Vibra e Ipiranga
Para quem conhece os bastidores, o caso da Raízen não é um fato isolado, mas parte de uma reconfiguração profunda do setor. O "curto prazo" promete ser agitado:
• Vibra (nº 1): O mercado segue atento aos rumores — cada vez mais fortes — sobre um possível retorno da Petrobras como controladora da companhia. A estratégia atual da estatal sinaliza um desejo de retomar a integração vertical e a presença direta no varejo.
• Ipiranga (nº 3): Por outro lado, o grupo Ultrapar tem dado sinais de que pode considerar a venda de sua participação na Ipiranga, com nomes como a Chevron aparecendo em conversas de bastidores como potencial interessada.
Estamos diante de grandes movimentações no xadrez do downstream brasileiro. Para os profissionais do setor, o momento exige vigilância técnica, jurídica e regulatória, pois a estabilidade operacional, agora mais do que nunca, depende de uma reestruturação financeira sólida e de uma visão estratégica clara sobre o papel das grandes bandeiras no Brasil.
Alberto Coimbra é sócio do escritório Albuquerque e Coimbra Advogados
Email: contato@aecadvogados.com



COMENTÁRIOS