Rodrigo Rocha
Quando os Trilhos Voltam a Conduzir o Futuro
O turismo ferroviário como instrumento de soft power e reorganização econômica territorial
Seja um colaborador: pix@tribuna.com.br Há algo de profundamente civilizatório nas ferrovias. Diferente das rodovias, que atravessam o território com pressa, os trilhos desenham o espaço com método. Eles conectam cidades, formam economias, estruturam cadeias produtivas e, sobretudo, constroem memória.
Não é por acaso que as grandes nações preservam suas rotas ferroviárias históricas não apenas como patrimônio cultural, mas como ativos estratégicos.
O turismo ferroviário, que muitos tratam como atividade nostálgica, é na verdade uma poderosa ferramenta contemporânea de atração de capital, consolidação da reputação e influência internacional.
O QUE O MUNDO JÁ ENTENDEU
Na Europa, trens históricos atravessam vinhedos e Alpes como experiências premium. Na Ásia, rotas ferroviárias conectam tradição e modernidade. Nos Estados Unidos, linhas turísticas revitalizaram pequenas cidades industriais.
O que esses exemplos têm em comum não é apenas o charme da locomotiva — é a compreensão de que ferrovia é narrativa de longo prazo.
Trilhos ativos transmitem estabilidade, linguagem universal do capital.
O CASO DO CORREDOR URUGUAIO
No Cone Sul, há um exemplo silencioso que merece atenção. O eixo ferroviário que liga Rivera a Montevidéu, atravessando o coração produtivo do Uruguai, carrega muito mais do que cargas agrícolas com ou sem beneficiamento. Ele carrega a possibilidade de reposicionar o território como vitrine internacional.
Uma rota turística ferroviária estruturada entre a fronteira brasileira e a capital uruguaia poderia integrar:
- Gastronomia do Pampa
- Vinhos e azeites uruguaios
- Pecuária premium
- Silvicultura sustentável
- Cultura binacional
- Queijo e doce de leite. Isso então, nem me fale! Taí um santo remédio para memória.
Mais do que passeio, seria uma demonstração concreta de organização territorial. E investidores gostam de territórios organizados.
FERROVIA COMO SOFT POWER
Soft power não é apenas cultura exportada. É a capacidade de um território gerar admiração e confiança.
Uma ferrovia turística ativa gera fluxo internacional, amplifica cobertura midiática, valoriza imóveis e terras, eleva percepção de governança e atrai investidores institucionais.
Ela transforma infraestrutura em símbolo. E símbolos, quando consistentes, atraem capital.
O TERRITÓRIO COMO ATIVO
Há uma nova economia emergindo no mundo: a economia da confiança territorial. Investidores já não buscam apenas retorno financeiro; buscam estabilidade ambiental, governança previsível e ativos reais.
Um corredor ferroviário que conecta produção, porto e experiência turística não é apenas logística. É um ecossistema. E todo ecossistema maduro naturalmente desenvolve instrumentos financeiros próprios.
Talvez o futuro da infraestrutura não esteja apenas no concreto e no aço, mas também na capacidade de traduzir território em valor reconhecível internacionalmente.
OPORTUNIDADE HISTÓRICA
O Rio Grande do Sul e o Uruguai compartilham história, cultura e vocação produtiva.
Depois das adversidades climáticas que marcaram o Sul do Brasil, reconstruir passa também por reorganizar. E reorganizar significa reconectar trilhos - cidades - capital e produção.
O turismo ferroviário pode ser o primeiro movimento visível dessa nova fase. Porque antes de financiar o território, é preciso que o mundo volte a enxergá-lo.
E poucas imagens são tão poderosas quanto a de um trem cruzando o Pampa ao pôr do sol — conduzindo não apenas cargas e passageiros, mas a percepção de que ali existe futuro.



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