Rodrigo Rocha
Quando os tratores chegam às capitais
Um alerta que o mundo precisa ouvir
Colabore com nossa manutenção: pix@tribuna.com.br Nos últimos meses, uma imagem tem se repetido no coração político da Europa: tratores ocupando avenidas, agricultores bloqueando acessos, produtores rurais manifestando-se em Bruxelas, sede das decisões da União Europeia.
Não se trata de folclore nem de radicalismo. Trata-se de um sinal de alerta.
Quando quem produz alimento precisa ir às ruas para defender o direito de produzir, algo profundo está em desequilíbrio. E esse desequilíbrio não é apenas agrícola — é econômico, geopolítico e civilizatório.
A PRODUÇÃO REAL SOB PRESSÃO
Os agricultores europeus não protestam contra a modernização, nem contra a sustentabilidade. Protestam contra um modelo que, em nome de abstrações regulatórias e disputas de poder, encarece, fragiliza e desestimula a produção real, ao mesmo tempo em que transfere valor para estruturas distantes do território e alheias ao risco produtivo.
Há, sim, uma guerra velada de poder em curso. Não uma guerra de tanques, mas de regras, custos, crédito, logística e controle de cadeias produtivas.
Reconhecer isso não é conspirar. É ler a história econômica em tempo real.
QUEM PRODUZ NÃO PROSPERA NO CAOS
É impossível ignorar que há setores da classe dominante global que prosperam na instabilidade, na volatilidade e na escassez. Seu modelo de negócio não depende da produção, mas do desequilíbrio financeiro.
Produtores rurais, agricultores, pecuaristas e empreendedores territoriais, ao contrário, dependem de previsibilidade, logística funcional, crédito adequado e custos controláveis. Quando esses elementos são corroídos, a conta não aparece nos balanços financeiros — aparece no campo, na indústria e no território.
Os protestos em Bruxelas são, antes de tudo, uma reação contra essa assimetria.
ALIMENTO, LOGÍSTICA E CAPITAL PRODUTIVO VOLTARAM A SER PODER
A história nunca deixou dúvidas: alimento é poder, logística é soberania. E capital produtivo é independência econômica.
Após décadas de financeirização extrema, esses fundamentos retornam ao centro do tabuleiro global não por ideologia, mas por necessidade. Cadeias longas falham, mercados tornam-se instáveis, regras se impõem sem diálogo com a realidade produtiva — e o chão volta a importar.
Nesse cenário, o financiamento de longo prazo deixa de ser detalhe técnico e passa a ser instrumento estratégico.
O CONE SUL COMO RESPOSTA RACIONAL E PRODUTIVA
É nesse contexto que o Cone Sul se apresenta como uma resposta racional à instabilidade global.
Brasil e Uruguai formam um eixo natural de integração produtiva e logística, especialmente a partir do Pampa Gaúcho, território reconhecido internacionalmente pela qualidade agropecuária, pela escala possível e pela estabilidade institucional relativa.
Ao redor desse eixo, países como Argentina, Paraguai, Chile e Bolívia exercem papéis complementares: produção agrícola em escala, oferta energética, corredores bioceânicos, acesso portuário ao Pacífico e integração fluvial.
Esse arranjo só alcança seu potencial pleno quando acompanhado por financiamento adequado à formação bruta de capital — máquinas, equipamentos, implementos agrícolas, tecnologia agroindustrial e capital de giro direto para quem efetivamente produz.
FINANCIAR PRODUÇÃO NÃO É O MESMO QUE FINANCIAR ESPECULAÇÃO
Há uma distinção que precisa ser dita com clareza. Financiar tratores, colheitadeiras, implementos, frigoríficos, silos, ferrovias, armazéns e capital de giro produtivo aumenta produtividade, renda e soberania econômica.
Financiar operações de curto prazo baseadas em arbitragem de juros, câmbio e volatilidade — o conhecido carry trade — não constrói país, apenas transfere renda e engorda balanços desconectados da economia real.
O Brasil e o Cone Sul precisam de parceiros financeiros — nacionais e internacionais — dispostos a investir no longo prazo, com retorno associado à produção, e não à instabilidade.
PRODUZIR É UM ATO POLÍTICO — NO MELHOR SENTIDO
Quando agricultores europeus protestam em Bruxelas, estão dizendo algo simples e universal: sem produção, não há soberania; sem soberania, não há estabilidade e sem estabilidade, não há futuro.
Essa mensagem ecoa muito além da Europa. No Cone Sul, há a oportunidade de fazer diferente: organizar cadeias produtivas com racionalidade, integrar mercados sem esmagar produtores, usar logística como instrumento de cooperação, e estruturar crédito como alavanca produtiva — não como armadilha financeira.
NOSSO POSICIONAMENTO
Como empresário brasileiro comprometido com a economia real e com a integração produtiva regional, faço uma escolha clara: não prosperamos na instabilidade. Não lucramos com a escassez. Não dependemos da especulação de curto prazo.
Apostamos em produção de qualidade, logística integrada, cooperação regional e financiamento de longo prazo voltado à formação bruta de capital real.
Em um mundo cada vez mais barulhento, nossa posição é silenciosa — e firme.
UM RECADO AOS TEMPOS ATUAIS
Os tratores em Bruxelas não são um problema europeu. São um aviso global.
Ignorá-lo é aprofundar a ruptura entre valor financeiro e valor real. Ouvi-lo é reencontrar o caminho da prosperidade duradoura.
Entre o caos financeiro e a organização produtiva, fazemos nossa escolha.








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