Jose Carlos de Assis
Integração logística Brasil–Uruguai no novo tabuleiro do Cone Sul
Ponto de equilíbrio estratégico do Mercosul
Colabore com a manutenção do jornal: pix@tribuna.com.br O debate sobre integração regional no Cone Sul deixou há muito de ser apenas uma discussão econômica. Em um mundo marcado por tensões geopolíticas crescentes, revalorização de ativos reais e crescente preocupação com segurança alimentar, a logística passou a ocupar posição central nas decisões estratégicas dos Estados.
Nesse contexto, a integração logística entre o Sul do Brasil e o Uruguai assume relevância singular. Não se trata apenas de reduzir custos de transporte ou aumentar eficiência operacional, mas de estruturar uma resposta regional pragmática a um cenário internacional em rápida transformação — resposta esta que já começa a se materializar a partir de iniciativas privadas em curso, como o corredor logístico articulado pela Pampa Log.
A redução do custo logístico nos dois sentidos — exportação e importação — é um fator decisivo dessa integração. Para o Brasil, em especial, o acesso estruturado ao Porto de Montevidéu representa uma vantagem competitiva concreta. Reconhecido por sua eficiência operacional, previsibilidade regulatória, baixa burocracia e respeito rigoroso aos prazos máximos de estadia de navios, o porto uruguaio deve ser observado como referência operacional relevante no Cone Sul.
A combinação entre procedimentos simplificados, fluidez operacional e segurança jurídica cria um ambiente logístico que privilegia planejamento e redução de custos indiretos ao longo de toda a cadeia produtiva. Para o Brasil, a integração funcional com esse porto não significa substituição ou competição com portos nacionais, mas complementaridade estratégica, ampliando opções logísticas, aumentando resiliência do sistema e oferecendo um benchmark prático de boas práticas adaptáveis às realidades nacionais.
ASPECTOS GEOPOLÍTICOS
Do ponto de vista geopolítico, o momento é igualmente sensível. A presidência do Mercosul exercida pelo Paraguai ocorre em um contexto de crescente influência dos Estados Unidos sobre a região, com pressões diretas sobre Argentina e Paraguai, hoje mais alinhados à estratégia norte-americana. Nesse cenário, a aproximação logística e produtiva com o Uruguai — país institucionalmente estável, previsível e historicamente pragmático — oferece ao Brasil uma alternativa estratégica de equilíbrio regional e autonomia decisória.
Essa discussão ganha ainda mais peso quando observamos a migração global de capitais de ativos intangíveis para ativos reais. O comportamento recente dos mercados de ouro, prata e platina sinaliza uma reprecificação global de segurança. Alimentos, proteína animal e cadeias agroindustriais confiáveis passam a ser vistos não apenas como commodities, mas como ativos estratégicos.
POTENCIAL DOS TERRITÓRIOS
É justamente nesse ponto que o corredor produtivo do Pampa se revela central. Em um raio de aproximadamente 150 a 200 quilômetros a partir de Florida, no Uruguai, encontram-se departamentos como Flores, Canelones, San José, Durazno, Lavalleja, Maldonado, além de partes de Colonia e Soriano. Dados recentes indicam extensas áreas de florestas plantadas, predominantemente de eucalipto — apenas para citar, em 2021 Florida contava com 53.666 hectares plantados, Durazno com 84.794 hectares, Lavalleja com 83.573 hectares e Soriano com 40.628 hectares. Evidentemente, nem toda essa área está imediatamente disponível, mas os números evidenciam o potencial produtivo da região.
Em um mercado cada vez mais competitivo, a disputa final se dará no preço — e o preço, por sua vez, será definido pela eficiência logística.
No lado brasileiro, o Pampa Gaúcho, com epicentro em Sant’Ana do Livramento, soma ao menos oito municípios com elevado potencial produtivo, especialmente na produção e beneficiamento de proteína vermelha. Trata-se de uma região com vocação natural, tradição produtiva e indicações geográficas capazes de sustentar cadeias de alto valor agregado, desde que conectadas a uma infraestrutura logística eficiente e previsível.
Nesse contexto, o projeto ferroviário em gestação pela Pampa Log assume papel estruturante. Ao articular mais de cinquenta estações ao longo do corredor, o projeto não se limita ao transporte de cargas. Ele cria pontos naturais de embarque e desembarque de mercadorias e pessoas, com as gares principais funcionando como polos de turismo, educação, saneamento, segurança e prosperidade local. Trata-se de um vetor de desenvolvimento territorial baseado no reconhecimento das vocações naturais de cada região.
OPORTUNIDADE ESTRATÉGICA
Mais do que um projeto regional, essa experiência permite vislumbrar algo ainda mais amplo: a possibilidade de que o corredor do Pampa funcione como um projeto-piloto — ou mínimo produto viável (MVP) de integração logística territorial. Ao articular interior produtivo, ferrovia de cargas e passageiros e porto eficiente em um mesmo ecossistema, cria-se um modelo testado na prática, capaz de gerar aprendizados replicáveis em outros eixos estruturantes do país.
Iniciativas semelhantes poderiam, por exemplo, integrar a Zona da Mata mineira a portos do Espírito Santo, ou conectar o Centro-Norte brasileiro a portos do Nordeste, sempre respeitando as vocações produtivas regionais e as especificidades institucionais de cada território. Projetos-piloto bem delimitados reduzem riscos, aceleram aprendizado institucional e criam bases concretas para uma política de integração nacional baseada menos em planos abstratos e mais em experiências bem-sucedidas.
A experiência histórica demonstra que o setor público não cria, por si só, vocações produtivas, corredores econômicos ou fluxos logísticos sustentáveis. Ele emerge quando esforços privados, ancorados em território, produção e mercado, atingem escala suficiente para demandar coordenação institucional, previsibilidade regulatória e permanência no tempo. É nessa ordem — e somente nela — que políticas públicas se tornam eficazes, investimentos estruturantes se consolidam e a infraestrutura deixa de ser obra isolada para se transformar em ativo de desenvolvimento.
Iniciativas privadas já em curso, como a integração logística do corredor do Pampa, oferecem ao Estado a oportunidade de atuar no momento correto: não como criador artificial de demanda, mas como organizador, catalisador e garantidor de um processo econômico real. Quando essa lógica é respeitada, o resultado não é apenas eficiência logística, mas coesão territorial, segurança alimentar e soberania econômica.
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