É possível voltar a ser amigo de quem pensa diferente?
Depois de uma eleição marcada pela polarização, brasileiros enfrentam um desafio que não termina nas urnas: preservar amizades, relações familiares e a capacidade de trabalhar juntos pela prosperidade coletiva
O churrasco de domingo já não é o mesmo em algumas famílias brasileiras. A carne, seja a picanha uruguaia ou o suculento acém bem cortado em bifes, continua na churrasqueira, as crianças brincam e os assuntos começam como sempre. Até que alguém menciona o nome de um político.
O ambiente muda. Uma opinião provoca outra. Surgem acusações, lembranças de escândalos, denúncias e decisões judiciais. O que deveria ser uma conversa entre pessoas que se conhecem há décadas acaba se transformando numa disputa em que ninguém parece disposto a ouvir.
Às vezes, o desentendimento termina ali. Em outras, alguém decide que não voltará ao próximo encontro.
O que aconteceu conosco?
O Brasil acaba de atravessar mais uma eleição presidencial. O resultado, controverso ou não, definiu quem governará o país, mas não encerrou as disputas que se instalaram nas famílias, nos grupos de amigos, nas empresas e até nos casamentos.
Talvez estejamos diante de uma pergunta mais importante do que aquela que dominou a campanha: depois de escolhermos nossos candidatos, ainda conseguiremos conviver uns com os outros?
QUANDO A POLÍTICA ENTRA EM CASA
Discordâncias políticas sempre existiram. Pais e filhos raramente pensaram exatamente da mesma maneira. Amigos discutem sobre economia, religião, segurança pública e costumes desde muito antes das redes sociais.
A diferença é que, em algumas relações, a discordância deixou de ser apenas uma divergência de ideias.
O voto passou a funcionar como uma espécie de atestado de caráter. Se alguém escolheu determinado candidato, logo aparecem conclusões sobre sua honestidade, inteligência, sensibilidade social ou compromisso com a democracia.
Mas será que conhecemos menos uma pessoa depois de descobrir em quem ela votou?
Aquele amigo que nos ajudou num momento difícil deixou de ser generoso? O irmão que esteve presente durante uma doença perdeu sua história de afeto? O colega que trabalha conosco há vinte anos tornou-se incompetente porque fez outra escolha eleitoral?
São perguntas incômodas. Talvez por isso precisem ser feitas.
QUANDO DISCORDAR SE TRANSFORMA EM REJEITAR
Nas redes sociais, circulam manifestações de pessoas que defendem afastar funcionários por suas posições políticas ou interromper doações a organizações porque seus dirigentes apoiam determinado partido.
Cada publicação precisa ser examinada em seu contexto. Uma declaração na internet não comprova, por si só, que uma demissão ou suspensão de doações tenha ocorrido.
Ainda assim, a disposição de anunciar esse tipo de atitude merece atenção.
É legítimo escolher a quem doar, com quem estabelecer parcerias e quais valores uma organização deve representar. Também é legítimo rejeitar práticas discriminatórias, ameaças e comportamentos incompatíveis com o respeito aos direitos das pessoas.
Mas existe uma diferença entre avaliar uma conduta concreta e rejeitar alguém simplesmente por sua preferência eleitoral.
Se o trabalho de uma instituição beneficia crianças, idosos ou famílias vulneráveis, a escolha partidária de seus dirigentes deve pesar mais do que a qualidade e a integridade dos serviços prestados?
Se um funcionário cumpre suas responsabilidades, sua opinião política deveria determinar sua permanência no emprego?
E se começarmos a selecionar amigos, empregados, fornecedores e beneficiários de nossa solidariedade conforme o candidato em quem votaram, que tipo de sociedade estaremos construindo?
O PREÇO DA INTOLERÂNCIA
A ciência política utiliza a expressão polarização afetiva para descrever um fenômeno em que a rivalidade entre grupos políticos ultrapassa o campo das ideias e passa a envolver sentimentos de antipatia e desconfiança em relação às pessoas do grupo adversário.
Não se trata apenas de considerar equivocada uma proposta econômica ou uma decisão de governo. O outro passa a ser visto como alguém moralmente suspeito.
Nesse ambiente, ouvir uma opinião diferente pode parecer uma concessão perigosa. Reconhecer um acerto do adversário soa como traição. Admitir um erro do próprio grupo torna-se quase impossível.
O problema não está em defender convicções com firmeza. Uma sociedade democrática precisa de cidadãos atentos, críticos e dispostos a cobrar responsabilidades.
A dificuldade começa quando a identidade política se torna mais importante do que os fatos. Por que exigimos provas contra nossos adversários, mas frequentemente aceitamos explicações mais generosas quando as acusações atingem nossos aliados?
Por que uma conduta que consideramos imperdoável num político pode parecer justificável quando praticada por alguém que representa nossa causa?
A corrupção, por exemplo, não se torna aceitável porque os recursos teriam financiado um projeto político considerado nobre. Tampouco a existência de irregularidades numa investigação autoriza ignorar fatos efetivamente comprovados. As responsabilidades precisam ser examinadas individualmente, com respeito às provas, ao devido processo legal e às decisões judiciais.
O mesmo critério deve valer para todos. Talvez o maior risco da polarização não seja discordarmos sobre o que é certo ou errado, mas começarmos a decidir o que é certo ou errado depois de descobrir quem praticou o ato.
A CONFIANÇA TAMBÉM É UMA INFRAESTRUTURA
A discussão parece distante dos problemas cotidianos de uma cidade. Mas será mesmo?
Quando falamos em desenvolvimento territorial, pensamos em estradas, ferrovias, portos, energia, saneamento, escolas, hospitais e oportunidades de trabalho.
Tudo isso é necessário. Mas nenhuma dessas estruturas funciona isoladamente das pessoas. Uma cooperativa depende da confiança entre produtores. Uma associação comercial precisa aproximar empresários que competem entre si. Um hospital reúne profissionais com diferentes crenças. Uma comunidade precisa encontrar soluções para problemas que atingem moradores de todas as preferências políticas.
Até a construção de uma ponte exige acordos entre instituições, empresas, trabalhadores e governos que nem sempre compartilham os mesmos interesses.
A confiança também é uma infraestrutura. Não aparece nos mapas de obras públicas, mas sua ausência pode dificultar a realização de qualquer projeto coletivo.
O que acontece quando uma comunidade deixa de avaliar boas propostas por seus resultados e passa a rejeitá-las apenas porque foram apresentadas por um adversário político?
Quantas oportunidades podem ser perdidas quando a rivalidade eleitoral impede uma prefeitura de dar continuidade a um projeto útil iniciado pela administração anterior?
E quanto custa, para uma cidade, a incapacidade de seus representantes se sentarem à mesma mesa?
COMO INTEGRAR TERRITÓRIOS SE ESTAMOS SEPARANDO PESSOAS?
O Brasil precisa aproximar regiões, melhorar a circulação de mercadorias, ampliar o acesso aos serviços públicos e criar condições para que mais pessoas participem da prosperidade econômica.
São desafios que não cabem num único mandato. Uma ferrovia pode levar anos para ser planejada e construída. A formação profissional de uma geração exige continuidade. A recuperação de uma baía, a reorganização de uma rede de saúde ou a integração de municípios vizinhos dependem de compromissos que sobrevivam à alternância de governos.
Nada disso exige que todos pensem da mesma maneira. Exige, porém, alguma capacidade de cooperação.
O agricultor não precisa votar como o transportador. O empresário não precisa concordar com o professor. O prefeito e o governador podem pertencer a partidos adversários e, ainda assim, reconhecer que determinada obra beneficia a população.
A democracia não elimina os conflitos. Ela oferece meios para administrá-los sem transformar cada divergência numa ruptura definitiva.
E talvez seja justamente aí que o desenvolvimento territorial encontre um de seus maiores desafios.
Como construir pontes entre cidades se estamos destruindo as pontes entre pessoas?
O QUE CONTINUARÁ DEPOIS DA ELEIÇÃO?
É importante reconhecer que nem toda relação precisa ser preservada a qualquer custo. Há situações de violência, humilhação, discriminação e desrespeito em que estabelecer limites ou se afastar é necessário.
Respeitar opiniões diferentes não significa aceitar qualquer comportamento. Mas também não significa que uma escolha eleitoral deva apagar automaticamente a história de uma pessoa.
Um eleitor pode apoiar determinado candidato sem concordar com todas as suas atitudes. Pode escolher um partido por suas propostas econômicas e discordar de suas lideranças em questões morais. Pode votar por esperança, receio, identificação ou simples rejeição à alternativa apresentada.
Reduzir toda essa complexidade a um rótulo talvez nos impeça de compreender até mesmo aqueles de quem gostamos.
E compreender não é concordar. Podemos discutir corrupção sem atribuir culpa coletiva a milhões de eleitores. Podemos cobrar respeito aos direitos humanos sem presumir que todo apoiador de um político endosse suas declarações. Podemos questionar decisões de governo sem transformar nossos familiares em representantes pessoais de quem ocupa o poder.
Há algo de desproporcional em exigir dos amigos uma concordância que jamais exigimos integralmente dos políticos que apoiamos.
Os candidatos continuarão suas trajetórias. Os partidos disputarão novas eleições. Governos começarão e terminarão.
Mas o irmão continuará sendo irmão. O filho continuará sendo filho. E aquele amigo que esteve ao nosso lado nos momentos mais difíceis continuará carregando uma história que começou muito antes da última campanha eleitoral.
Talvez tenhamos passado tanto tempo discutindo quem deveria governar o Brasil que nos esquecemos de perguntar como continuaríamos vivendo juntos depois da eleição.
O país precisa de estradas, ferrovias, escolas, hospitais e investimentos. Precisa também de pessoas capazes de discordar sem se destruir.
Porque a prosperidade coletiva não depende de pensarmos todos da mesma maneira. Depende de conseguirmos trabalhar juntos apesar das diferenças.
E, quando chegar o próximo domingo, talvez a pergunta mais importante não seja quem venceu a eleição.
Será quem ainda estará disposto a sentar à nossa mesa.





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