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A segunda colheita das granjas: quando os dejetos entram no negócio da energia


A segunda colheita das granjas: quando os dejetos entram no negócio da energia

Experiência cooperativa no Paraná mostra como o tratamento de resíduos pode abrir novas atividades econômicas e aponta caminhos para outros municípios.

Uma granja precisa cuidar também daquilo que os animais deixam para trás. O destino dos dejetos envolve custos, estrutura e responsabilidade ambiental. Em Salgado Filho, no Sudoeste do Paraná, produtores organizaram uma operação coletiva para tratar esse material e aproveitar possibilidades ligadas à energia e aos fertilizantes.

A Cooperativa dos Produtores de Energia e Adubo, a Coopenad, oferece um exemplo dessa articulação. Segundo informações publicadas pelo Sistema FAEP em agosto de 2026, sua estrutura recebia aproximadamente 160 mil litros de dejetos por dia, coletados nas granjas associadas. O investimento informado para viabilizar o projeto foi de R$ 20 milhões. :chatgpt-content-reference{index="0"}

O caso amplia a forma de olhar para uma vocação regional. Onde existe criação de animais, há também uma rotina de manejo de resíduos. Organizar esse trabalho pode permitir novas atividades, desde que a tecnologia e os custos sejam compatíveis com a realidade das propriedades.

Em agosto, a sede da cooperativa recebeu um dia de campo promovido com o Sistema FAEP, o IDR-Paraná e a Embrapa. Os participantes conheceram a estrutura utilizada para compostar cama de aves e material resultante da biodigestão, formando um composto destinado à produção de fertilizantes organominerais. 

A experiência mostra como a cooperação pode reunir recursos e dar escala a uma solução para necessidades compartilhadas. Também ajuda a explicar por que o desenvolvimento de uma região depende de observar melhor aquilo que ela já produz, inclusive os materiais que precisam receber tratamento.

A transformação exige compreender o que cada processo entrega. Na biodigestão, a decomposição da matéria orgânica em condições controladas e sem oxigênio produz biogás. Esse gás pode ser aproveitado para gerar eletricidade e calor. A obtenção de biometano envolve etapas adicionais de purificação. Produzir biogás e fornecer combustível para veículos, portanto, são operações distintas, com exigências próprias. :chatgpt-content-reference{index="2"}

O material que permanece após a digestão, chamado digestato, também merece atenção. A Embrapa descreve seu potencial fertilizante, mas o aproveitamento agrícola exige considerar suas características e as condições de aplicação. Ter nutrientes disponíveis é o começo de uma decisão técnica sobre como utilizá-los. :chatgpt-content-reference{index="3"}

Do ponto de vista econômico, a pergunta é direta: qual aproveitamento faz sentido em cada local?

Uma operação precisa conhecer o volume de resíduos disponível, a distância entre as propriedades, as despesas de coleta, a manutenção dos equipamentos e o destino dos produtos. Transportar grandes quantidades de material pode comprometer uma conta que parecia favorável quando observada apenas dentro da granja.

A organização coletiva permite compartilhar estruturas, mas exige gestão. É necessário definir responsabilidades, critérios de participação, compromissos de fornecimento e formas de distribuir custos e resultados. A instalação de equipamentos é uma parte do projeto; a capacidade de operar ao longo dos anos é outra.

O mercado consumidor também precisa entrar nessa discussão. Em 6 de outubro de 2026, o Comitê de Biogás e Biometano do Paraná reuniu empresas e instituições para aproximar oferta e demanda. Renault Geely, AESA e CRJ Logística apresentaram experiências e necessidades relacionadas ao uso de biometano na indústria e no transporte. A reunião indica interesse nesses mercados, mas não comprova contratos de compra com a Coopenad. :chatgpt-content-reference{index="4"}

Essa aproximação ajuda a colocar o planejamento na ordem necessária: conhecer a matéria-prima, escolher o aproveitamento adequado e identificar quem utilizará o produto. Uma nova atividade precisa de compradores ou de uma economia demonstrável no consumo da própria operação.

Para as cidades, as oportunidades podem envolver manutenção, transporte, assistência técnica e formação profissional. Seu alcance deve ser acompanhado por resultados: despesas efetivamente reduzidas, empregos mantidos e remuneração dos participantes.

Como, então, um grupo de produtores e empreendedores de outro município pode construir um projeto semelhante?

O primeiro passo é fazer um diagnóstico do território. Antes de escolher equipamentos, os interessados precisam levantar quais propriedades participariam, quanto resíduo produzem, suas características e a distância entre os pontos de coleta. Esse levantamento deve considerar a regularidade do fornecimento ao longo do ano. Uma instalação precisa de abastecimento previsível para funcionar de maneira consistente.

Em seguida, o grupo deve examinar as possibilidades de uso. A eletricidade atenderia às próprias atividades? Há consumidores próximos interessados no gás? Existe demanda agrícola para os produtos fertilizantes? As respostas ajudam a dimensionar a estrutura e a evitar investimentos que fiquem sem utilização ou mercado.

Com essas informações, é possível buscar apoio de instituições de pesquisa, assistência técnica, universidades e profissionais especializados para elaborar um estudo de viabilidade. A conta precisa incluir obras, equipamentos, coleta, transporte, operação, manutenção e recursos para sustentar o negócio até que as receitas cubram as despesas. Também deve testar situações menos favoráveis, como aumento dos custos, interrupções nos equipamentos e redução do fornecimento.

O modelo de organização merece o mesmo cuidado. Uma cooperativa ou uma sociedade empresarial, por exemplo, precisa ser avaliada conforme os objetivos e a participação dos envolvidos. Quem investirá? Quem administrará? Como serão remunerados os serviços e distribuídos os resultados? A confiança entre os participantes ganha força quando os compromissos são claros e formalizados.

Ao poder público cabe contribuir com informações sobre o território, articulação institucional e planejamento da infraestrutura. As condições de localização e as exigências ambientais precisam ser examinadas desde o início, com os órgãos competentes. O apoio municipal será mais útil quando responder aos obstáculos identificados no estudo.

A busca por financiamento também depende dessa preparação. O grupo precisa apresentar orçamento, capacidade de pagamento e compromissos de fornecimento e comercialização compatíveis com o tamanho da operação. O valor investido em Salgado Filho é uma referência daquela experiência, não um orçamento que possa ser aplicado automaticamente a outro município.

Quando tecnicamente adequado, implantar o projeto por etapas pode permitir ajustes antes da ampliação. O acompanhamento deve considerar custo por volume tratado, disponibilidade dos equipamentos, energia aproveitada, qualidade dos produtos e resultado financeiro. São esses indicadores que ajudam a decidir quando corrigir o caminho ou expandir a estrutura.

A experiência da Coopenad mostra uma possibilidade concreta de atuação coletiva diante de um desafio da produção rural. Para outros territórios, o ponto de partida está em combinar o conhecimento de quem produz com tecnologia, gestão e compradores.

ocação para produtores, empresários e gestores públicos é direta: quem está disposto a reunir os possíveis participantes, levantar os números e transformar essa oportunidade em um projeto com responsáveis e prazos? O primeiro investimento talvez seja justamente esse esforço de organização.




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