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A febre das canetas

Emagrecer é o começo, não o tratamento inteiro


A febre das canetas

Mounjaro, Ozempic, Wegovy e outros medicamentos mudaram o tratamento da obesidade e despertaram o desejo de milhões de pessoas de perder peso rapidamente. Mas a decisão de usar uma “caneta emagrecedora” deveria começar antes da primeira aplicação.


As chamadas canetas emagrecedoras deixaram os consultórios médicos e entraram definitivamente nas conversas de família, nas academias, nos escritórios e nas redes sociais. Sempre há alguém que perdeu dez, quinze ou vinte quilos, alguém pensando em começar e outro alguém contando uma história assustadora sobre os efeitos colaterais.


No meio desse entusiasmo, há um fato que precisa ser colocado no lugar certo: medicamentos como semaglutida e tirzepatida não são produtos estéticos. São medicamentos desenvolvidos para tratar doenças metabólicas e que passaram a representar uma das maiores mudanças recentes no tratamento da obesidade.


No Brasil, a Anvisa aprovou a tirzepatida, comercializada como Mounjaro, para controle crônico do peso em adultos com obesidade — IMC igual ou superior a 30 — ou com sobrepeso a partir de IMC 27 quando existe alguma condição associada, como hipertensão, colesterol elevado, apneia do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2. O tratamento deve ser associado a alimentação adequada e atividade física.


FUNCIONAM?

A resposta curta é: sim. Um estudo publicado em 2025 no New England Journal of Medicine comparou diretamente tirzepatida e semaglutida em 751 adultos com obesidade e sem diabetes. Depois de 72 semanas, a redução média do peso foi de 20,2% com tirzepatida e 13,7% com semaglutida. A redução da circunferência abdominal também foi maior entre os participantes que receberam tirzepatida.


São resultados expressivos. Uma pessoa de 115 quilos, por exemplo, teria uma redução média próxima de 23 quilos se reproduzisse o resultado médio obtido pelo grupo tratado com tirzepatida naquele estudo. Isso não é promessa individual: algumas pessoas perdem mais, outras menos e há aquelas que não toleram ou não respondem satisfatoriamente ao tratamento.


É justamente aí que começa a parte menos atraente das fotografias de “antes e depois”.


O QUE A CANETA NÃO SABE SOBRE VOCÊ

A injeção não sabe se o paciente já teve pancreatite, problemas na vesícula, doença gastrointestinal importante ou determinadas doenças endócrinas. Não conhece os medicamentos que ele toma, não sabe quanto de massa muscular possui e tampouco conhece sua história familiar.


Também não sabe se aquela pessoa está apenas acima do peso ou se, por trás da barriga, existem hipertensão, pré-diabetes, colesterol elevado, fígado gorduroso ou apneia do sono.


Quem precisa descobrir tudo isso é o médico — de preferência antes da primeira aplicação. Por isso, a pergunta mais inteligente não é “qual caneta emagrece mais?”. É: por que estou acima do peso, quais riscos já acumulei e qual tratamento é adequado para mim?


OS EFEITOS COLATERAIS EXISTEM

Os mais frequentes são gastrointestinais. Náuseas, vômitos, diarreia, constipação e desconforto abdominal aparecem principalmente durante o aumento das doses. No estudo que comparou tirzepatida e semaglutida, a maioria dos eventos gastrointestinais foi de intensidade leve ou moderada e ocorreu sobretudo durante a escalada da medicação.


Existem, entretanto, complicações mais sérias. Em fevereiro de 2026, a Anvisa publicou alerta de farmacovigilância sobre pancreatite aguda associada aos medicamentos dessa classe, destacando que o risco já é conhecido e consta das bulas, mas que o uso indevido aumenta a preocupação. A Agência reforçou que esses medicamentos devem ser usados nas indicações aprovadas, mediante prescrição e acompanhamento profissional.


Isso não transforma a caneta em vilã. Transforma a automedicação em má ideia.


ANTES DA PRIMEIRA CANETA

O caminho racional começa por uma consulta médica e por uma fotografia da saúde do paciente.


Peso e circunferência abdominal são apenas o começo. Pressão arterial, glicemia, hemoglobina glicada, colesterol e triglicerídeos, função renal e hepática e a história clínica ajudam a revelar aquilo que a balança não mostra. Dependendo da pessoa, outros exames serão necessários.


É importante informar ao médico episódios anteriores de pancreatite, problemas de vesícula ou gastrointestinais, doenças renais, medicamentos utilizados e antecedentes pessoais e familiares relevantes. O profissional poderá então avaliar contraindicações, riscos particulares e qual medicamento — se algum — faz sentido.


Há outro cuidado pouco discutido: a musculatura. Emagrecer não deveria significar simplesmente ficar mais leve. Uma pessoa que perde muito peso rapidamente e abandona proteína e exercício de força pode também perder massa magra. O objetivo terapêutico é reduzir principalmente o excesso de gordura preservando, tanto quanto possível, músculos, capacidade física e autonomia.


Musculação ou outro treinamento de resistência e alimentação adequada, portanto, não são detalhes decorativos do tratamento.




E QUANDO A CANETA TERMINA?

Esta é provavelmente a pergunta que menos aparece nas fotografias das redes sociais.


Obesidade é uma doença crônica e o organismo possui mecanismos poderosos para recuperar o peso perdido. A decisão de iniciar tratamento farmacológico deveria incluir desde o início uma conversa sobre manutenção, alimentação, atividade física e o que será feito caso a medicação precise ser interrompida.


A caneta pode diminuir a fome. Pode modificar a relação com determinados alimentos e produzir perdas de peso que até recentemente eram difíceis de alcançar sem cirurgia bariátrica. O que ela não consegue fazer sozinha é construir uma nova rotina para o paciente.


NEM MILAGRE, NEM VENENO

Talvez o maior erro seja obrigar essas medicações a ocupar um dos dois papéis que as redes sociais lhes reservaram.


Elas não são milagres e não são venenos. São ferramentas médicas poderosas.

Para determinadas pessoas, podem reduzir substancialmente peso e risco metabólico. Para outras, não serão indicadas. Algumas terão efeitos adversos que exigirão redução da dose ou interrupção do tratamento. Outras passarão pelo processo com poucos sintomas.


A medicina começa justamente onde termina a generalização. Antes de perguntar ao amigo quanto ele emagreceu, copiar a dose da vizinha ou comprar uma caneta porque alguém apareceu vinte quilos mais magro no Instagram, vale fazer uma coisa muito menos espetacular e muito mais inteligente: descobrir como está o próprio organismo.


A primeira aplicação deveria ser consequência dessa investigação — nunca seu ponto de partida.






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