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Juros altos, bancos ricos, empresas endividadas

Enquanto recuperações judiciais e extrajudiciais avançam entre empresas de setores diferentes, bancos continuam apresentando lucros bilionários


Juros altos, bancos ricos, empresas endividadas

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro e ajuda a revelar uma questão maior: o que acontece quando financiar dinheiro passa a render muito mais do que produzir?


Não foi uma empresa. Nem duas. Em poucas semanas, o brasileiro viu Casas Bahia, Marabraz, Braskem e o grupo responsável por Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill aparecerem nas manchetes por processos de recuperação judicial ou extrajudicial. São negócios completamente diferentes — varejo, móveis, petroquímica e alimentação — unidos por uma característica incômoda: dívidas acumuladas num ambiente em que o dinheiro ficou muito caro.


A Casas Bahia pediu recuperação judicial envolvendo R$ 17,3 bilhões e cerca de 28 mil credores. Consideradas também obrigações fora do processo recuperacional, seu passivo total chega a aproximadamente R$ 28 bilhões.


A Braskem recorreu à recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 54 bilhões em dívidas. A maior petroquímica brasileira ganhou proteção temporária para tentar reorganizar seu passivo financeiro sem interromper suas operações.


E agora aparece um personagem muito mais próximo da vida cotidiana. O Grupo Gennius, controlador de Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, teve deferida sua recuperação judicial com dívida declarada de R$ 265,2 milhões. A própria empresa apontou entre as causas da crise os efeitos da pandemia, a mudança dos hábitos de consumo e a alta dos juros. Possui explicações próprias e juntas, começam a formar uma fotografia.


NÃO É UMA EPIDEMIA DE FALÊNCIAS

É importante começar pela distinção correta. Recuperação judicial não é falência. Recuperação extrajudicial também não. São instrumentos criados justamente para tentar preservar empresas economicamente viáveis que perderam capacidade de cumprir suas obrigações nos termos originalmente contratados.


Os números brasileiros mostram que essas ferramentas estão sendo utilizadas com frequência crescente. Segundo a Serasa Experian, 977 processos de recuperação judicial foram registrados em 2025, envolvendo 2.466 CNPJs. Foi o maior número de empresas em recuperação da série analisada pela instituição, 13% acima de 2024. Os pedidos de falência, por outro lado, recuaram 19%.


O dado muda bastante a interpretação. O Brasil não vive simplesmente uma “quebradeira”. Vive algo mais complexo: uma grande reorganização de balanços empresariais.


Empresas estão buscando prazo. Convertendo dívidas. Renegociando garantias. Vendendo ativos. Discutindo descontos com credores. Protegendo caixa. Tentando sobreviver até que o custo financeiro volte a permitir uma operação normal.


A recuperação extrajudicial, ainda muito menos utilizada, também cresce. Em 2025 foram 62 pedidos, contra uma proporção de apenas uma recuperação extrajudicial para cada 26 judiciais em 2023. Nos dois últimos anos essa proporção passou para aproximadamente uma para cada 16. 


A Braskem tornou esse instrumento conhecido do grande público.


O PREÇO DO DINHEIRO

Não é correto atribuir toda crise empresarial à taxa de juros. Empresas também erram. Compram mal, investem demais, crescem sem capital suficiente, escolhem modelos de negócio equivocados, acumulam passivos tributários, enfrentam mudanças tecnológicas, perdem mercado ou simplesmente administram mal.


Mas existe uma diferença fundamental entre cometer um erro quando dinheiro custa pouco e cometer o mesmo erro quando custa muito.


Uma dívida de R$ 100 milhões não é a mesma dívida a 7%, 10%, 15% ou 20% ao ano. Empresas refinanciam constantemente capital de giro, estoques, antecipações de recebíveis, debêntures e empréstimos. Quando o custo dessas operações sobe durante vários anos, a despesa financeira começa a disputar espaço com folha de pagamento, fornecedores, investimento e expansão.


A empresa continua vendendo, mas trabalha cada vez mais para pagar juros. É nesse ponto que uma companhia aparentemente saudável pode começar a perder oxigênio.


E DO OUTRO LADO DO BALCÃO?

Enquanto empresas enfrentam essa pressão, o sistema bancário atravessa um período de elevada rentabilidade.


O caso mais evidente no Brasil é o Itaú Unibanco. O banco registrou R$ 46,8 bilhões de lucro líquido em 2025, 13,1% acima do ano anterior, renovando o maior lucro já registrado por uma instituição bancária brasileira em valores corrigidos pela inflação. Seu retorno sobre o patrimônio chegou a 23,4% no ano. 


Bradesco também mostrou forte recuperação. Apenas no quarto trimestre de 2025, lucrou R$ 6,5 bilhões, avanço de 20,6% sobre o mesmo período do ano anterior.


Mas a fotografia não é uniforme. Banco do Brasil sofreu fortemente com a inadimplência, particularmente no agronegócio, e seu lucro caiu 45,4% em 2025, para R$ 20,7 bilhões. Somados Itaú, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil, os quatro grandes bancos lucraram R$ 107,8 bilhões em 2025, 4,4% menos que em 2024 justamente por causa da queda do banco estatal. 


Excluído o BB, os grandes bancos privados atingiram novo recorde agregado. Essa diferença é importante porque impede uma conclusão simplista.


Bancos não enriquecem porque empresas quebram. Quando uma empresa quebra de verdade, o banco pode perder dinheiro.


A rentabilidade extraordinária surge antes disso. Surge quando o custo do crédito permanece elevado, as margens financeiras são altas, os clientes continuam pagando e a inadimplência permanece suficientemente controlada.


Para um banco, o melhor cenário não é a falência do cliente. É o cliente endividado que ainda consegue pagar.




UM FENÔMENO MUNDIAL

Essa combinação não é brasileira. Segundo a McKinsey, o sistema bancário mundial alcançou US$ 1,3 trilhão de lucro líquido em 2025, alta de 7% em relação ao recorde anterior, registrado em 2024. Pelo segundo ano consecutivo, o setor bancário apresentou o maior lucro líquido agregado entre todas as indústrias analisadas pela consultoria.


Ao mesmo tempo, a Allianz Trade estima que as insolvências empresariais globais crescerão 6% em 2026, depois de também terem aumentado aproximadamente 6% em 2025.


Será o quinto ano consecutivo de alta. Nos Estados Unidos, a previsão para 2026 é de crescimento de 9% nas insolvências.


Na China, também 9% e na Europa Ocidental, 3%. O impacto já chegou ao mercado de trabalho. A Allianz estima 2,2 milhões de empregos diretamente expostos a insolvências empresariais em 2026, sendo aproximadamente 1,3 milhão na Europa e 460 mil na América do Norte. Construção, varejo e serviços aparecem entre os setores mais pressionados.


Portanto, existe um paradoxo internacional bastante claro: os bancos nunca ganharam tanto dinheiro, enquanto um número crescente de empresas procura proteção contra seus credores.


MAS UMA COISA CAUSA A OUTRA?

Não diretamente. É aqui que a discussão precisa fugir da caricatura. Taxas de juros são elevadas por bancos centrais principalmente para combater inflação e controlar demanda. Bancos comerciais não determinam sozinhos esse ambiente. Governos influenciam juros por meio de política fiscal, endividamento público, estabilidade institucional e credibilidade. O mercado acrescenta seu prêmio de risco. E os próprios bancos precisam provisionar perdas quando os clientes deixam de pagar.


O sistema é muito mais complexo do que uma mesa onde um lado ganha exatamente aquilo que o outro perde.


Mas existe uma relação econômica inegável. Quando o preço do dinheiro sobe, quem tem dinheiro ganha poder. Quem precisa dele perde margem de manobra.


Empresas pouco endividadas conseguem esperar. Empresas altamente capitalizadas até encontram oportunidades de adquirir concorrentes.


Já empresas dependentes de financiamento precisam refinanciar dívidas cada vez mais caras. É aí que aparecem as recuperações.


O CAPITAL COMEÇA A FAZER UMA ESCOLHA

Há ainda uma questão mais profunda. Imagine um investidor diante de duas alternativas.


Na primeira, pode comprar títulos remunerados a taxas elevadas, emprestar dinheiro ou investir em instituições financeiras capazes de produzir retornos expressivos.


Na segunda, pode construir uma fábrica. A fábrica exigirá terreno, licença, trabalhadores, energia, matéria-prima, logística, impostos, risco trabalhista, tecnologia, mercado consumidor e vários anos até recuperar o capital investido.


Quanto deverá render essa fábrica para competir com uma aplicação financeira? Essa é uma das perguntas centrais de qualquer economia submetida por muito tempo a juros elevados.


Quando o retorno financeiro sobe demais, o capital não desaparece. Ele simplesmente muda de endereço. Em vez de financiar produção, emprego e expansão, começa a procurar instrumentos financeiros.


Não é conspiração, é racionalidade econômica. O problema aparece quando essa racionalidade individual produz uma consequência coletiva indesejada.


QUANDO O BANCO VIRA SÓCIO

A crise da Invepar fornece outra imagem interessante do momento. Quando um grande credor percebe que uma empresa endividada possui ativos valiosos, pode concluir que cobrar imediatamente é pior negócio do que reestruturar a dívida.


Surge então a conversão de dívida em participação societária.mO credor deixa de ser apenas credor.


Passa a ser sócio. Esse mecanismo é absolutamente normal no capitalismo moderno e frequentemente salva empresas.


Mas também mostra a transformação silenciosa provocada por ciclos prolongados de endividamento: ativos produtivos começam a migrar para quem detém capital e capacidade financeira para atravessar a crise.


É uma espécie de seleção econômica. Quem tem caixa compra tempo, e quem não tem vende ativos.


A CONTA CHEGA PRIMEIRO AOS MAIS ENDIVIDADOS

Esse processo não atinge todas as empresas simultaneamente. Primeiro aparecem os negócios fortemente alavancados,depois aqueles que trabalham com margens pequenas.


Em seguida surgem setores dependentes de crédito ao consumidor. Varejo de móveis e eletrodomésticos sente rapidamente.

Construção sente. 

Agronegócio muito endividado sente. 

Empresas com capital de giro elevado sentem.

Restaurantes e redes de alimentação não deveriam ser os primeiros personagens dessa história.


Por isso o caso Habib’s chama atenção.

Quando uma empresa de alimentação cotidiana precisa recorrer à recuperação judicial e inclui juros elevados entre os fatores que pressionaram sua situação financeira, o debate deixa os departamentos de tesouraria e chega ao balcão onde se vende uma esfiha.


E DEPOIS?

Recuperação judicial não destrói necessariamente uma empresa. Alias, pode salvá-la. A American Airlines já passou por recuperação. A General Motors também. Inúmeras companhias retornaram fortalecidas depois de reestruturar suas dívidas.


O problema surge quando a recuperação deixa de ser uma exceção empresarial e começa a virar característica do ambiente econômico.


Uma empresa em recuperação é uma história corporativa. Milhares são um indicador econômico.

Fornecedores perdem.

Investidores assumem prejuízos.

Bancos fazem provisões.

Empregos desaparecem.

Empresas reduzem investimentos.

Consumidores ficam inseguros.

Crédito fica ainda mais seletivo.

E começa a surgir um ciclo em que a desconfiança produz exatamente aquilo que todos pretendiam evitar.


COMO SAIR DESSE CICLO?

Baixar juros por vontade política não resolve. Juros caem de maneira sustentável quando inflação, risco fiscal e expectativas permitem.


Isso exige disciplina nas contas públicas, previsibilidade econômica e confiança de que a dívida pública permanecerá administrável.


Mas também exige reconstruir instrumentos de financiamento produtivo. Mercado de capitais. BNDES. Fundos regionais. Debêntures. Fundos de investimento produtivo.


Garantias para pequenas e médias empresas. Crédito de longo prazo. Renegociação precoce de passivos.


A economia precisa oferecer ao capital produtivo alternativas capazes de competir com o retorno financeiro. E empresas precisam fazer sua parte. Reduzir alavancagem. Melhorar produtividade. Governança. Capital próprio. Planejamento. Não existe solução simples.


QUEM PRODUZ E QUEM FINANCIA

Bancos são indispensáveis ao desenvolvimento. Sem crédito não existem grandes empreendimentos, agricultura moderna, habitação, comércio internacional nem infraestrutura.


Uma economia forte precisa de bancos fortes. Mas também precisa de empresas fortes. A questão começa quando uma parte do sistema prospera persistentemente enquanto outra passa anos reorganizando dívidas para conseguir sobreviver.


Esse desequilíbrio não prova culpabilidade de ninguém. Mas merece investigação. No mundo inteiro, duas curvas estão subindo ao mesmo tempo. De um lado, lucros bancários. Do outro, insolvências empresariais.


O Brasil participa desse fenômeno, com um ingrediente adicional: mantém um dos custos reais de capital mais elevados entre as grandes economias. 


A pergunta, portanto, não é se bancos ganham demais ou se empresários administram mal. É uma pergunta muito mais importante: quanto tempo uma economia consegue prosperar quando financiar dinheiro oferece retornos extraordinários, enquanto produzir exige cada vez mais capital, risco e capacidade de sobrevivência?


A conta dos juros chegou. Resta descobrir quem continuará conseguindo pagá-la.






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