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O planeta está mais agitado?

Terremotos, tsunamis, tempestades e eventos extremos parecem se multiplicar


O planeta está mais agitado?

Os números ajudam a separar aquilo que realmente está mudando daquilo que apenas estamos enxergando melhor. 


Basta acompanhar o noticiário por alguns dias. Terremotos de grande magnitude, alertas de tsunami, ciclones, ventanias, enchentes, secas, incêndios e ondas de calor atravessam o planeta e chegam quase instantaneamente à tela do celular.


A sensação é compreensível: alguma coisa diferente está acontecendo com a Terra. Mas sensação não é tendência. Para descobrir o que realmente está mudando, é preciso separar fenômenos que frequentemente aparecem juntos nas manchetes, mas obedecem a mecanismos completamente diferentes.


25 ANOS SOB A LUPA

Uma comparação entre 2001 e 2025 oferece uma janela suficientemente longa para começar a enxergar o problema com alguma perspectiva. O ano de 2026 deve ser analisado separadamente, porque ainda está em curso.


E a primeira conclusão é importante: não existe uma única curva chamada “catástrofes naturais”. Terremotos pertencem à dinâmica interna do planeta. Tsunamis são, em grande parte, consequências de perturbações submarinas, especialmente grandes terremotos. Ciclones, secas, ondas de calor e precipitações extremas pertencem ao sistema atmosférico e climático.


Colocar tudo no mesmo gráfico produziria impacto visual. Separar os fenômenos produz conhecimento.


TERREMOTOS: A TERRA ESTÁ TREMENDO MAIS?

Grandes terremotos impressionam porque podem liberar quantidades extraordinárias de energia em poucos segundos.


Entretanto, a série histórica não sustenta, até aqui, a conclusão de que grandes terremotos estejam aumentando progressivamente em escala global.


Há anos com concentração elevada de sismos fortes e outros relativamente tranquilos. Por isso, uma sequência de terremotos de magnitude elevada ocorrendo em poucos dias pode ser extraordinária sem representar necessariamente uma mudança no comportamento tectônico do planeta.


Também enxergamos muito mais. Redes modernas de sismômetros conseguem detectar milhares de eventos que décadas atrás poderiam passar despercebidos, enquanto sistemas globais de comunicação fazem um terremoto ocorrido do outro lado do mundo chegar ao nosso telefone em minutos.


Mais terremotos conhecidos não significam necessariamente mais terremotos acontecendo. Por isso, a comparação mais honesta deve observar sempre as mesmas faixas de magnitude — por exemplo M6+, M7+ e M8+ — ao longo dos anos.


TSUNAMI NÃO É MAREMOTO

Outra confusão frequente precisa ser desfeita. Maremoto é um terremoto ocorrido sob o mar. Tsunami é uma série de ondas produzida pelo deslocamento abrupto de grande volume de água, normalmente associado a um forte terremoto submarino, embora existam outras causas possíveis.


Portanto, um maremoto não vai se tornando mais frequente até virar tsunami. Um determinado terremoto submarino pode ou não gerar um tsunami, dependendo de sua magnitude, profundidade, mecanismo de ruptura e deslocamento do fundo oceânico.


Isso explica por que grandes terremotos podem provocar alertas preventivos de tsunami que posteriormente são cancelados.


O CLIMA CONTA OUTRA HISTÓRIA

Quando saímos da tectônica e entramos no sistema climático, o quadro muda. As últimas décadas registraram aumento inequívoco da temperatura média global, aquecimento dos oceanos e alterações importantes em diferentes componentes do sistema climático.


Uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor d’água. Oceanos mais quentes acumulam enormes quantidades de energia. Regimes de precipitação e circulação atmosférica respondem a essas transformações.


Isso não significa que todo temporal, enchente, seca ou ciclone individual seja provocado pelas mudanças climáticas.


Atribuir um determinado evento ao aquecimento global exige análise científica específica. Mas significa que as condições de fundo nas quais esses fenômenos acontecem estão mudando.


É justamente por isso que terremotos e ondas de calor não podem ser tratados como manifestações diferentes de uma mesma causa. A Terra possui sistemas diferentes, e eles não estão mudando da mesma maneira.


E O HOMEM? CONSEGUE PROVOCAR TERREMOTOS?

Sim, em determinadas circunstâncias. A ciência conhece casos de sismicidade induzida por atividades humanas, como injeção de fluidos no subsolo, mineração, extração de petróleo e gás e grandes reservatórios.


Isso precisa ser dito com a mesma clareza com que deve ser estabelecido o limite da evidência. Uma coisa é demonstrar que determinadas intervenções humanas conseguem alterar tensões locais e provocar atividade sísmica.


Outra completamente diferente é afirmar que existe uma arma capaz de identificar uma grande falha tectônica e provocar remotamente um terremoto de enorme magnitude.


Não existe atualmente evidência científica confiável que demonstre essa capacidade. Hipóteses envolvendo tecnologias militares, manipulação da ionosfera ou sistemas secretos aparecem frequentemente nas redes sociais depois de grandes terremotos. Elas podem ser investigadas. O que não se pode fazer é transformar uma hipótese em fato antes que os instrumentos forneçam evidências.


Grandes terremotos deixam assinaturas. Profundidade, mecanismo focal, propagação das ondas sísmicas, sequência de réplicas e outras informações permitem aos cientistas reconstruir aquilo que aconteceu quilômetros abaixo da superfície. Contra especulação, dados.




E O BRASIL?

O Brasil está numa situação tectônica muito diferente de países como Chile, Peru, Japão ou Indonésia.


Grande parte do território brasileiro encontra-se no interior da placa Sul-Americana, distante das principais zonas de subducção capazes de produzir os terremotos gigantes característicos do chamado Círculo de Fogo do Pacífico.


Isso não significa ausência de terremotos. O Brasil registra atividade sísmica e possui falhas geológicas. Significa que o risco precisa ser colocado na escala correta.


Também existem registros históricos e científicos de ondas de tsunamis distantes alcançando o litoral brasileiro. Mas, diante do conhecimento disponível atualmente, um grande tsunami destrutivo não aparece entre os riscos naturais mais prováveis para o Rio de Janeiro.


Para quem vive na orla carioca, existem outros fenômenos marítimos muito mais concretos.


COPACABANA: É HORA DE VENDER O APARTAMENTO?

Não por medo de tsunami. Não existe base científica, hoje, para recomendar uma decisão patrimonial dessa magnitude devido à expectativa de que tsunamis se tornem frequentes no Rio de Janeiro.


Mas isso não significa ignorar o oceano. Ressacas, erosão costeira, marés meteorológicas, elevação gradual do nível médio do mar e combinações entre tempestades e maré alta são riscos diferentes e merecem acompanhamento permanente.


O problema mais provável para a costa fluminense não é uma gigantesca parede de água atravessando Copacabana. É a transformação progressiva das condições costeiras e a ocorrência de eventos extremos capazes de pressionar praias, drenagem, infraestrutura e ocupações urbanas.


E QUEM MORA NA BAIXADA?

Aqui aparece uma aparente contradição. Estar distante da praia não significa automaticamente estar protegido da água.


Partes da Baixada Fluminense possuem baixa altitude, rios, canais e sistemas de drenagem conectados à Baía de Guanabara. Em determinadas situações, chuva excepcional, rios cheios, drenagem insuficiente e níveis elevados da Baía podem atuar conjuntamente.


O risco, portanto, não seria uma onda atravessando a cidade desde Copacabana. Seria a água encontrando dificuldades para sair. Distância do mar não é sinônimo de segurança. O caminho da água importa.


ENTÃO É MELHOR SUBIR A SERRA?

Também não existe resposta tão simples. Regiões serranas trocam determinados riscos por outros.


Encostas podem sofrer deslizamentos. Pequenas bacias hidrográficas podem produzir enxurradas violentas. Fundos de vale podem inundar. Chuvas prolongadas podem saturar solos e desencadear movimentos de massa.


Uma casa localizada centenas de metros acima do nível do mar pode estar em posição extremamente vulnerável se construída sobre uma encosta instável ou ao lado de um corredor natural de enxurrada.


Por outro lado, uma área serrana geologicamente adequada, com boa drenagem e distante dessas zonas pode apresentar condição completamente diferente.


Por isso, altitude sozinha não responde à pergunta. É preciso combinar: relevo + água + solo + ocupação + infraestrutura.


NÃO EXISTE UM ÚNICO MAPA DE RISCO

Essa talvez seja a principal conclusão territorial. O morador de Copacabana enfrenta determinados riscos.


O morador da Baixada, outros. Quem vive na Região Serrana possui um terceiro conjunto de vulnerabilidades.


O problema não é descobrir um lugar magicamente protegido de todos os fenômenos naturais.


É conhecer o território suficientemente bem para identificar seus riscos predominantes e preparar-se para eles. E hoje existem tecnologias capazes de fazer isso com uma precisão que seria inimaginável poucas décadas atrás.


Satélites, radares, pluviômetros, sensores, marégrafos, boias oceânicas, redes sismográficas, modelos digitais de terreno, inteligência artificial e sistemas de monitoramento permitem construir mapas dinâmicos de risco.


A questão seguinte é inevitável: o que fazemos quando o risco é identificado?


O BRASIL TEM LEIS PARA ISSO?

Tem. A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil estabelece responsabilidades para União, estados e municípios na prevenção, preparação, resposta e recuperação diante de desastres.


Existem mecanismos para mapeamento de áreas vulneráveis, planos de contingência, monitoramento, sistemas de alerta, rotas de evacuação, abrigos e mobilização dos órgãos públicos.


O Estado do Rio de Janeiro possui planejamento próprio de contingência, e municípios mantêm suas estruturas locais de Defesa Civil. Portanto, o problema brasileiro não começa necessariamente pela ausência de legislação.


A pergunta mais difícil é outra: o sistema funcionará quando realmente precisar funcionar?


O TESTE DAS TRÊS DA MANHÃ

Planos de contingência podem ser excelentes documentos. Mas desastre não acontece dentro do documento.


Imagine chuva excepcional durante a madrugada.

Um sensor detecta o problema.

Um modelo identifica risco crescente.

O centro de monitoramento recebe a informação.

A Defesa Civil é acionada.

A partir daí, começa o verdadeiro teste.


Quem toma a decisão? Quem avisa a população Por qual canal? Qual é a rota de fuga? Onde está o ponto seguro? Qual abrigo está preparado?


Como chegarão idosos, crianças e pessoas com deficiência? Quais hospitais receberão feridos? Como serão restabelecidos energia, transporte, água e telecomunicações?


A eficiência de um sistema de contingência depende de todos esses elos funcionarem juntos.


E DEPOIS QUE O CELULAR TOCA?

Na reportagem anterior da série Tecnologias Estratégicas, a TRIBUNA DA IMPRENSA mostrou o longo caminho percorrido por uma previsão:


SATÉLITES → ESTAÇÕES → RADARES → MODELOS → METEOROLOGISTAS → CENTROS DE MONITORAMENTO → DEFESA CIVIL → CIDADÃO


Agora aparece a etapa seguinte. CIDADÃO → DECISÃO → ROTA SEGURA → ABRIGO → ATENDIMENTO → RECUPERAÇÃO


A tecnologia pode conquistar horas preciosas de antecedência. Mas antecedência só protege vidas quando alguém sabe o que fazer com ela.


É nesse ponto que previsão encontra planejamento urbano, engenharia, saúde, educação, segurança, transporte e comunicação.


SE O ALERTA TOCAR, PARA ONDE VOCÊ VAI?

Talvez essa seja a pergunta mais simples e importante de toda esta discussão.


Não precisamos viver com medo de terremotos, tsunamis, ciclones ou enchentes. Precisamos conhecer os riscos reais do território onde vivemos.


O morador não precisa dominar tectônica de placas. Precisa saber se sua rua está numa área vulnerável. Não precisa compreender todas as equações de um modelo meteorológico.


Precisa reconhecer um alerta oficial. E não precisa conhecer de memória toda a legislação brasileira de Defesa Civil.


Precisa saber para onde ir quando receber a orientação para sair. A ciência consegue enxergar cada vez mais longe.


A tecnologia consegue avisar cada vez mais cedo. O desafio agora é garantir que, entre o alerta e a proteção, não exista um elo perdido.


POR QUE ISSO IMPORTA?

O planeta não precisa estar “enlouquecendo” para que os riscos naturais mereçam atenção.


Alguns fenômenos apresentam tendências mensuráveis. Outros continuam obedecendo a ciclos e variações naturais. E nossa capacidade de observá-los nunca foi tão grande.


O caminho responsável não é o medo. É conhecimento, monitoramento, planejamento e contingência.


Porque a pergunta decisiva não é apenas quando virá o próximo evento extremo. É muito mais concreta: quando o alerta chegar, estaremos preparados?




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