A eleição do Rio ainda procura seu rumo
Ausência do líder das pesquisas no primeiro debate, incerteza jurídica sobre a candidatura de Anthony Garotinho e indefinições partidárias mostram o momento decisivo da disputa sem que os projetos para o Estado tenham ocupado o centro da discussão
A eleição para o Governo do Estado do Rio de Janeiro entrou em uma fase curiosa. Faltam poucos dias para o encerramento dos registros das candidaturas, as alianças começam a se consolidar e o primeiro debate já aconteceu, mas o eleitor ainda conhece mais sobre as movimentações dos candidatos do que sobre os projetos que eles pretendem executar a partir de 2027.
O debate promovido pela Band no domingo, 9 de agosto, tornou essa contradição mais evidente. Eduardo Paes, apontado como líder nas pesquisas eleitorais, não compareceu. Sua campanha informou que a decisão seguiu orientação jurídica para evitar debates e sabatinas antes do início oficial da campanha e da confirmação dos registros pela Justiça Eleitoral.
A justificativa deve ser registrada. A ausência também. Sem a participação daquele que aparece à frente nas pesquisas, o primeiro encontro perdeu justamente a possibilidade de confronto direto entre o líder da disputa e seus principais adversários.
Os candidatos presentes discutiram temas relevantes, entre eles segurança pública, mas o encontro também foi marcado por críticas, embates políticos e ataques entre adversários. A primeira oportunidade de colocar frente a frente diferentes projetos para o Rio terminou, assim, revelando uma campanha que ainda procura encontrar o equilíbrio entre a disputa eleitoral e a discussão sobre os problemas estruturais do Estado.
GAROTINHO E A INCERTEZA JURÍDICA
Menos de 24 horas depois, uma nova variável entrou no tabuleiro.
Decisão da 4ª Vara de Fazenda Pública da Capital determinou a comunicação ao TRE-RJ e ao TSE da suspensão dos direitos políticos do ex-governador Anthony Garotinho, decorrente de condenação por improbidade administrativa. A decisão imediatamente produziu dúvidas sobre seus efeitos na candidatura ao Governo do Estado.
A defesa contesta essa interpretação. Em nota divulgada nesta terça-feira, 11, o advogado Admar Gonzaga sustenta que a condenação transitou em julgado juridicamente em 1º de agosto de 2018 e que, considerados os efeitos defendidos pela defesa, a inelegibilidade teria terminado em 31 de julho de 2026.
A manifestação afirma ainda que Garotinho estaria em pleno gozo de seus direitos políticos e que a questão deverá ser apreciada pela Justiça Eleitoral no exame do registro de sua candidatura.
É justamente aí que a prudência jornalística se impõe: há uma decisão judicial e há uma contestação jurídica de seus efeitos eleitorais. Caberá às instâncias competentes definir as consequências para o registro da candidatura.
UM GOVERNO FORA DA CAMPANHA
Enquanto candidatos disputam espaço, existe ainda um personagem singular nessa eleição: o próprio ocupante do Palácio Guanabara.
O desembargador Ricardo Couto, governador em exercício, chegou ao cargo em circunstâncias excepcionais e não disputa a eleição. Desde que assumiu, promoveu mudanças administrativas e substituições na estrutura herdada do governo anterior.
Até agora, porém, não há manifestação pública clara de apoio eleitoral a uma das candidaturas que permita colocar o governador em exercício dentro de qualquer campo da disputa.
A situação produz algo pouco comum: enquanto a campanha começa a ganhar temperatura, o Estado é administrado por alguém que, ao menos publicamente até aqui, permanece fora dela.
ONDE ESTÃO OS PROJETOS?
A sucessão de acontecimentos dos últimos dias mostra como o cenário eleitoral pode mudar rapidamente. Candidaturas podem surgir ou desaparecer, alianças serão refeitas e decisões judiciais ainda poderão alterar o tabuleiro até que a Justiça Eleitoral defina quem efetivamente estará nas urnas.
Há, entretanto, questões que permanecerão depois de outubro. O Rio de Janeiro precisa recuperar sua capacidade de investimento, enfrentar a crise da segurança pública, melhorar infraestrutura e logística, formar trabalhadores, gerar empregos, fortalecer sua indústria e encontrar caminhos para equilibrar desenvolvimento econômico e responsabilidade fiscal.
Precisa também discutir algo que há muito desapareceu de sua agenda: qual papel o Rio de Janeiro pretende exercer no Brasil nas próximas décadas?
Essa discussão envolve sua posição econômica, cultural e internacional, sua relação com o interior do Estado, a economia do mar, a ciência, a tecnologia e até o debate sobre a descentralização de funções nacionais hoje concentradas em Brasília.
Até 15 de agosto, os candidatos deverão concluir seus registros perante a Justiça Eleitoral e apresentar seus planos de governo. Será então possível comparar intenções com propostas, metas, custos, fontes de financiamento e capacidade de execução.
A TRIBUNA DA IMPRENSA acompanhará as movimentações da campanha porque elas são notícia. Mas concentrará sua cobertura sobretudo nas perguntas que permanecerão quando o barulho eleitoral terminar.
Que projeto pode devolver ao Rio de Janeiro capacidade de governar o presente e ambição para construir o futuro?
É essa discussão que interessa ao Estado. E é nela que pretendemos insistir.





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