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Quanto do desenvolvimento do Rio de Janeiro é perdido pela captura criminosa, corrupção e fragilidade de suas instituições?

O crime organizado não produz apenas violência. Ele ocupa territórios, movimenta bilhões, distorce mercados, afasta investimentos, contamina atividades econômicas e encontra espaço onde as instituições são frágeis


Quanto do desenvolvimento do Rio de Janeiro é perdido pela captura criminosa, corrupção e fragilidade de suas instituições?

A TRIBUNA DA IMPRENSA inicia uma série destinada a seguir o dinheiro e compreender as vulnerabilidades que impedem o Rio de Janeiro de realizar todo o seu potencial.


Durante décadas, aprendemos a medir o crime no Rio de Janeiro contando mortos, roubos, apreensões de armas, toneladas de drogas e territórios disputados. São números indispensáveis, mas contam apenas uma parte da história.


Existe outra conta, menos visível e provavelmente muito maior. Quanto o Rio de Janeiro deixa de produzir porque determinadas regiões não oferecem segurança suficiente para receber investimentos? Quanto empresas e comerciantes gastam para proteger aquilo que deveria ser protegido pelo Estado? Quanto custa transportar uma mercadoria por uma região dominada por grupos armados? Quanto dinheiro público se perde em corrupção, contratos fraudulentos, serviços que não são entregues e estruturas administrativas capturadas por interesses privados?


Quanto custa a concorrência com dinheiro ilícito? E, finalmente, quanto do desenvolvimento do Rio de Janeiro é perdido pela captura criminosa, pela corrupção e pela fragilidade de suas instituições?


É essa pergunta que a TRIBUNA DA IMPRENSA pretende perseguir a partir de agora.


O CRIME TAMBÉM É UM PROBLEMA ECONÔMICO

O crime organizado moderno não vive apenas de homens armados. Precisa movimentar dinheiro, transportar mercadorias, adquirir patrimônio, esconder recursos, contratar serviços, acessar informações e reinserir na economia formal parte da riqueza produzida ilegalmente.


Quanto maior a organização, maior a necessidade de uma infraestrutura econômica. Em julho de 2026, por exemplo, a Polícia Federal informou que uma investigação sobre uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio como plataforma para lavagem de dinheiro identificou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões em seis anos, segundo relatório do COAF. A investigação também apura possível participação de agentes públicos.


O caso é particularmente revelador não porque permita generalizações sobre qualquer setor econômico, mas porque demonstra como a fronteira entre atividade criminosa e economia aparentemente regular pode se tornar sofisticada.


Em outra investigação realizada no Rio em julho, a Polícia Federal passou a apurar suspeitas de desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares federais destinados a organizações da sociedade civil. Segundo a PF, a apuração envolve possíveis pagamentos indevidos, empresas interpostas, superfaturamento, conluio e mecanismos de ocultação da origem e do destino de recursos.


São investigações distintas e não devem ser artificialmente conectadas. Mas ambas ajudam a formular uma pergunta necessária: em que momento o problema da segurança pública passa a ser também um problema de integridade econômica e institucional?


UMA GEOGRAFIA QUE NÃO APARECE NO CARTÃO-POSTAL

A dimensão territorial ajuda a compreender o tamanho do desafio. Pesquisa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, estimou que aproximadamente 4 milhões de pessoas viviam, em 2024, sob controle ou influência de grupos armados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.


É praticamente uma cidade invisível dentro da cidade formal. Nesses territórios não está em discussão apenas quem porta o fuzil. A questão econômica é igualmente importante: quem presta determinados serviços, quem transporta, quem vende, quem constrói, quem cobra, quem controla acessos e quais atividades conseguem funcionar livremente.


Quando uma organização criminosa começa a interferir nas relações econômicas de um território, o problema deixa de pertencer exclusivamente à polícia. Passa a pertencer também ao desenvolvimento.


QUANTO CUSTA UM TERRITÓRIO VULNERÁVEL?

Uma fábrica não escolhe onde se instalar olhando apenas para incentivos fiscais. Um comerciante não decide abrir uma loja considerando somente o número de consumidores. Um operador logístico não calcula apenas distância e combustível.


Todos calculam risco. Segurança, previsibilidade jurídica, qualidade institucional, custo de seguros, possibilidade de extorsão, roubo de cargas, corrupção administrativa, regularidade dos serviços públicos e confiabilidade das relações comerciais entram, direta ou indiretamente, nessa conta.


É por isso que integridade institucional deve ser compreendida também como infraestrutura econômica. Uma estrada ruim afasta investimentos. Uma rede elétrica instável também. Uma instituição pública incapaz de oferecer previsibilidade produz efeito semelhante.


O Rio de Janeiro possui alguns dos maiores ativos econômicos do Brasil: petróleo, gás, portos, universidades, centros tecnológicos, turismo, indústria, cultura, economia criativa, agricultura, posição logística e uma marca conhecida mundialmente.


A pergunta incômoda é quanto desse patrimônio deixa de produzir riqueza porque parte do território permanece vulnerável.


SIGA O DINHEIRO

A expressão é antiga no jornalismo investigativo porque continua sendo eficiente. Onde existe uma atividade econômica relevante, existe um fluxo financeiro. Onde existe corrupção, alguém paga e alguém recebe. Onde existe lavagem, o dinheiro precisa mudar de aparência. Onde existe fraude contra o poder público, existe orçamento, contrato, pagamento ou patrimônio a ser examinado.


A TRIBUNA pretende seguir três rastros: dinheiro, relações e logística.


Dinheiro mostra como os recursos circulam. Relações mostram quem aparece repetidamente ao redor deles. Logística mostra como mercadorias e serviços atravessam o território.


Uma coincidência não prova crime. Uma relação empresarial também não. Parentesco, amizade, representação profissional, contrato com o poder público ou participação numa sociedade são fatos que podem ser perfeitamente legítimos.


A primeira coincidência desperta curiosidade. A segunda permite formular uma hipótese. O padrão documentado permite iniciar uma reportagem.


Será essa a régua.


NÃO PROCURAREMOS CRIMINOSOS PARA ENCONTRAR CRIMES

A ordem precisa ser inversa. A TRIBUNA não pretende escolher previamente pessoas ou instituições e procurar fatos que confirmem uma suspeita. Pretende investigar fatos e descobrir aonde eles conduzem.


Se conduzirem a uma prefeitura, iremos à prefeitura. Se conduzirem a uma empresa, iremos à empresa. Se alcançarem agentes políticos, policiais, integrantes do sistema de Justiça ou qualquer outra autoridade, a apuração continuará utilizando os mesmos critérios.


Nenhuma instituição democrática deve ser tratada antecipadamente como organização criminosa. Nenhuma instituição democrática, entretanto, pode estar acima do escrutínio.


A independência jornalística não consiste em escolher adversários. Consiste em não escolher protegidos.


A CORRUPÇÃO NÃO TEM IDEOLOGIA

Essa também será uma premissa da série. O dinheiro público desviado de uma escola não pergunta em quem o prefeito votou. Uma concorrência fraudada prejudica o empresário honesto independentemente de sua posição política. Recursos provenientes de atividades criminosas introduzidos na economia formal podem distorcer mercados inteiros.


Por isso esta não será uma investigação sobre esquerda, centro ou direita. Será sobre mecanismos. 


Como determinada vulnerabilidade funciona? Quem se beneficia dela? Quem deveria fiscalizá-la? Por que o controle falhou? Que dinheiro circulou? Onde estão os documentos? E, principalmente, como essa vulnerabilidade pode ser fechada?


Porque denunciar o problema sem compreender sua engrenagem produz indignação. Compreender a engrenagem permite corrigi-lo.


DO JORNAL PARA O CIDADÃO

A proposta desta série não termina na reportagem. A cada nova investigação, a TRIBUNA pretende acrescentar uma ferramenta que permita ao próprio leitor compreender melhor a administração pública de sua cidade.


Como consultar uma licitação? Como descobrir quanto uma prefeitura pagou a determinada empresa? Quem são os sócios de um fornecedor? Como acompanhar empenhos e pagamentos? Onde encontrar a folha de servidores? Como pesquisar um Diário Oficial? Como formular um pedido pela Lei de Acesso à Informação? Qual órgão deve ser procurado diante de uma possível irregularidade?


São conhecimentos simples para profissionais acostumados com administração pública, mas desconhecidos por milhões de brasileiros.


Democratizá-los é também uma forma de fiscalização. Isso não significa transformar cidadãos em investigadores improvisados. Ninguém deve confrontar suspeitos, colocar-se em risco ou fazer acusações públicas baseado apenas em coincidências. Especialmente quando houver possibilidade de envolvimento de organizações criminosas, a segurança pessoal estará sempre acima da curiosidade.


Encontrar uma possível irregularidade significa documentar aquilo que está disponível legalmente e, havendo elementos consistentes, procurar os canais institucionais competentes.


UMA ESCOLA QUE COMEÇA NO TERRITÓRIO

Essa metodologia possui ainda um objetivo de longo prazo.


À medida que a TRIBUNA DA IMPRENSA ampliar sua presença nos municípios, inclusive por meio dos eventos PANORAMA TRIBUNA DA IMPRENSA, encontrará jornalistas, professores, estudantes, pesquisadores, advogados, contadores, empresários, servidores e cidadãos interessados em compreender e melhorar seus próprios territórios.


Alguns poderão tornar-se colaboradores. Conhecer uma cidade não é apenas saber quantos habitantes possui ou qual é seu PIB. É conhecer seus personagens, sua economia, suas instituições, seus problemas e suas possibilidades.


Uma redação central pode reunir dados e documentos. O conhecimento local percebe aquilo que os números não mostram.


A combinação dos dois pode produzir uma extensa rede de inteligência jornalística distribuída pelo território, com método, edição, checagem, contraditório e retaguarda jurídica.


Não uma rede de denunciantes. Uma rede de pessoas capazes de observar.


O OUTRO LADO DO DESENVOLVIMENTO

A TRIBUNA vem dedicando parte importante de seu trabalho a compreender as vocações econômicas dos municípios, suas cadeias produtivas, infraestrutura, conhecimento, cultura e possibilidades de integração regional.


Mas existe uma conclusão inevitável. Não basta descobrir aquilo que pode fazer um território prosperar. É preciso compreender também aquilo que impede essa prosperidade.


De um lado estão os ativos territoriais. Do outro, as vulnerabilidades territoriais. Uma cidade pode possuir localização extraordinária e sofrer com insegurança logística. Pode ter enorme potencial turístico e conviver com atividades clandestinas que degradam sua imagem. Pode receber recursos públicos expressivos e não possuir controles suficientes para garantir que cheguem ao destino. Pode formar excelentes profissionais e perder empresas para ambientes economicamente mais previsíveis.


Desenvolvimento e integridade, portanto, pertencem à mesma discussão.


A PRIMEIRA INVESTIGAÇÃO SERÁ SIMPLES

Não começaremos procurando o maior escândalo do Rio de Janeiro. Começaremos procurando uma conta. 


Escolheremos uma despesa pública comum e acompanharemos seu caminho inteiro:


orçamento → contratação → empresa → empenho → pagamento → entrega.


Mostraremos os documentos utilizados e ensinaremos o leitor a reproduzir o percurso em seu próprio município. Depois virá outro fio. E outro.


Contratos públicos, folha de pessoal, alimentação escolar, obras, serviços terceirizados, patrimônio, logística, atividades econômicas vulneráveis à lavagem de dinheiro e outras estruturas serão examinadas ao longo do tempo.


Quando surgirem questões maiores, seguiremos os documentos. Sem caça às bruxas. Sem instituições previamente condenadas. Sem protegidos.


QUANTO O RIO ESTÁ PERDENDO?

Ainda não sabemos. E reconhecer isso é o ponto de partida desta investigação.


Sabemos que milhões de pessoas vivem em áreas submetidas à presença ou influência de grupos armados. Sabemos, pelas investigações oficiais recentes, que organizações criminosas podem movimentar bilhões de reais utilizando estruturas econômicas sofisticadas. Sabemos que recursos públicos continuam sendo objeto de investigações por corrupção e lavagem. E sabemos que o próprio Estado brasileiro vem aumentando sua aposta em inteligência financeira e asfixia patrimonial como instrumentos de combate ao crime organizado.


O que ainda não conseguimos medir satisfatoriamente é quanto tudo isso retira da capacidade de desenvolvimento do Rio de Janeiro.


Quanto investimento não veio. Quanto emprego não nasceu. Quanto dinheiro público não chegou ao cidadão. Quanto empreendimento desistiu. Quanto território perdeu valor. Quanto futuro foi desperdiçado. É esse fio que começaremos a puxar.


A TRIBUNA DA IMPRENSA não pretende mapear criminosos para produzir um catálogo de escândalos. Pretende compreender as vulnerabilidades que permitem ao crime, à corrupção e à má administração capturar territórios que poderiam estar produzindo prosperidade.


Porque combater o crime é tarefa do Estado. Compreender e revelar as condições que permitem que ele prospere também é tarefa do jornalismo.




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