O Hexa foi perdido antes da Copa
Por Marcelo Hallais.
A pior coisa que aconteceu com parte da torcida brasileira foi acreditar que a Copa do Mundo apagaria tudo o que aconteceu nos três anos anteriores.
Não apagaria.
O Brasil não foi eliminado pela Noruega apenas nas oitavas de final. A Seleção começou a perder esta Copa muito antes. Perdeu quando fez as piores Eliminatórias de sua história no formato de pontos corridos, terminando apenas na quinta colocação, atrás de Argentina, Equador e Paraguai, garantindo a classificação graças ao aumento do número de vagas para 48 seleções. Em outro formato, correria até o risco de disputar a repescagem.
Perdeu quando fez uma Copa América decepcionante. Perdeu ao trocar de treinador diversas vezes, mudar a ideia de jogo a cada Data FIFA e nunca conseguir criar uma identidade. Perdeu quando passou a depender apenas do talento individual, sem conseguir formar uma equipe consistente.
A eliminação apenas colocou um ponto final em um roteiro que já vinha sendo escrito.
E, sinceramente, alguém realmente se surpreendeu?
O Brasil passou todo esse ciclo sem convencer. Não conquistou um título relevante, sofreu nas Eliminatórias, passou vergonha em diversos momentos e chegou à Copa cercado de esperança porque a camisa pesa e porque Carlo Ancelotti é um dos treinadores mais vitoriosos da história. Mas camisa e currículo não resolvem problemas estruturais.
Porque o problema não é apenas Vinícius Júnior, Endrick ou Bruno Guimarães.
O problema é muito maior.
O Brasil simplesmente deixou de produzir jogadores em posições fundamentais. Não temos um meia criador capaz de controlar uma partida. Não temos laterais do nível que sempre caracterizou a Seleção Brasileira. Não temos um centroavante consolidado. E, principalmente, nossa defesa se tornou um problema crônico.
O dado talvez mais preocupante desta Copa seja justamente esse: tirando Haiti e Escócia, a Seleção sofreu gols de praticamente todos os adversários que enfrentou. O sistema defensivo nunca transmitiu segurança.
Até a convocação refletia esse momento. Um dos laterais convocados era reserva e vinha atuando como zagueiro no Flamengo. Seu substituto é, originalmente, volante. Isso diz muito sobre a escassez da posição no futebol brasileiro.
E essa escassez não acontece por acaso.
Basta olhar para qualquer grande clube do país.
No Flamengo, por exemplo, o meio-campo titular conta com um chileno, um italiano, um uruguaio e apenas um brasileiro. No banco de reservas há outro brasileiro, um uruguaio, um espanhol e um colombiano. Dos oito principais meio-campistas do elenco, apenas dois são brasileiros.
Como esperar que a Seleção tenha abundância de meias se os próprios clubes brasileiros precisam buscar essa qualidade fora do país?
Isso não é uma crítica aos jogadores estrangeiros. É um alerta sobre a formação do atleta brasileiro.
Ainda existe talento. Vinícius Júnior continua sendo um dos melhores jogadores do mundo. Bruno Guimarães pode liderar um novo ciclo. Matheus Cunha mostrou personalidade. Rayan demonstra enorme potencial. Endrick ainda merece tempo para amadurecer. Martinelli e Danilo também podem encontrar seu espaço.
Mas, do meio-campo para trás, o Brasil precisa praticamente recomeçar.
É uma reconstrução.
Não dá para depositar a esperança da Seleção em um jogador que, nos últimos quatro anos, não teve sequência, não conseguiu decidir sequer partidas do Campeonato Paulista e acabou sendo liberado pelo futebol saudita.
Ancelotti também precisará entender uma característica histórica do futebol brasileiro. O Brasil nunca foi uma seleção construída para jogar esperando o adversário. Essa estratégia pode até funcionar em determinados momentos, mas a identidade brasileira sempre foi controlar o jogo, manter a posse de bola e propor as ações. Ver a Seleção com menos posse do que equipes tecnicamente inferiores causa estranheza porque foge completamente da nossa essência.
O mais perigoso agora seria procurar um único culpado.
Não foi culpa apenas do treinador.
Não foi culpa apenas de um jogador.
Não foi culpa apenas da convocação.
Foi o resultado de um ciclo inteiro mal planejado e mal executado.
A camisa mais pesada da história do futebol continua sendo pesada. Mas camisa não substitui planejamento.
O hexa não foi perdido em um único jogo.
Foi perdido ao longo dos últimos anos.




COMENTÁRIOS