A política na era dos dados
Entre a modernização necessária e os riscos invisíveis da nova engenharia eleitoral
Imagem gerada por IA O Brasil pode estar diante de uma mudança silenciosa na forma de se eleger representantes.
Durante décadas, campanhas eleitorais foram construídas sobre carisma, presença física e comunicação massificada. O palanque, o jingle e o programa de rádio ou televisão eram os pilares centrais da disputa. Hoje, esse modelo começa a dividir espaço com outro tipo de engrenagem: análise territorial, leitura comportamental e inteligência digital aplicada.
A transformação já é visível em democracias consolidadas. Nos Estados Unidos, campanhas incorporaram modelagem estatística e testes contínuos de mensagem como parte essencial da estratégia. Na Europa, o debate evoluiu para outra etapa: como garantir transparência e limites éticos ao uso de dados na publicidade política.
A tecnologia deixou de ser acessório. Tornou-se estrutura.
O TERRITÓRIO COMO UNIDADE ESTRATÉGICA
No Brasil, surgem iniciativas que buscam estruturar esse novo padrão. Entre elas está o chamado Método de Estratégia Territorial Digital, desenvolvido pela Adentu Brasil Tecnologia.
Fernando Cruz, ouvido pela reportagem, explica que a proposta parte de uma premissa simples: a comunicação massificada perdeu eficiência em um ambiente fragmentado. O eleitor não responde mais como bloco uniforme.
O método organiza campanhas em camadas de inteligência: mapeamento macro e microterritorial, identificação de pautas com maior aderência regional, diagnóstico reputacional do candidato, análise da concorrência e leitura de presença digital.
A partir desses dados, constroem-se narrativas audiovisuais ajustadas ao contexto específico de cada território.
“A tecnologia permite transformar dados territoriais em narrativa estratégica. O conteúdo deixa de ser suposição criativa e passa a ser resultado de leitura concreta do eleitorado”, afirma Cruz.
EFICIÊNCIA NÃO É SINÔNIMO DE LEGITIMIDADE
A modernização técnica é inegável. Mas eficiência não encerra a discussão.
A microsegmentação fortalece a representação ou fragmenta o debate público? Narrativas customizadas aproximam o eleitor ou criam realidades paralelas?
Onde termina a persuasão legítima e começa a manipulação emocional?
Experiências internacionais mostram que, quando a tecnologia avança sem governança, a confiança institucional pode ser corroída. Ao mesmo tempo, ignorar a transformação digital mantém campanhas presas ao improviso e à superficialidade estratégica.
O DESAFIO BRASILEIRO
O Brasil é uma das sociedades mais conectadas do planeta, mas ainda opera parte relevante de sua política com lógica analógica. A introdução de métodos estruturados pode elevar o padrão técnico das disputas eleitorais.
Contudo, técnica não substitui ética.
Dados não substituem princípios.
Algoritmos não substituem caráter.
A democracia não pode ser reduzida a engenharia comportamental. Mas também não pode permanecer refém do amadorismo.
O verdadeiro avanço estará na capacidade de unir inteligência territorial, transparência e responsabilidade institucional.
A qualidade dos eleitos continuará sendo uma escolha humana. Mas a forma de se eleger — esta, definitivamente, está mudando.



COMENTÁRIOS