Rodrigo Rocha
O Estado Coordenador
Uma reflexão sobre um modelo de gestão baseado em integração regional, cooperação entre municípios, racionalização administrativa e responsabilidade compartilhada
Governar o Estado do Rio de Janeiro tornou-se uma tarefa complexa demais para continuar sendo conduzida sob uma lógica excessivamente centralizada. Não por incapacidade individual de governantes, mas porque o próprio território fluminense passou a exigir um novo método de coordenação pública.
O Rio é, ao mesmo tempo, metrópole financeira, corredor logístico, polo petrolífero, destino turístico internacional, cinturão industrial, território agrícola, região serrana vulnerável a desastres climáticos e um dos estados mais urbanamente pressionados do país. Tratar realidades tão distintas a partir de um único eixo decisório tornou-se operacionalmente insuficiente.
A QUESTÃO JÁ NÃO É APENAS POLÍTICA, É ADMINISTRATIVA
O modelo tradicional concentra responsabilidades demais no centro do poder e distribui responsabilidades de menos aos territórios. O resultado aparece diante dos olhos: municípios isolados, competição por verbas, sobreposição de estruturas, descontinuidade administrativa e incapacidade de coordenação regional permanente.
O Rio de Janeiro precisa migrar de um modelo verticalizado para um modelo coordenador de gestão pública. Isso não significa criar mais Estado. Significa fazer o Estado funcionar melhor.
A proposta é relativamente simples: estruturar o território fluminense em regiões integradas de governança, coordenadas pelo Executivo estadual em cooperação direta com prefeitos, universidades, setor produtivo e instituições locais.
Não se trata de criar novos “governos regionais”, tampouco de ampliar estruturas pesadas ou inflar a máquina pública. Pelo contrário. A ideia parte justamente da necessidade de reorganizar estruturas já existentes, reduzir desperdícios administrativos e transformar competição institucional em cooperação territorial.
O governador deixa de ser apenas um gestor centralizador de demandas pulverizadas e passa a atuar como coordenador estratégico do estado. Os prefeitos deixam de ocupar o papel permanente de solicitantes de recursos e passam a integrar efetivamente a formulação das prioridades regionais.
O Rio poderia ser dividido em seis grandes regiões operacionais de coordenação: Região Metropolitana, Costa Verde, Serrana, Médio Paraíba, Norte/Noroeste Fluminense e Lagos/Baixadas Litorâneas.
Cada região teria uma Gerência Regional de Coordenação, formada de maneira enxuta, utilizando estruturas públicas já existentes, sem necessidade de expansão significativa da máquina estatal. Essas gerências atuariam ao lado de Conselhos Regionais compostos pelos prefeitos dos municípios envolvidos, além de câmaras técnicas com participação de universidades, federações empresariais, defesa civil, agricultura, turismo, logística, saúde e demais setores estratégicos.
O objetivo seria simples: transformar problemas isolados em soluções coordenadas. Mobilidade, drenagem, segurança pública, turismo, saúde regional, prevenção climática, logística e desenvolvimento econômico deixariam de ser tratados de forma fragmentada entre municípios vizinhos que enfrentam exatamente os mesmos desafios.
COORDENAÇÃO TERRITORIAL
O século XXI exige coordenação territorial. O ponto mais importante é que esse modelo não exige necessariamente aumento de despesas estruturais. Ao contrário do que muitos poderiam supor, a proposta nasce justamente no contexto de revisão de gastos, exonerações e necessidade de racionalização administrativa.
O ganho estaria na integração. Hoje, múltiplas estruturas públicas atuam de forma paralela, muitas vezes concorrendo entre si, replicando contratos, estudos, planejamentos e ações que poderiam ser compartilhados regionalmente.
Além disso, existe um aspecto ainda mais relevante e pouco debatido: o caos financeiro federativo produzido pelos créditos e débitos cruzados entre municípios, estado e União.
Boa parte dos municípios brasileiros convive simultaneamente com dívidas fiscais, precatórios, compensações pendentes, créditos tributários, repasses atrasados e litígios administrativos que se arrastam por anos. Em muitos casos, governos que aparentam insolvência possuem, ao mesmo tempo, valores significativos a receber de outros entes públicos.
O Estado coordenador também poderia atuar como articulador de um grande sistema de encontro de contas interfederativo e regionalizado.
LÓGICA DE COMPENSAÇÕES INTEGRADAS
A lógica seria objetiva: mapear créditos e débitos cruzados, compensar obrigações possíveis, reduzir judicializações, reorganizar fluxos financeiros e liberar capacidade de investimento regional.
Não se trata de perdão fiscal irresponsável. Trata-se de racionalidade administrativa. Bilhões de reais permanecem hoje imobilizados em disputas burocráticas enquanto regiões inteiras carecem de infraestrutura básica, drenagem urbana, prevenção climática, mobilidade e investimentos produtivos.
Parte relevante dessas compensações poderia, inclusive, ser convertida em fundos regionais vinculados a metas concretas de desenvolvimento.
O Rio de Janeiro não sofre apenas por falta de recursos. Sofre pela incapacidade histórica de coordená-los.
PAINÉIS DE DESEMPENHO
Outro elemento central dessa proposta seria a criação de painéis públicos regionais de desempenho, divulgados trimestralmente, permitindo acompanhamento transparente de indicadores de saúde, segurança, mobilidade, drenagem, turismo, educação técnica e geração de empregos.
A população saberia: quem entregou, quem atrasou, quem executou, quem apenas discursou. Esse talvez seja o maior ganho institucional: substituir a política da transferência permanente de culpa pela cultura da responsabilidade compartilhada.
O prefeito deixaria de dizer que o problema pertence exclusivamente ao estado. O estado deixaria de afirmar que a solução depende apenas do município. Ambos passariam a dividir planejamento, metas e resultados.
INOVAÇÃO ADMINISTRATIVA
O Estado coordenador não representa perda de autoridade do Executivo estadual. Representa justamente o contrário: o fortalecimento da capacidade de coordenação do governo sobre um território extremamente complexo.
O Rio de Janeiro chegou ao momento em que precisa decidir se continuará operando como um conjunto fragmentado de disputas administrativas ou se assumirá uma lógica moderna de integração territorial.
Governos do século XXI não serão os maiores. Serão os mais inteligentes na coordenação de pessoas, territórios, recursos e vocações.





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