Dra. Débora Leite
Síndrome do Pânico e Violência Urbana
Uma análise psicossocial
A Tribuna colabora com esta causa A Síndrome do Pânico, classificada no DSM-5 da American Psychiatric Association, é caracterizada por crises recorrentes e inesperadas de medo intenso, acompanhadas por sintomas físicos como taquicardia, sudorese, tremores, sensação de sufocamento e medo de morrer ou perder o controle.
Embora frequentemente compreendida apenas como um transtorno individual de ansiedade, sua análise pode — e deve — ser ampliada para considerar os contextos sociais e experiências de violência que atravessam a vida dos sujeitos.
Sob a perspectiva da teoria do trauma, autores como Judith Herman defendem que experiências prolongadas de violência — física, psicológica ou simbólica — podem produzir estados persistentes de hipervigilância e desregulação emocional.
O corpo permanece em constante alerta, como se o perigo fosse iminente, o que pode contribuir para o desencadeamento de transtornos ansiosos, incluindo o pânico.
Nesse sentido, a violência não se restringe ao ato físico. O sociólogo Pierre Bourdieu introduz o conceito de violência simbólica, entendida como formas sutis e naturalizadas de dominação que produzem sofrimento psíquico sem necessariamente envolver agressão direta. Ambientes marcados por humilhação, desvalorização ou exclusão podem impactar profundamente a saúde mental.
Além disso, Michel Foucault contribui ao problematizar como as instituições e discursos sociais regulam os corpos e as subjetividades. A patologização do sofrimento, quando descontextualizada das condições sociais, pode invisibilizar as raízes estruturais da dor psíquica.
Do ponto de vista neurobiológico, estudos sobre estresse crônico demonstram que a ativação prolongada do sistema de resposta ao estresse altera circuitos cerebrais ligados ao medo e à ansiedade.
Bessel van der Kolk destaca que “o corpo guarda as marcas do trauma”, indicando que experiências violentas podem permanecer registradas fisiologicamente.
Paralelamente, indivíduos diagnosticados com síndrome do pânico também podem sofrer formas secundárias de violência, como estigmatização, descrédito ou exclusão social. Essa reação social reforça o sofrimento e dificulta a busca por ajuda, revelando que o adoecimento mental não ocorre isoladamente, mas em interação com o meio.
Portanto, compreender a síndrome do pânico exige uma abordagem biopsicossocial. Não se trata apenas de um desequilíbrio químico ou fragilidade individual, mas de um fenômeno que pode estar relacionado a experiências de violência, desigualdade e insegurança.
Promover ambientes seguros, relações respeitosas e políticas públicas de cuidado é também uma estratégia de prevenção em saúde mental.
Refletir sobre síndrome do pânico e violência é reconhecer que o sofrimento psíquico carrega marcas individuais e sociais — e que o enfrentamento desse sofrimento requer responsabilidade coletiva.
A violência urbana constitui um fenômeno social complexo que ultrapassa os limites da criminalidade e impacta diretamente a saúde mental da população. No Brasil, relatórios produzidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, especialmente por meio do Atlas da Violência, evidenciam que, embora haja oscilações nas taxas de homicídio, a exposição cotidiana a diferentes formas de violência — assaltos, confrontos armados, violência policial e insegurança territorial — permanece como parte da realidade de muitos centros urbanos.
Do ponto de vista psicológico, viver em contextos marcados pela violência produz um estado frequente de hipervigilância. A percepção constante de perigo ativa o sistema de resposta ao estresse, responsável pela liberação de adrenalina e cortisol. Quando essa ativação se torna crônica, o organismo passa a operar em “modo de alerta permanente”, favorecendo o desenvolvimento de transtornos de ansiedade.
A Síndrome do Pânico, definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno caracterizado por crises súbitas de medo intenso acompanhadas de sintomas físicos (taquicardia, falta de ar, tontura, sensação de morte iminente), pode emergir nesse contexto de ameaça recorrente. O corpo reage como se estivesse diante de um perigo real, mesmo na ausência de risco imediato.
A relação entre violência urbana e síndrome do pânico não é apenas biológica, mas também social. A exposição repetida a assaltos, perdas violentas, testemunho de mortes ou convivência com conflitos armados pode produzir trauma psicológico. Mesmo indivíduos que não foram vítimas diretas podem desenvolver ansiedade intensa por meio da chamada “vitimização indireta”, amplificada por narrativas midiáticas e experiências comunitárias compartilhadas.
Além disso, o medo constante altera rotinas: pessoas evitam sair de casa, mudam trajetos, restringem sua circulação e limitam interações sociais. Esse encolhimento do espaço urbano gera isolamento, o que pode potencializar quadros ansiosos e ataques de pânico.
Estudos sociológicos apontam que a violência urbana atinge de maneira desigual determinados territórios e grupos sociais. Comunidades periféricas, onde há maior presença de confrontos armados e menor acesso a políticas públicas, vivenciam níveis mais intensos de estresse coletivo. Nesse cenário, a saúde mental torna-se também uma questão de justiça social.
Assim, compreender a síndrome do pânico apenas como fragilidade individual é insuficiente. É necessário reconhecer que o sofrimento psíquico pode estar vinculado a contextos estruturais de insegurança, desigualdade e exclusão.
A violência urbana não produz apenas vítimas físicas; ela gera impactos emocionais duradouros, muitas vezes invisíveis. A síndrome do pânico pode ser entendida, em parte, como uma resposta do organismo a ambientes marcados por medo e imprevisibilidade.
Enfrentar essa realidade exige políticas integradas que articulem segurança pública, redução das desigualdades e ampliação do acesso a cuidados em saúde mental. Cuidar da cidade é, também, cuidar da subjetividade de quem nela vive, em situações de sofrimento psíquico, recomenda-se buscar ajuda dos profissionais especializados.
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