Rodrigo Rocha
Quando o diálogo protege mais do que a disputa
Tribuna como instrumento vivo de integração territorial e produtiva
Clima de Redação Tribuna gerado por IA A Tribuna da Imprensa carrega uma história singular no jornalismo brasileiro — marcada por pluralidade, embates intelectuais e compromisso com o debate público. Preservar esse legado não significa apenas reverenciar o passado, mas assegurar que ele continue vivo, institucionalmente sólido e socialmente útil no presente.
Foi com esse espírito que, desde o princípio de nosso processo de reestruturação do jornal em 2021, buscamos o diálogo como ponto de partida. Não por sentimentalismo, mas por convicção. À época, encontrei em um sebo o livro Recordações de um desterrado em Fernando de Noronha, de autoria do jornalista Hélio Fernandes, e uma passagem que permanece atual:
“Estou convencido, com toda a sinceridade, de que a saída para o drama brasileiro há de ser encontrada no diálogo sobre os problemas, e não nas tricas e futricas da politiquice mais rasteira.”
Essa reflexão orienta o que se segue.
A trajetória da Tribuna não foi linear. O ano de 2001 representa, sob qualquer análise jurídica minimamente rigorosa, um marco de ruptura institucional. Na iminência de uma falência, a empresa deixou de operar dentro de sua normalidade societária, com descontinuidade operacional e perda da capacidade efetiva de cumprir suas obrigações. Os efeitos jurídicos desse período foram conhecidos: fragilização da empresa, exposição de credores — especialmente trabalhadores — e esvaziamento de sua estrutura institucional, inclusive perda do controle efetivo sobre sua marca registrada, em um contexto de desorganização societária e ausência de gestão continuada.
A partir daí, a Tribuna atravessou anos de instabilidade, sem governança clara, sem encadeamento documental e sem controle efetivo de ativos estratégicos. Um exemplo emblemático foi a perda definitiva da marca, já há décadas desassociada do CNPJ original. Em 2019, a marca foi facilmente registrada por terceiros, que a perceberam absolutamente desprotegida e sem dono, em decorrência de mera falta de providências administrativas necessárias para sua preservação junto ao INPI. O principal ativo intangível de um jornal histórico deixou, então, de existir juridicamente.
Quando, em 2021, assumimos o desafio de reconstruir a Tribuna, o cenário era esse: passivos relevantes, risco jurídico concreto e ausência de proteção de sua própria denominação. Ainda assim, optamos por agir. Enfrentamos responsabilidades, regularizamos pendências e, mesmo sem qualquer obrigação jurídica prévia, negociamos e viabilizamos a recompra da marca, justamente para assegurar solidez institucional e segurança jurídica ao projeto.
Convém esclarecer um ponto essencial. A decisão de promover a reestruturação da Tribuna não se deu apenas por interesse editorial. O CNPJ originalmente constituído detinha direitos creditórios relevantes, cujo aproveitamento econômico exigia, entretanto, a recuperação da própria empresa, há muito inativa e com grau de passivo bem superior ao do potencial ativo recuperável. Isso implicou um processo clássico de “turnaround”, com redução drástica de endividamentos, enfrentamento de contingências fiscais e trabalhistas acumuladas ao longo de anos e assunção consciente de riscos jurídicos e reputacionais por parte dos administradores.
Em ao menos um episódio concreto, a Tribuna esteve novamente diante de risco iminente de falência, superado apenas mediante aportes diretos de recursos próprios, realizados para preservar a continuidade da empresa e evitar sua liquidação definitiva. Não fosse essa intervenção, é legítimo perguntar sobre o que se estaria discutindo agora?
Esses fatos não são apresentados como mérito moral, mas como dados objetivos da realidade. A Tribuna só voltou a ter base jurídica mínima porque houve ação concreta para reconstruí-la.
Esse esforço, porém, não se limita à preservação de um jornal histórico. A Tribuna vem sendo reposicionada como plataforma de comunicação e articulação de iniciativas produtivas, culturais e territoriais, com foco na valorização de Arranjos Produtivos Locais (APLs), no fortalecimento de economias regionais e na integração entre produção, conhecimento, cultura e identidade.
Nesse sentido, o jornal deixa de ser apenas observador para se tornar instrumento de conexão: entre produtores e mercados, entre territórios e políticas públicas, entre iniciativas locais e narrativas nacionais. Trata-se de uma visão de comunicação comprometida com o desenvolvimento real, enraizado no território e orientado para o futuro.
É justamente por isso que conflitos prolongados produzem um custo que vai além das partes envolvidas. Litígios longos, quando recaem sobre instituições em funcionamento, paralisam projetos, adiam investimentos e impedem que iniciativas estruturantes cumpram seu papel social. O tempo do processo, ainda que legítimo, raramente favorece o interesse coletivo.
Buscar consenso, portanto, não é renunciar a posições jurídicas, mas reconhecer os limites objetivos da prova após décadas de descontinuidade e optar por uma solução que permita liberar energia, recursos e inteligência para aquilo que realmente importa: construir.
A Tribuna da Imprensa segue comprometida com a pluralidade de ideias. Estamos abertos a colaboradores de esquerda, centro e direita, desde que comprometidos com o debate responsável, o respeito democrático e a construção de soluções concretas para o país.
O passado merece respeito.
Mas o futuro exige decisão.
Superar diferenças e reconstruir a Tribuna como espaço vivo de ideias, integração produtiva e desenvolvimento territorial é um objetivo comum — e mais do que nobre. Para o bem de todos, alcançar o bom senso não seria apenas desejável: seria memorável.



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