Rodrigo Rocha
A saga da reativação de um jornal histórico
Retomar as atividades de um jornal emblemático como a TRIBUNA DA IMPRENSA foi um dos melhores, embora mais árduos, projetos dos quais já participei. Um dos raros casos de reativação de marca em que o CNPJ original também foi resgatado. Voltar a dar vida a um jornal com tanta personalidade tem sido uma missão que ultrapassa a de um trabalho comum de reativar uma empresa comercial, porque há aquela sensação de se estar resgatando o jornalismo de antigamente.
Fundado pelo visionário Carlos Lacerda em 1949, o jornal que ajudou a derrubar Getúlio Vargas foi comprado pelo Jornal do Brasil dez anos depois. Segundo a história, o JB repassou a TRIBUNA para o aguerrido Helio Fernandes. Referências da imprensa brasileira, Lacerda e Fernandes, ainda que polêmicos, escreveram décadas de jornalismo combativo. Compreender as entranhas da administração e as relações desse ícone da imprensa tem sido um aprendizado diário. Desativado há quase 25 anos, o primeiro desafio foi analisar a situação legal do CNPJ constituído por Carlos Lacerda e resgatar a marca TRIBUNA DA IMPRENSA®️, que até 2017 pertenceu à Gráfica e Editora Andrômeda, empresa de Helio Fernandes e de seu filho mais velho, de mesmo nome.
Em 2021, quando começamos as análises, pesando os riscos e oportunidades envolvidos, tomamos a decisão de assumir o CNPJ, cientes de que, por um lado, havia um expressivo passivo, superior a R$ 65,0 milhões, composto por mais de 250 ações judiciais, entre trabalhistas, fiscais e previdenciárias, e, por outro lado, o fato de o CNPJ ter direito a receber sua indenização pela postura combativa do jornal no período do regime militar, que, entretanto, encontrava-se bloqueada pelas pesadas dívidas. Concluímos que, apesar do elevado endividamento, seria possível reverter o quadro econômico-financeiro e, com o jornal livre de ônus, voltar a gerar resultados graças à força de sua marca histórica, aliada ao saldo dos direitos financeiros finalmente desbloqueados após a reestruturação. Para isso, foi imprescindível o comprometimento de uma equipe técnica de primeiríssima linha, de parceiros abnegados que acreditaram no impossível, e do sócio para lá de amigo, o indispensável Irmão Edmundo Silva. E assim, grande parte dos funcionários pôde ser ressarcida, assim como foram debeladas as sequelas causadas por processos falimentares que comprometiam a continuidade do negócio. Missão cumprida até aqui, mas ainda falta muito a percorrer até alcançarmos o patamar de sua tradicional importância.
A marca histórica foi criada por Lacerda quando ainda escrevia a coluna “DA TRIBUNA DA IMPRENSA” no Correio da Manhã. Ele obteve a autorização de Paulo Bittencourt, proprietário deste jornal, e montou o seu, recebendo ainda de seu antigo patrão uma rotativa para imprimir a publicação diária. Ao longo do trabalho, tomamos conhecimento de que, espantosamente, a marca TRIBUNA DA IMPRENSA até o ano 2000 ainda permanecia em nome da esposa de Lacerda. Em 2001, ano em que o CNPJ sofreu um processo de falência e mudou de mãos, a marca foi registrada em nome de outra empresa de Fernandes, que passou a rodar a edição impressa até 2008 e, lamentavelmente, em 2017, ela foi perdida no INPI por mera falta de renovação de taxas. Em 2022, a VIDEIRAINVEST a recomprou após negociações com seu novo proprietário, ponto imprescindível, já que seria impossível a volta do jornal genuíno ao mercado sem que o nome também nos pertencesse no âmbito do INPI, órgão onde se registram as marcas e patentes, protegendo a propriedade intelectual de terceiros. Vários domínios na internet permanecem sendo usados indevidamente, e aos poucos estamos os resgatando, assim como retomamos recentemente um dos sobrados da Rua do Lavradio, onde a TRIBUNA funcionava tradicionalmente. Após uma longa disputa judicial, a ideia é transformá-lo em um Centro Cultural com objetivos vinculados ao jornalismo brasileiro, equipado com estúdio para rádio e TV web e espaço para cursos, seminários e eventos.
Imersos em sua história, destaco uma curiosidade encontrada em um ótimo trabalho realizado pela FGV, onde há uma menção sobre um artigo publicado por Helio Fernandes em 1969, que versava sobre os “Vinte anos pela liberdade da Tribuna da Imprensa”, em que declarava: “O jornal não arredou pé de sua trajetória de nacionalismo, mesmo que as esquerdas a qualifiquem de reacionária e as direitas de demagógica e comunista. A sua luta é a do povo, pela integração do Brasil, e não sua estagnação. É a luta pelos ideais patrióticos e democráticos da massa popular brasileira, vilipendiada e desrespeitada pelas demagogias de 12 governos em 20 anos, o que patenteia o estado de irresponsabilidade e de descalabro que tem vivido o país.”
Seja pelo ímpeto de Lacerda ou pelo tom de Fernandes, o que pontua a TRIBUNA DA IMPRENSA desde 1949 é a sua fidelidade a uma posição nacionalista. É nesse diapasão que guardamos nossa visão sobre a continuidade do DNA do combativo jornal.

Destacado o seu propósito, o desafio de agora é a conquista da audiência nesses tempos em que a guerra agora é pelo máximo de “cliques”, obrigatoriamente cobrindo todas as tribos com o uso de robôs, de olho nos desvios-padrão que se destaquem no universo binário e nas “trends”, já que, na prática, é o algoritmo que manda. Modernamente, a venda de jornal nem sempre está associada à ideologia política, como antes se definia a corrente de um jornal impresso. Agora, o que dá norte ao comercial é a busca da cobertura sobre o que mais provoca repercussão, evitando-se que o jornal emita opiniões acintosas para determinado vetor. A audiência já há algum tempo parece exausta desse modelo, e os “podcasts” têm ocupado esse papel, convocando dois ou mais especialistas com visões diferentes para refletirem sobre o tema quente do momento, sobre as ações empreendedoras. Queremos provocar debates sobre a integração dos municípios brasileiros a partir da identificação de suas indicações geográficas e vocações naturais. Incentivar o esporte olímpico. Provocar a percepção da cultura popular, tendências da moda, comportamento, encorajar a liberdade de expressão, despertar estes e outros assuntos que colaborarem para uma sociedade crítica, ética, criativa e cidadã.
Dos tempos antigos, fica imutável o compromisso pela preservação de valores de antigamente, pelo filtro da verdade sem sofismas, monitorando a balança da igualdade de direitos, incentivo à prosperidade e fraternidade na divisão de riquezas, porque, afinal, o importante é estarmos irmanados em fortalecer a soberania do Brasil, sob a ótica de um canal de comunicação independente, fundado em 1949, especialmente para defender os ideais democráticos de nosso país, como preconizava seu estatuto, redigido pelo notável jurista Sobral Pinto, e hoje novamente pujante, reerguido com muita raça e vontade de colaborar na restauração deste enorme e belo colchão de retalhos em recostura chamado Brasil.




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