Por que estão pedindo que você se prepare para 72 horas?
Em meio a guerras, ameaças digitais e fenômenos naturais, governos reforçam orientações de emergência. O que está por trás dessa recomendação, quais riscos podem chegar ao Brasil e quem responde pela proteção da população?
Há poucos dias, a TRIBUNA DA IMPRENSA perguntou se o mundo estava mais próximo de uma guerra generalizada. Desde então, notícias sobre ameaças a cabos submarinos, ataques cibernéticos, tempestades solares e terremotos passaram a circular ao lado de uma recomendação que despertou a curiosidade de muita gente: manter em casa suprimentos suficientes para enfrentar 72 horas de emergência.
A associação é compreensível. Quando diferentes governos orientam seus cidadãos a guardar água, alimentos, medicamentos e lanternas, surge uma pergunta inevitável: estão se preparando para alguma coisa que ainda não sabemos?
A resposta exige separar acontecimentos, compreender os riscos e conhecer os mecanismos de proteção existentes. Preparar-se para uma emergência não significa que ela esteja prestes a acontecer. Significa reconhecer que até sociedades tecnologicamente avançadas podem enfrentar interrupções temporárias de serviços essenciais.
E há uma diferença considerável entre viver com medo de uma catástrofe e saber como agir diante de uma dificuldade.
POR QUE JUSTAMENTE 72 HORAS?
Três dias representam um período inicial de autonomia doméstica recomendado em diferentes programas de proteção civil. A ideia é permitir que uma família atravesse as primeiras horas de uma emergência enquanto equipes de resgate, concessionárias e autoridades trabalham para restabelecer os serviços.
A orientação não nasceu agora. Países europeus, Estados Unidos e outras nações já adotam medidas semelhantes para situações que incluem tempestades, enchentes, incêndios, falhas elétricas, acidentes industriais e conflitos.
Na União Europeia, a preparação doméstica ganhou destaque na estratégia de prontidão apresentada em março de 2025. No Brasil, a Defesa Civil Nacional voltou a divulgar recomendações preventivas em novembro de 2026, esclarecendo que elas não representam um alerta de catástrofe iminente.
O kit básico reúne água potável, alimentos que dispensam preparo complexo, medicamentos de uso contínuo, lanternas, pilhas, rádio, documentos protegidos e meios alternativos de comunicação.
Não se trata de construir um abrigo subterrâneo nem de transformar a residência num depósito de mantimentos. Trata-se de organizar recursos simples que podem fazer diferença durante uma interrupção de serviços.
O prazo de 72 horas também não significa que o socorro público só chegará depois de três dias. É uma referência de planejamento, não uma previsão sobre a duração de uma crise.
O QUE ESTÁ ACONTECENDO NO MUNDO?
Os acontecimentos recentes chamam a atenção porque parecem se acumular. No Oriente Médio, ameaças à infraestrutura de cabos submarinos levantam preocupações sobre a segurança das comunicações internacionais. Esses cabos transportam a maior parte do tráfego intercontinental de dados e sustentam operações financeiras, comerciais e governamentais.
Uma interrupção localizada não desligaria automaticamente a internet mundial. As redes possuem rotas alternativas, embora a capacidade de redirecionamento varie conforme a região e a extensão dos danos.
Ao mesmo tempo, ataques cibernéticos e tentativas de invasão de sistemas públicos e privados demonstram que serviços essenciais também podem ser afetados sem a presença de soldados, navios ou aeronaves.
Há ainda fenômenos naturais. Tempestades geomagnéticas podem interferir em determinadas comunicações, satélites e redes elétricas, conforme sua intensidade. Terremotos podem comprometer estruturas físicas e, em circunstâncias específicas, produzir tsunamis.
Mas é importante distinguir esses processos. Um terremoto na Dorsal Mesoatlântica não demonstra relação com uma tempestade solar, assim como nenhum dos dois constitui prova de uma operação militar.
A simultaneidade dos acontecimentos não estabelece uma causa comum. O que eles compartilham é a possibilidade de atingir infraestruturas das quais milhões de pessoas dependem.
O BRASIL PODE SER ATINGIDO?
Sim. Mas os efeitos dependem da natureza, localização e intensidade de cada acontecimento.
Uma crise energética internacional pode elevar custos de combustíveis, fertilizantes, transportes e mercadorias. Uma interrupção relevante nas telecomunicações pode prejudicar empresas, instituições financeiras e serviços digitais. Fenômenos climáticos extremos podem comprometer estradas, redes elétricas, abastecimento de água e comunidades inteiras.
Isso não significa que uma ameaça aos cabos submarinos no Oriente Médio deixaria automaticamente o Brasil sem internet. Nosso país possui conexões internacionais por diferentes rotas, especialmente pelo Atlântico, embora também dependa de redes e serviços globais.
O mesmo raciocínio vale para o Pix. Uma falha de conexão individual, um ataque contra uma instituição financeira e uma indisponibilidade da infraestrutura central de pagamentos são acontecimentos diferentes, com consequências diferentes.
Quanto aos fenômenos naturais, a exposição brasileira também varia. Enchentes, deslizamentos, secas e tempestades severas merecem atenção permanente. Já um terremoto distante não representa, por si só, ameaça ao litoral brasileiro.
O país precisa conhecer essas diferenças para investir na proteção adequada, sem subestimar riscos nem alimentar receios desnecessários.
AS CRISES TAMBÉM TÊM BENEFICIÁRIOS
Existe outra dimensão que merece investigação: a econômica. Guerras, crises cambiais, interrupções de abastecimento e dificuldades energéticas provocam perdas, mas também alteram preços, deslocam investimentos e criam oportunidades de aquisição de ativos.
A história oferece exemplos conhecidos. Em 1992, o investidor George Soros obteve lucros expressivos ao apostar contra a libra esterlina durante a crise que levou o Reino Unido a abandonar o mecanismo europeu de taxas de câmbio.
A operação tornou-se símbolo da capacidade dos mercados financeiros de explorar fragilidades econômicas. Entretanto, a crise britânica já possuía fundamentos macroeconômicos próprios. Lucrar com uma crise não significa necessariamente tê-la provocado.
Essa distinção continua válida. Uma indústria europeia pressionada por custos energéticos pode perder competitividade e tornar-se alvo de aquisição. Empresas de segurança digital podem ampliar receitas diante do aumento dos ataques. Produtores de energia e fornecedores de equipamentos estratégicos podem encontrar novos mercados.
O jornalismo precisa investigar quem ganha, quem perde, quais ativos mudam de mãos e quais decisões contribuíram para determinada crise.
Mas atribuir sua origem a um investidor, governo ou organização exige documentos e evidências. A existência de beneficiários não comprova a existência de autores.
Para o Brasil, a questão também envolve oportunidades. Reduzir dependências externas, ampliar a produção de equipamentos estratégicos, fortalecer a segurança digital e desenvolver cadeias industriais nacionais são caminhos para diminuir vulnerabilidades e gerar trabalho, renda e conhecimento.
QUEM DEVE ESTAR PREPARADO?
A preparação não pode ser responsabilidade exclusiva das famílias. Se o cidadão recebe a orientação de manter suprimentos para três dias, é legítimo perguntar quais mecanismos permitem que hospitais, escolas, sistemas de abastecimento, telecomunicações e serviços públicos continuem funcionando durante o mesmo período.
No Brasil, a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, estabelecida pela Lei nº 12.608/2012, organiza responsabilidades compartilhadas entre União, estados, Distrito Federal e municípios.
A estrutura envolve prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação. Os municípios possuem papel central no planejamento territorial e na proteção das comunidades, enquanto estados e União oferecem apoio, coordenação e recursos conforme suas competências.
Mas a existência de uma lei não garante, sozinha, a capacidade operacional.
É preciso conhecer os planos de contingência, realizar exercícios, identificar áreas vulneráveis, assegurar rotas alternativas e verificar se concessionárias e instituições essenciais possuem mecanismos de continuidade.
Universidades e centros de pesquisa podem contribuir com modelagem de riscos, monitoramento e formação técnica. Empresas podem investir em redundância de redes, geração de energia de emergência e segurança dos sistemas.
E a população precisa receber orientações claras, acessíveis e adequadas à realidade de cada território.
Uma família que vive numa área sujeita a enchentes enfrenta necessidades diferentes das de moradores de um edifício com abastecimento regular. Pessoas idosas, crianças, pacientes que dependem de equipamentos elétricos e famílias de baixa renda exigem atenção específica.
Não basta recomendar a compra de suprimentos a quem não dispõe de recursos para adquiri-los. A prevenção também precisa ser uma política de inclusão e proteção social.
PREPARAR-SE É MOTIVO PARA TRANQUILIDADE
A recomendação de manter um kit doméstico não deve ser interpretada como anúncio de guerra, apagão ou desastre iminente.
Ela representa uma mudança importante na maneira de lidar com riscos: reconhecer que imprevistos acontecem e que uma sociedade organizada consegue reduzir seus efeitos.
A mesma lógica vale para governos e empresas. Investir em prevenção costuma ser menos oneroso, em vidas e recursos, do que reconstruir aquilo que poderia ter sido protegido.
O Brasil dispõe de instituições de pesquisa, estruturas de defesa civil, universidades, empresas de tecnologia e capacidade produtiva para avançar nessa direção. O desafio está em integrar esses recursos e transformar planos em procedimentos conhecidos, testados e acessíveis à população.
O mundo atravessa tensões geopolíticas, mudanças ambientais e uma crescente dependência de sistemas digitais. Isso exige atenção, mas não justifica transformar cada notícia em anúncio de catástrofe.
A melhor resposta não é o medo. É a informação acompanhada de organização. E a pergunta que fica não é apenas se cada família possui água, alimentos e lanternas suficientes para três dias.
É se o Brasil está organizando suas instituições, suas empresas e seus territórios para que, diante de uma emergência, ninguém precise enfrentar esses três dias sozinho.





COMENTÁRIOS