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E se cada cidade brasileira tivesse um clube capaz de formar campeões?

O fortalecimento dos esportes olímpicos pode recuperar clubes locais, formar profissionais e transformar o esporte em uma atividade econômica permanente nos municípios brasileiros


E se cada cidade brasileira tivesse um clube capaz de formar campeões?

O Brasil costuma descobrir seus atletas quando eles chegam aos Jogos Olímpicos. É quando conhecemos suas histórias, as dificuldades enfrentadas pelas famílias, os treinamentos improvisados e os sacrifícios necessários para competir com os melhores do mundo.


Celebramos as medalhas, recebemos os campeões e, encerrada a competição, voltamos à rotina. Mas o que acontece com milhares de crianças e jovens que nunca encontraram uma piscina adequada, uma pista de atletismo, um ginásio equipado ou um treinador capaz de desenvolver suas habilidades?


A questão vai além do esporte. Envolve educação, saúde, emprego, investimento, infraestrutura e desenvolvimento econômico. E começa em um lugar que raramente aparece nas discussões sobre medalhas olímpicas: o município.


O CLUBE QUE A CIDADE PERDEU

Durante gerações, clubes sociais e esportivos ocuparam uma posição importante na vida das cidades brasileiras. Eram espaços de convivência, formação de atletas, atividades culturais e relacionamento entre famílias.


Parte dessas instituições perdeu associados, receitas e capacidade de investimento. Algumas encerraram atividades. Outras continuam funcionando, mas enfrentam dificuldades para manter instalações, contratar profissionais e oferecer modalidades esportivas.


Ao mesmo tempo, muitas cidades possuem equipamentos públicos que poderiam ser mais utilizados, desde que contassem com manutenção, programação permanente e profissionais qualificados.


A pergunta é simples: antes de construir novos complexos esportivos, não deveríamos descobrir como recuperar e aproveitar melhor aquilo que já existe?


QUEM FORMA O ATLETA?

Nenhum campeão surge sozinho. Por trás de um nadador existe uma equipe de profissionais. O mesmo acontece com ginastas, judocas, corredores, jogadores de vôlei e atletas de tantas outras modalidades.


Treinadores, professores de educação física, fisioterapeutas, nutricionistas, médicos, psicólogos, gestores e técnicos especializados fazem parte de uma atividade econômica que vai muito além das competições.


Isso significa que investir no esporte também pode significar criar empregos, estimular empresas de serviços, movimentar fornecedores, organizar eventos e desenvolver novas profissões.


Um município que mantém instalações esportivas funcionando durante todo o ano não está apenas oferecendo lazer. Está criando oportunidades de formação e trabalho.


A INDÚSTRIA TAMBÉM ENTRA EM CAMPO

Mas o desenvolvimento esportivo não termina nos atletas, treinadores e profissionais de saúde. Existe uma cadeia produtiva inteira que pode crescer com a expansão do esporte nos municípios brasileiros.


Uniformes, tênis, bolas, redes, tatames, raquetes, equipamentos de ginástica e materiais de treinamento precisam ser fabricados, comercializados e substituídos. Ginásios, piscinas e centros esportivos também exigem obras, manutenção, tecnologia e serviços especializados.


Imagine o que uma rede nacional de clubes e instalações esportivas funcionando regularmente poderia representar para pequenas indústrias, oficinas de costura, fábricas de calçados, metalúrgicas, cooperativas e empresas dedicadas à reciclagem de materiais.


Parte dessa produção poderia surgir ou voltar a existir em cidades que perderam atividades industriais ao longo dos anos. Outra parte poderia estimular novos negócios, desenvolver tecnologias e aproveitar matérias-primas recicladas, respeitando os padrões de segurança e qualidade.


O esporte passaria, assim, a representar também uma oportunidade para a indústria brasileira, criando demanda por produtos e serviços que não dependem exclusivamente dos grandes eventos.


Afinal, formar um atleta exige muito mais do que descobrir seu talento. Exige uma estrutura econômica capaz de acompanhá-lo desde os primeiros treinamentos.


CADA MUNICÍPIO PRECISA TER UM PARQUE OLÍMPICO?

Não. E essa distinção é fundamental. Uma cidade pequena não precisa reproduzir as instalações de um centro olímpico internacional. Precisa oferecer acesso organizado à prática esportiva, profissionais qualificados e condições para identificar talentos.


Municípios vizinhos podem compartilhar centros regionais de treinamento. Universidades podem participar da formação de profissionais. Clubes tradicionais podem recuperar suas instalações. Escolas podem integrar programas esportivos permanentes.


Modalidades que exigem equipamentos especializados podem ser organizadas regionalmente, evitando instalações caras e pouco utilizadas.


O objetivo não seria espalhar obras pelo território brasileiro, mas construir uma rede capaz de funcionar todos os dias.


E QUEM PAGA ESSA CONTA?

O financiamento é uma das principais questões. Recursos públicos são importantes para assegurar o acesso ao esporte, especialmente para crianças e jovens. Mas a manutenção de uma rede nacional também exige modelos de gestão, receitas próprias, investimentos privados e compromissos de longo prazo.


Instalações esportivas podem receber competições, oferecer serviços, promover eventos, formar profissionais e desenvolver atividades complementares. Parte dessas receitas pode ajudar a financiar a operação e ampliar o atendimento à população.


O desafio está em organizar essas possibilidades sem transformar o esporte em privilégio de quem pode pagar. É justamente nesse ponto que surge uma discussão sobre o futuro dos clubes brasileiros.


O futebol já dispõe de um regime empresarial específico, criado pela legislação das Sociedades Anônimas do Futebol, as SAFs. Mas e as demais modalidades? Como atrair investimentos para a natação, o atletismo, a ginástica, o judô, o vôlei e tantos outros esportes?


Seria possível desenvolver uma estrutura empresarial própria, capaz de reunir investidores, clubes, profissionais e projetos esportivos, preservando compromissos com a formação e o acesso comunitário?


UM PROJETO QUE NÃO TERMINA NAS OLIMPÍADAS

O Brasil precisa pensar no esporte para além dos ciclos de quatro anos. Uma política nacional de desenvolvimento esportivo deveria ser construída para atravessar governos, com metas de longo prazo, participação dos municípios, formação profissional e acompanhamento dos resultados.


O sucesso não seria medido apenas pelo número de medalhas conquistadas, mas também pela quantidade de pessoas atendidas, profissionais formados, clubes recuperados, equipamentos utilizados e oportunidades econômicas criadas.


O esporte olímpico e paralímpico pode ocupar uma posição muito mais importante na vida brasileira. Para isso, precisa deixar de ser lembrado apenas quando nossos atletas entram em competição.


Na próxima reportagem deste especial, a TRIBUNA DA IMPRENSA apresenta uma proposta para ampliar essa discussão: a Sociedade Anônima de Desenvolvimento Esportivo — SADE, um modelo em estudo para aproximar investimento, gestão profissional, formação esportiva e desenvolvimento territorial.


Antes de perguntar quantas medalhas o Brasil poderá conquistar nos próximos Jogos Olímpicos, vale fazer outra pergunta: quantas crianças brasileiras terão a oportunidade de descobrir o esporte que poderiam praticar?






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