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O Rio que as pesquisas não viram

O que afinal aconteceu na reta final?


O Rio que as pesquisas não viram

Na véspera da votação, as pesquisas colocavam Eduardo Paes à frente de Douglas Ruas. As dúvidas estavam na distância entre os dois, na possibilidade de segundo turno e no tamanho dos demais candidatos.


As urnas produziram outra fotografia.

Douglas Ruas recebeu 4.271.199 votos, ou 49,27%. Eduardo Paes terminou com 3.706.984, ou 42,76%. Anthony Garotinho apareceu em terceiro, com 274.411 votos, equivalentes a 3,17%, registrados como anulados sub judice.


A diferença entre o que se esperava e o que saiu das urnas coloca uma pergunta no centro da eleição fluminense: o que as pesquisas não conseguiram enxergar?


Movimento tardio do eleitor? Comparecimento diferente do estimado? Mobilização territorial? Influência da eleição presidencial? Redes partidárias e municipais?


Talvez não exista uma única resposta.

Para procurá-la, é preciso sair do resultado estadual e olhar o mapa.


O QUE ACONTECEU NOS 92 MUNICÍPIOS?

Ruas terminou à frente em 79 dos 92 municípios fluminenses. Paes venceu em 13. Na capital, porém, aconteceu o contrário: Paes obteve 52,52%, contra 40,05% de Ruas.


O contraste é revelador. Uma eleição não é decidida contando municípios, mas conhecer a distribuição territorial do voto permite enxergar forças que desaparecem quando observamos apenas o resultado agregado.


Como um candidato capaz de vencer a maior cidade do estado terminou atrás no conjunto do Rio?


QUANDO A ELEIÇÃO CHEGA EM CASA

Três municípios oferecem pistas. Em São Gonçalo, território fortemente associado à trajetória política de Ruas, ele chegou a aproximadamente 60%. Na cidade do Rio, principal território político de Paes, o candidato do PSD obteve 52,52%.


Em Campos dos Goytacazes, território historicamente ligado a Garotinho, apareceu outra fotografia: Ruas obteve 48,34%, Paes 29,34% e Garotinho 17,77%.


Garotinho multiplicou ali várias vezes seu desempenho estadual — e ainda assim Ruas venceu o município.


A pergunta, portanto, fica mais interessante:

quanto do resultado vem do candidato — e quanto vem da rede política de cada território?


QUEM LEVOU O CANDIDATO ATÉ O ELEITOR?

A eleição municipal de 2024 deixou no estado uma rede fragmentada de prefeitos, vereadores, partidos e lideranças locais. Nenhuma legenda, isoladamente, controlava algo próximo dos 79 municípios em que Ruas terminaria na frente dois anos depois.


Isso impede uma explicação baseada simplesmente no partido do prefeito. Prefeitos não transferem votos automaticamente. Mas estruturas partidárias, vereadores, deputados, lideranças locais, igrejas, associações, redes digitais e campanhas de rua ajudam a fazer uma candidatura circular.


Surge então outra pergunta: Ruas venceu onde o PL já era forte ou avançou também onde a estrutura política municipal estava nas mãos de outros partidos?


O resultado permite uma constatação: a extensão territorial da votação de Ruas foi muito maior que a presença direta do PL nas prefeituras.

Explicar como isso aconteceu será outra investigação.


ERA QUASE A MESMA ELEIÇÃO?

No mesmo domingo, o eleitor escolheu governador e presidente.


Quando os vencedores das duas disputas são cruzados município por município, aparece uma associação territorial expressiva: em 86 dos 92 municípios, governador e presidente vencedores pertenciam ao mesmo campo político considerado no levantamento da TRIBUNA.


Apenas seis municípios romperam o padrão.

Em cinco — Rio de Janeiro, Três Rios, Carmo, Cardoso Moreira e Rio Claro — Paes venceu para governador enquanto Flávio Bolsonaro venceu para presidente. Em Pinheiral, ocorreu o inverso: Ruas venceu para governador e Lula para presidente.

Isso não significa que o voto presidencial tenha sido automaticamente transferido ao candidato a governador. Correlação territorial não prova causalidade.


Mas produz uma pergunta: o que fez esses seis municípios separarem Brasília do Palácio Guanabara? Talvez seja justamente nas exceções que se consiga medir melhor o peso do candidato, das lideranças locais e das circunstâncias de cada território.


E AS PERGUNTAS DO ELEITOR?

Há questões que nenhum mapa eleitoral responde.

Capacidade de investimento. Infraestrutura e logística. Emprego. Turismo. Formação profissional. Segurança pública. Equilíbrio fiscal.


As urnas mostram quem recebeu os votos. Não mostram como esses problemas serão enfrentados.

Se houver segundo turno, a pergunta pode ser dirigida igualmente aos dois candidatos. Se a eleição terminar no primeiro, passa a ser dirigida ao governador eleito: qual é a proposta, qual é a meta, qual é o prazo e de onde virá o dinheiro?

É nesse ponto que a análise eleitoral começa a se transformar em cobrança pública.


AFINAL, A ELEIÇÃO TERMINOU?

Essa resposta ainda depende da Justiça Eleitoral.

Na totalização divulgada pelo TSE, Ruas e Paes foram classificados para o segundo turno, com 49,27% e 42,76%, respectivamente.


No centro da questão estão os 274.411 votos de Anthony Garotinho, registrados como anulados sub judice. Garotinho desistiu do recurso que discutia sua candidatura, e o relator abriu prazo para manifestação da Procuradoria-Geral Eleitoral antes de decidir sobre o pedido e seus efeitos.


Se esses votos forem definitivamente excluídos da base de votos válidos e houver nova totalização, Ruas passa a aproximadamente 50,88%, alcançando maioria absoluta e podendo ser proclamado eleito no primeiro turno.


Se o quadro atual permanecer, Ruas e Paes seguem classificados para o segundo turno.

A eleição que surpreendeu as pesquisas, dividiu capital e interior e revelou uma forte correspondência entre as disputas estadual e presidencial termina, por enquanto, com mais uma pergunta.  


As urnas já mostraram o Rio.

Agora falta saber qual será, afinal, o resultado definitivo da eleição.




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