Quem vai quebrar o sistema?
O eleitor brasileiro não está trocando de lado. Está punindo quem ocupa o poder, seja quem for
Há uma leitura confortável para o resultado de domingo: o eleitor estaria insatisfeito com o governo Lula e, por isso, deu a Flávio Bolsonaro a dianteira para o segundo turno. É uma explicação simples, e talvez por isso insuficiente. Basta olhar a sequência das últimas eleições para perceber que algo mais profundo está acontecendo.
Em 2018, o país rompeu com o ciclo petista e elegeu Jair Bolsonaro, um deputado de baixo clero que se apresentou como inimigo do establishment. Quatro anos depois, Bolsonaro se tornou o primeiro presidente da Nova República a perder uma tentativa de reeleição, e Lula voltou ao Planalto. Agora, em 2026, o mesmo Lula que derrotou o incumbente termina o primeiro turno atrás, contrariando a maioria das pesquisas e as próprias expectativas.
Se o eleitor estivesse apenas oscilando entre esquerda e direita, o padrão seria de alternância ideológica. Mas o padrão real é outro: quem está no poder perde. A insatisfação não parece ser com um governo específico. Parece ser com o próprio funcionamento do sistema.
E que sistema é esse? É um arranjo em que o presidente da República, eleito com dezenas de milhões de votos, governa com as mãos cada vez mais atadas. Desde que as emendas parlamentares se tornaram impositivas, uma fatia crescente do orçamento passou a ser decidida pelo Congresso, e cada votação importante vira uma negociação de varejo. O episódio do chamado orçamento secreto mostrou até onde isso pode chegar. Governos de direita e de esquerda enfrentaram a mesma lógica: ou se paga o preço, ou não se governa.
Do outro lado da Praça dos Três Poderes, o Supremo Tribunal Federal ocupou um espaço que nenhuma outra corte constitucional em democracias comparáveis ocupa. Decisões individuais de ministros suspendem leis, políticas públicas e atos do Executivo. Inquéritos abertos pela própria Corte, como o das fake news, colocaram o tribunal na posição de vítima, investigador e julgador ao mesmo tempo. E não há, na prática, contrapeso efetivo: nenhum ministro do STF jamais sofreu impeachment, e as tentativas do Congresso de limitar decisões monocráticas esbarram na própria Corte que elas pretendem limitar.
O resultado é um presidente que depende do Congresso para governar e que precisa calibrar cada passo para não colidir com o Supremo. O eleitor percebe isso, ainda que não use essas palavras. Ele vota em alguém prometendo mudança, vê essa pessoa ser absorvida pela engrenagem, e na eleição seguinte pune o escolhido. O ciclo se repete.
É por isso que o discurso antissistema se tornou o ativo mais valioso da política brasileira. Bolsonaro o usou em 2018. Lula, em 2022, se apresentou como o restaurador da normalidade contra um governo que parecia ameaçá-la. Flávio agora herda o sobrenome e o discurso do pai, com uma diferença: conhece a engrenagem por dentro. Como senador, viu de perto como o Congresso negocia, como o orçamento é fatiado e como o Supremo reage. Isso não o condena a ser parte do sistema. Pode ser justamente o que lhe permite enfrentá-lo.
Se vencer, Flávio terá diante de si uma escolha que nenhum dos antecessores resolveu. Pode se acomodar, distribuir emendas, evitar confrontos e governar dentro dos limites que o sistema impõe, como tantos fizeram. Ou pode tentar podá-lo aos poucos, sem rupturas, usando o conhecimento de quem esteve do lado de dentro para reconfigurar a relação entre os Poderes até que o presidente eleito volte a ter condições reais de governar.
A mesma escolha estaria, em tese, diante de Lula num quarto mandato. Mas, ao longo deste governo, o presidente optou por compor com o Centrão e manteve com o Supremo uma relação mais de alinhamento do que de tensão, tratando o arranjo atual como sustentação, e não como obstáculo. Pouco indica que um novo mandato seguiria por outro caminho.
A primeira opção é o caminho mais seguro no curto prazo e o mais arriscado no longo. A segunda é lenta, cheia de resistências, e exige uma habilidade política que ainda não foi testada. Mas é a única que responde ao recado que o eleitor vem mandando há três eleições.
A pergunta, portanto, não é apenas quem vai vencer no dia 25. É quem, uma vez eleito, vai de fato quebrar o sistema. Quem não conseguir será, em quatro anos, a próxima vítima do mesmo eleitor.




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