A cadeira vazia venceu o debate
Globo cancela último encontro presidencial antes das urnas e expõe uma campanha em que nunca foi tão fácil falar ao eleitor — e ficou mais raro enfrentar o contraditório
Havia estúdio. Havia mediador. Havia candidatos já nos estúdios da Globo. E havia uma eleição presidencial a três dias das urnas.
O que não houve foi debate. A TV Globo cancelou nesta quinta-feira, 1º de outubro, o último encontro entre os candidatos à Presidência antes do primeiro turno, marcado para domingo, dia 4. Lula já havia informado que não participaria e optou por conceder entrevista ao Flow Podcast. Flávio Bolsonaro, que havia confirmado presença, desistiu no próprio dia. Enquanto isso, duas decisões judiciais modificaram aspectos importantes da organização preparada pela emissora.
A primeira, da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, impediu a Globo de exibir o púlpito vazio identificado com Lula e também vedou a simulação de perguntas dirigidas ao candidato ausente. A decisão atendeu a pedido da coligação de Lula e considerou que a dinâmica poderia prejudicar o candidato que optasse por não participar.
A segunda, do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a participação de Renan Santos, do Missão, que inicialmente não integrava a relação de convidados da emissora.
A Globo afirmou que as decisões judiciais alteraram as condições previamente estabelecidas para o encontro e geraram insegurança jurídica para sua realização. Flávio Bolsonaro, por sua vez, atribuiu sua desistência à decisão do TSE e a classificou como “censura” — uma caracterização do candidato, não do tribunal. Pouco depois, veio o cancelamento.
A ironia estava pronta. Discutiu-se quem participaria. Quem faltaria. Quem poderia entrar. Até o que aconteceria com o púlpito de quem não fosse. No fim, desapareceu o próprio debate.
NÃO FOI APENAS UMA NOITE
O episódio da Globo não surgiu isoladamente. Em setembro, o pool O Momento da Decisão cancelou seu debate presidencial diante da falta de confirmação de Lula e Flávio Bolsonaro. Já a Band realizou, em agosto, um encontro com Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury; Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema não participaram.
O resultado é maior que uma alteração na grade de televisão. É o esvaziamento do circuito de debates presidenciais. E isso acontece justamente quando há uma multiplicidade de meios para um candidato falar diretamente com milhões de eleitores.
Redes sociais, podcasts, entrevistas e transmissões próprias romperam o antigo monopólio da televisão sobre a comunicação política.
Isso ampliou as possibilidades de comunicação. Mas criou uma diferença que merece atenção: falar não é o mesmo que debater.
QUANDO O ROTEIRO NÃO PERTENCE A NINGUÉM
Nas próprias redes, uma campanha escolhe quando publicar, qual assunto abordar e como apresentar sua mensagem.
Uma entrevista introduz o questionamento do jornalista. Um podcast pode oferecer horas para desenvolver argumentos.
O debate acrescenta outra coisa: o adversário.
É ali que uma promessa pode encontrar a pergunta sobre seu custo. Um número pode ser contestado. Uma política pública pode ser confrontada por outra. Uma contradição pode aparecer sem aviso prévio.
Debates estão longe de ser perfeitos. Muitas vezes produzem mais confronto pessoal do que discussão programática.
Mas conservam uma característica importante: nenhuma campanha controla inteiramente o roteiro.
O BRASIL PRECISA DE IDEIAS, PROJETOS E LIDERANÇAS
Esse talvez seja o ponto que ultrapassa a Globo, o TSE, o STF ou qualquer candidatura.
O Brasil precisa discutir como crescer, financiar infraestrutura, melhorar educação e saúde, enfrentar o crime organizado, aumentar produtividade, reduzir desigualdades e recuperar capacidade de planejamento.
Precisa discutir prioridades.
Precisa discutir custos.
Precisa discutir execução.
E precisa conhecer as ideias de quem pretende governá-lo.
Não se trata de defender uma emissora nem de transformar o debate televisivo em ritual sagrado da democracia. A televisão mudou. A política mudou. As campanhas mudaram. A necessidade do contraditório, não.
A eleição seguirá seu curso e, no domingo, a decisão pertencerá ao eleitor. Mas a campanha de 2026 deixa uma pergunta que sobreviverá ao cancelamento desta quinta-feira: quem pretende governar o Brasil está disposto também a responder como pretende fazê-lo?
A cadeira ficou vazia. As perguntas, não.




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