O mundo não mudou. O mapa, sim
No Dia da Independência, novos mapas do IBGE ajudam a redescobrir as dimensões do planeta e convidam o Brasil a olhar novamente para o tamanho, a posição e as possibilidades de seu próprio território
Neste 7 de Setembro, o Brasil comemora sua Independência olhando novamente para o mapa. Não porque suas fronteiras tenham mudado. Nenhum continente cresceu, nenhum país encolheu e o planeta continua exatamente onde estava. O que muda é a maneira de representar, numa superfície plana, aquilo que existe sobre uma Terra curva.
O IBGE escolheu justamente o Dia da Independência para disponibilizar quatro novos mapas-múndi. Há versões centradas no Brasil e nas Américas e, entre elas, representações em que o Sul aparece na parte superior. A iniciativa brasileira ocorre no momento em que a própria Assembleia Geral das Nações Unidas voltou sua atenção para a forma como representamos o planeta, aprovando por 164 votos a favor, um contra e seis abstenções uma resolução que incentiva o uso de projeções cartográficas capazes de preservar melhor as proporções territoriais.
Parece uma discussão para cartógrafos, mas não é. Olhar novamente para o mapa significa também perguntar como aprendemos a enxergar o mundo e quanto dessa imagem influencia nossa percepção de distância, tamanho, posição e até poder.
O PROBLEMA COMEÇA COM UMA ESFERA
Há uma dificuldade que nem computadores, satélites ou inteligência artificial conseguiram eliminar: não é possível transformar perfeitamente a superfície curva da Terra numa folha plana sem produzir alguma deformação.
A experiência pode ser feita em casa. Tente retirar a casca de uma laranja e esticá-la sobre uma mesa sem rasgar, comprimir ou distorcer nenhuma parte. Não será possível.
Com a Terra acontece algo semelhante. Toda projeção cartográfica precisa fazer escolhas. Algumas preservam melhor ângulos e direções. Outras, distâncias. Outras procuram conservar as áreas relativas. Ao favorecer determinada característica, inevitavelmente sacrificam outra.
É diante desse problema que devemos olhar para uma das figuras mais importantes da história da cartografia.
MERCATOR NÃO DESENHOU O MUNDO ERRADO
Em 1569, o cartógrafo flamengo Gerardus Mercator apresentou uma solução extraordinária para um problema de seu tempo.
Sua projeção tornou-se particularmente útil para a navegação porque preserva ângulos localmente e permite representar linhas de rumo constante como retas no mapa. Para marinheiros atravessando oceanos no século XVI, isso representava um avanço extraordinário.
Seria, portanto, historicamente injusto olhar para Mercator com os recursos disponíveis quase cinco séculos depois e concluir que ele simplesmente desenhou o planeta errado.
Mercator não desenhou o mundo errado. Desenhou um mapa adequado para determinado problema.
A dificuldade surgiu quando uma ferramenta concebida principalmente para determinadas necessidades de navegação passou a ocupar escolas, escritórios e paredes como se fosse uma representação neutra das dimensões territoriais do planeta.
Porque, nesse aspecto, ela distorce bastante.
A GROENLÂNDIA NÃO É DO TAMANHO DA ÁFRICA
Quanto mais nos afastamos do Equador na projeção de Mercator, maior se torna a ampliação das áreas.
O exemplo clássico é a Groenlândia. Em muitos mapas com essa projeção, ela parece possuir tamanho comparável ao continente africano. Na realidade, a África possui aproximadamente 30 milhões de quilômetros quadrados, enquanto a Groenlândia tem pouco mais de 2 milhões.
A África é cerca de 14 vezes maior. A distorção também amplia visualmente territórios situados em altas latitudes, como Canadá e Rússia, enquanto África e América do Sul parecem proporcionalmente menores do que realmente são em relação a eles.
Nenhum território foi reduzido. Foi nossa representação visual que mudou suas proporções.
E é justamente aqui que uma questão aparentemente matemática começa a conversar com história, educação e geopolítica.
QUEM PARECE GRANDE NO MAPA?
Não há fundamento para transformar Mercator em responsável por uma conspiração destinada a engrandecer a Europa ou diminuir África e América do Sul. Sua projeção tinha finalidade técnica e precisa ser compreendida dentro do contexto em que surgiu.
Mas uma ferramenta pode produzir efeitos culturais muito depois de sua criação. Gerações aprenderam geografia olhando para um mundo no qual determinadas regiões apareciam enormes e outras, comparativamente pequenas. Isso não altera um único quilômetro quadrado de território, mas pode influenciar nossa percepção de escala.
E escala importa. Importa quando pensamos em população, recursos naturais, produção de alimentos, minerais, energia, logística, defesa, mercados, fronteiras e oceanos.
Um mapa não cria poder. Mas a maneira como enxergamos o território pode influenciar a maneira como pensamos sobre ele.
A EQUAL EARTH FAZ OUTRA ESCOLHA
A projeção Equal Earth, apresentada em 2018 pelos cartógrafos Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny, parte de outra prioridade.
Ela preserva as áreas relativas dos territórios. Isso significa que, se uma região possui o dobro da área de outra, essa relação permanece representada visualmente no mapa. Ao mesmo tempo, procura manter continentes com formas familiares ao observador.
Isso não transforma Equal Earth no “mapa verdadeiro”. Esse mapa simplesmente não existe. Toda projeção continua sendo uma escolha entre propriedades diferentes. Para algumas finalidades, Mercator e projeções derivadas continuam extremamente úteis. Para comparar o tamanho dos territórios, projeções equivalentes respondem melhor à pergunta.
A própria discussão das Nações Unidas reconhece essa diferença: não existe uma projeção universalmente perfeita para todos os usos.
Portanto, não estamos substituindo um mapa errado por outro correto. Estamos escolhendo mapas diferentes para perguntas diferentes.
E SE COLOCARMOS O BRASIL NO TAMANHO CERTO?
É aqui que a discussão ganha um significado especial neste Dia da Independência. O Brasil possui aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, faz fronteira terrestre com dez países da América do Sul e possui uma extensa fachada voltada para o Atlântico.
Nada disso mudou. O que pode mudar é nossa percepção do significado dessa escala. O território brasileiro abriga diferentes biomas, enormes reservas de água doce, grandes áreas produtoras de alimentos, recursos minerais, cidades gigantescas, florestas, sistemas energéticos e milhares de quilômetros de fronteiras terrestres e marítimas.
Administrar essa dimensão é uma vantagem e um desafio. Um país continental precisa pensar infraestrutura em escala continental. Precisa conectar áreas produtoras a centros consumidores e portos, integrar regiões distantes, administrar fronteiras, garantir energia, telecomunicações e mobilidade e construir relações econômicas com praticamente toda a América do Sul.
Ao mesmo tempo, essa dimensão oferece possibilidades igualmente extraordinárias. O tamanho de um país não determina sua grandeza. Mas determina parte das possibilidades — e das responsabilidades — que ele precisa administrar.
O BRASIL PODE FICAR NO CENTRO DO MUNDO?
Pode. Assim como qualquer outro país. Entre os novos mapas divulgados pelo IBGE há representações centradas no Brasil e outras nas Américas. Há também versões que colocam o Sul na parte superior da página.
Isso pode causar estranhamento porque estamos acostumados a ver o Norte em cima e determinadas regiões ocupando o centro do mapa.
Mas a Terra, vista do espaço, não possui “em cima” e “embaixo” no sentido político que atribuímos a uma folha de papel. Também não existe uma lei da natureza determinando qual país precisa aparecer no centro de um mapa-múndi.
Convenções cartográficas são indispensáveis. A referência de Greenwich, por exemplo, permite organizar longitudes e sistemas de localização utilizados mundialmente.
Mas uma convenção não precisa ser confundida com a própria geografia. Colocar o Brasil no centro não torna o país mais importante.
Colocar o Sul para cima não vira o planeta de cabeça para baixo. O mundo permanece no mesmo lugar. O que muda é o ponto de vista do observador.
E talvez essa seja uma das maiores contribuições pedagógicas desses novos mapas.
DA GEOGRAFIA À GEOPOLÍTICA
Quando o Brasil muda de posição no papel, algumas relações territoriais ficam mais fáceis de perceber.
A América do Sul deixa de parecer uma extremidade distante de um mundo organizado visualmente em torno do Atlântico Norte e passa a revelar outras conexões.
Surge o Atlântico Sul. Do outro lado está a África. A oeste está o Pacífico, separado do Brasil pela dimensão continental sul-americana e pela Cordilheira dos Andes.
Ao norte estão Caribe, América Central e acesso ao Hemisfério Norte. Ao sul, a ligação com Uruguai, Argentina e as rotas austrais. Essa mudança de perspectiva não altera a geopolítica.
Ajuda a enxergá-la. Ferrovias, rodovias, portos, corredores bioceânicos, rotas marítimas, produção de alimentos, energia e comércio internacional começam a aparecer não como assuntos isolados, mas como componentes de uma mesma realidade territorial.
Antes de discutir geopolítica, portanto, há uma providência elementar:
enxergar corretamente a geografia.
INDEPENDÊNCIA TAMBÉM É CONHECER O TERRITÓRIO
Em 1822, o Brasil declarou sua independência política.
Mais de dois séculos depois, continua diante de uma tarefa menos cerimonial e igualmente importante: conhecer, integrar e desenvolver plenamente o território que possui.
Não é preciso aumentar o Brasil no mapa para reconhecer sua dimensão. É preciso enxergá-lo corretamente. Isso significa conhecer suas fronteiras, cidades, rios, biomas, recursos, corredores logísticos, vocações produtivas e relações com os países vizinhos. Significa compreender que geografia não é apenas uma disciplina escolar.
Ela condiciona economia, infraestrutura, segurança alimentar, comércio exterior, defesa e desenvolvimento.
Os novos mapas não aumentam o Brasil. Não diminuem a Europa. Não corrigem uma suposta fraude de quase cinco séculos.
Fazem algo mais interessante: convidam o observador a mudar de posição e perceber que toda representação do mundo responde a determinadas escolhas.
Por isso, talvez exista um exercício particularmente apropriado para este Dia da Independência. Olhar novamente para o mapa. Não para descobrir um Brasil maior. Mas para compreender melhor o Brasil que sempre esteve ali.





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