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Calila das Mercês lança livro e celebra literatura feita no interior

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Calila das Mercês lança livro e celebra literatura feita no interior


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“Minhas primeiras escolas são os quintais: o sertão e o recôncavo baiano, duas geografias interioranas que compõem essa minha primeira relação com a literatura”, conta Calila das Mercês.

A pesquisadora, jornalista e escritora é uma das curadoras da quarta edição do Festival Literário de Paracatu, cidade mineira a 500 quilômetros de Belo Horizonte (MG). 



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Calila assina a curadoria ao lado de Sérgio Abranches e Afonso Borges, idealizador e presidente do festival.

Neste ano, o tema Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo propõe uma conversa entre dois pensadores fundamentais do Brasil profundo: Milton Santos, cujo centenário foi comemorado em maio, e João Guimarães Rosa, que apresentava ao mundo o seu Grande Sertão: Veredas, há 70 anos.



Calila fala com carinho dos livros de Guimarães Rosa. Grande Sertão ela chama de “fabuloso”. Campo Geral, de 1956, a deixou “muito emocionada”. Com Milton, ela divide o lugar, o território e o interior da Bahia.




“A gente está homenageando também meu conterrâneo, que é o Milton Santos, que marcou sua existência, no Brasil e no mundo, trazendo discussões que nos são muito caras. Sobre a questão do nosso lugar, mas também sobre como a gente pode pensar o território sem engessar”.





Paracatu (MG), 28/08/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Escritora Calila das Mercês lança o ivro Nódoa durante a Fliparacatu. Foto: Renato Parada/Divulgação


Escritora Calila das Mercês é uma das curadoras da quarta edição do Festival Literário de Paracatu. Foto: Renato Parada/Divulgação



A escritora, que já assinou eventos literários em Cachoeira (BA) e em Cavalcante (GO), celebra a realização desses encontros pelo interior do Brasil. Ao mesmo tempo, demonstra preocupação com o manejo dessas festas e com o risco de que se tornem palanques políticos, festas com “donos”, que ditariam como a literatura deve adentrar esses locais. Além disso, ela defende um olhar respeitoso sobre o que é produzido em cada um desses lugares.




“Acho que o grande desafio é a gente produzir uma ideia de que o pensamento não chega de fora. Ele não, necessariamente, chega dos grandes centros. Eu acho que Paracatu é um lugar que produz pensamento, que tem trazido consigo também uma identidade, um jeito muito daqui de fazer acontecer”.




Para ela, o festival consegue criar as condições de integrar pessoas e promover conversas surpreendentes, com pessoas de diferentes sotaques, respeitando a literatura produzida na cidade. Entre os nomes que passam por Paracatu este ano estão Mia Couto, Alê Santos, Bruna Lombardi, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Jeovanna Vieira, Paulliny Tort e Renato Nogueira.



Às margens do São Francisco



Calila, que já publicou livros de poesias e de contos, lançou em julho Nódoa, seu primeiro romance, pela Companhia das Letras. Ela conta que ainda está aprendendo a falar sobre o livro, que foi todo escrito em movimento. Um movimento que é feito sem que ela deixe de carregar suas referências.




“Eu escrevi dentro do ônibus, eu escrevi em uma rodoviária, escrevi no barulho, escrevi com mudança. Mudanças necessárias, mudanças de casa. Condições mais precárias, condições mais tranquilas. É um livro sobre movimento e eu escrevo tudo me movendo”, lembra.




Nesse movimento, Calila foi quatro vezes ao rio São Francisco e foi ver o maior cajueiro do mundo. Segundo ela, o objetivo foi se conectar com os pedaços de natureza e também de urbanidade. 



Nesse contato com a natureza, viu sua escrita germinar, com toda a criatividade e a radicalidade que seus textos exigem. 



Livro



O livro Nódoa é narrado por Regina e por Lurdes Maria. As muitas mulheres do livro estão em constante movimento sem, entretanto, se perderem umas das outras.



O livro também é pensado na forma, na materialidade da escrita, em maiúsculas e minúsculas. Os recursos são usados para traduzir cada personagem: a que não sabe nem ler nem escrever; a que só fala baixinho, com vergonha; a artista plástica.



“Eu queria usar o papel e também essa parte da editoração, da parte gráfica, para elucidar esse trabalho das maiúsculas e minúsculas, de quem fala em terceira pessoa, de quem fala abaixo, de quem só tem a oralidade como fonte de comunicação e o gesto e o corpo e os silêncios. Então, uso muito silêncio nas páginas”.



O livro, continua Calila, foi todo feito pensando na força das outras linguagens. As palavras formam desenhos. Há um trabalho sensorial e de oralidade que entrega ao leitor outras formas de ver e ler a obra. E que deixam marcas, que deixam nódoas.




“Às vezes a nódoa lembra a gente de um suco que caiu na roupa, um suco que alguém que a gente ama fez. Às vezes uma mancha de dendê que não saiu, mas que foi de um caruru, aquela avó que nem está ali mais. Então, eu acho que as nódoas também mancham, e deixam marcas que ficam e que são importantes”.




Sobre o festival:



4º Festival Literário Internacional de Paracatu (Fliparacatu)

De 26 a 30 de agosto de 2026

Local: Centro Histórico de Paracatu

Entrada gratuita




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