Sanitários urbanos podem integrar mobilidade, turismo, segurança e apoio a trabalhadores — e modelos internacionais mostram que boa parte dessa estrutura pode ser financiada por concessões, publicidade e parcerias privadas
Uma tarde de compras no Centro do Rio pode terminar antes da hora por um motivo aparentemente pequeno, mas que diz muito sobre a qualidade de uma cidade: a dificuldade de encontrar um sanitário limpo, seguro e acessível.
A situação é conhecida por quem frequenta áreas de comércio intenso como o Saara. De repente surge uma necessidade fisiológica e começa uma verdadeira procura. Nem todos os bares e restaurantes permitem a utilização de seus banheiros por quem não é cliente. Pequenos estabelecimentos muitas vezes nem possuem instalações adequadas para receber o público. Shoppings acabam sendo a alternativa mais segura, quando existem por perto.
Para uma cidade que pretende ampliar o turismo, recuperar a vitalidade de suas ruas e estimular a permanência das pessoas nos centros comerciais, a questão merece ser vista por outro ângulo.
Não se trata apenas de instalar banheiros. Trata-se de hospitalidade urbana.
UMA NECESSIDADE QUE INTERFERE NA CIDADE
Idosos, crianças, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida sentem o problema de maneira ainda mais intensa. O mesmo acontece com milhares de profissionais cuja jornada acontece essencialmente nas ruas: motoristas de ônibus, taxistas, trabalhadores de aplicativos, entregadores, agentes públicos, vendedores e prestadores de serviços.
Uma pessoa que precisa urgentemente de um sanitário não permanece fazendo compras, não continua um passeio turístico e não prolonga uma caminhada pelo Centro. Ela procura uma solução e, frequentemente, vai embora. A disponibilidade de sanitários, portanto, influencia também o comércio.
O próprio planejamento urbano de Londres reconhece essa relação. O London Plan considera os sanitários públicos uma infraestrutura importante para moradores e visitantes e registra que sua existência pode aumentar a circulação de consumidores e o tempo de permanência das pessoas nos espaços urbanos. Grandes empreendimentos abertos ao público devem assegurar instalações sanitárias gratuitas e sua manutenção futura.
É uma mudança importante de perspectiva. O sanitário deixa de ser encarado exclusivamente como despesa de limpeza pública e passa a ser entendido como parte da infraestrutura necessária para uma cidade funcionar.
O EXTERIOR JÁ EXPERIMENTA DIFERENTES MODELOS
Não existe uma única fórmula. Zurique mantém uma rede municipal de sanitários distribuídos pela cidade, enquanto Londres combina instalações públicas com sanitários localizados em prédios e estabelecimentos privados participantes de programas comunitários.
Em outras cidades europeias, instalações automatizadas convivem com modelos pagos, concessões privadas e equipamentos integrados a estações ferroviárias, terminais e centros comerciais.
Na Alemanha, por exemplo, redes privadas de sanitários em áreas de serviço e estações utilizam cobrança pelo uso combinada com vouchers que retornam ao consumidor como crédito em estabelecimentos participantes. O modelo ajuda a financiar limpeza e manutenção e, ao mesmo tempo, devolve circulação ao comércio.
O princípio é simples: quem planeja a circulação de milhões de pessoas precisa planejar também suas necessidades básicas. O Rio pode aprender com essas experiências sem copiá-las mecanicamente.
O RIO JÁ POSSUI BASE LEGAL
A ideia tampouco começa do zero do ponto de vista jurídico. Desde 1988 está em vigor no Município do Rio de Janeiro a Lei nº 1.233, que autoriza o Poder Executivo a instalar e administrar banheiros públicos em áreas consideradas prioritárias.
Outra legislação municipal posterior tratou da instalação de sanitários em praças públicas. Mais recentemente, a legislação municipal também passou a prever sistemas de emergência em banheiros públicos e de uso coletivo adaptados para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.
Isso demonstra que o ordenamento municipal já reconhece sanitários públicos como equipamentos integrantes da cidade. O desafio é avançar de normas isoladas para um sistema planejado de atendimento urbano.
Projetos em discussão no Legislativo municipal também têm abordado tanto a ampliação do acesso a banheiros quanto espaços de apoio para trabalhadores de aplicativos. Se necessário, essas iniciativas podem receber aperfeiçoamentos capazes de permitir estruturas multifuncionais, reunindo diferentes serviços num mesmo equipamento.
A legislação, portanto, não precisa ser vista como barreira. Pode ser justamente o caminho para a inovação.
E SE O BANHEIRO VIRASSE UMA ESTAÇÃO URBANA?
Uma solução contemporânea poderia começar pelo sanitário e agregar outros serviços. Em pontos de grande circulação poderiam ser implantadas Estações Urbanas de Serviços: estruturas compactas, bem iluminadas e permanentemente mantidas, integradas à paisagem urbana.
Além de sanitários masculinos, femininos, familiares e acessíveis, essas estações poderiam oferecer bebedouros, carregamento de celulares, assentos, cobertura contra sol e chuva, bicicletários, informações sobre transportes e atrações da região.
Uma marquise anexa poderia servir de ponto de apoio para entregadores e trabalhadores de aplicativos, que hoje frequentemente aguardam chamadas sentados em calçadas ou expostos ao sol e à chuva.
Empresas de entrega, mobilidade, telecomunicações, bancos, fabricantes de bebidas e outras marcas interessadas na circulação urbana poderiam participar do financiamento das instalações dentro de modelos transparentes de patrocínio, publicidade ou concessão.
A estação deixaria de atender um único problema e passaria a funcionar como um pequeno polo de serviços.
MAIS MOVIMENTO TAMBÉM PODE SIGNIFICAR MAIS SEGURANÇA
Outro componente pode ser incorporado: segurança. O próprio Rio já demonstra que mobiliário urbano e tecnologia de segurança podem caminhar juntos.
Na concessão de mobiliário urbano lançada pelo Município em 2024, envolvendo abrigos de ônibus, relógios, estações de bicicletas e instalações do BRT, foi prevista a implantação de câmeras e botões de emergência em parte dos novos abrigos.
Quando acionado, o sistema permite que uma central verifique as imagens e, quando necessário, acione as forças de segurança. A mesma lógica poderia ser incorporada às estações de serviços.
Não seria necessário transformar cada unidade em um posto policial. Algumas poderiam possuir apenas videomonitoramento, botão de emergência e comunicação com centros operacionais. Em locais estratégicos, acordos institucionais poderiam permitir módulos de apoio para a Guarda Municipal e, mediante cooperação com o Governo do Estado, para forças estaduais de segurança.
O resultado seria um equipamento utilizado permanentemente por comerciantes, consumidores, turistas, entregadores, motoristas e agentes públicos.
Movimento, iluminação e utilização contínua ajudam a reduzir a sensação de abandono do espaço urbano.
QUEM PAGARIA ESSA CONTA?
Essa é provavelmente a pergunta mais importante.
Uma política moderna de sanitários urbanos não precisa significar simplesmente aumentar despesas do orçamento municipal.
O próprio Rio já utiliza concessões de mobiliário urbano financiadas pela exploração publicitária. Esse mecanismo pode inspirar novas soluções.
Uma rede de estações urbanas poderia combinar receitas provenientes de publicidade, patrocínios, concessões comerciais, exploração de pequenos serviços e, em determinadas instalações, cobrança módica pelo uso.
Uma unidade com 500 utilizações diárias e tarifa de R$ 3 movimentaria R$ 45 mil brutos por mês. Com mil utilizações diárias, chegaria a R$ 90 mil. Esses valores não representam lucro: limpeza frequente, funcionários, água, energia, conservação, segurança e reposição possuem custos relevantes. Mas demonstram que existe uma equação econômica a ser estudada.
Em áreas de maior circulação, determinadas unidades poderiam gerar receitas suficientes para ajudar a financiar instalações localizadas onde o retorno comercial fosse menor, mas o interesse público maior.
É o princípio do subsídio cruzado aplicado à hospitalidade urbana. Outra alternativa seria devolver parte da tarifa na forma de voucher para utilização em estabelecimentos parceiros da região. Dessa maneira, o próprio sanitário poderia estimular circulação econômica no comércio ao redor.
Empresas de mobilidade e entrega também teriam razões objetivas para participar desse modelo, especialmente em estações equipadas com marquises, áreas de descanso, carregamento de celulares, água e apoio aos profissionais que permanecem horas nas ruas.
O equipamento deixa, assim, de ser apenas um custo de manutenção e passa a ter diferentes possibilidades de geração de receita, contrapartidas privadas e benefícios econômicos indiretos.
UM PROJETO-PILOTO NO CENTRO — E DEPOIS EM OUTROS POLOS
O Centro parece um território natural para experimentar o modelo. Saara, Uruguaiana, Largo da Carioca, Praça Tiradentes, Cinelândia, Praça XV, Central do Brasil e Boulevard Olímpico concentram trabalhadores, moradores, consumidores e visitantes durante diferentes períodos do dia.
Em vez de espalhar equipamentos aleatoriamente, seria possível mapear os fluxos de pedestres, estações de transporte, atrações turísticas, centros comerciais e sanitários já disponíveis.
Os vazios apareceriam rapidamente. A partir desse levantamento, uma primeira rede poderia ser implantada por concessão ou parceria e avaliada por indicadores simples: número de usuários, custo de operação, disponibilidade, satisfação, ocorrências de segurança e impacto sobre estabelecimentos próximos.
Com o modelo testado, a expansão poderia seguir para outros grandes polos de circulação da cidade, como o Mercadão de Madureira e seu entorno, os eixos comerciais de Campo Grande, Méier, Tijuca, Bangu, Copacabana, Ipanema e Barra da Tijuca, além de terminais de transporte, parques, áreas de eventos e regiões de forte atração turística.
Também faria sentido priorizar lugares onde diferentes fluxos se encontram: comércio popular, estações ferroviárias, terminais rodoviários, hospitais, mercados, centros esportivos e áreas de lazer.
O critério não deveria ser apenas geográfico, mas funcional: onde muita gente permanece, trabalha, espera, compra ou circula durante horas, existe demanda por infraestrutura de apoio.
Uma política urbana inteligente não precisa começar grande. Precisa começar bem — e nascer preparada para se espalhar pela cidade.
HOSPITALIDADE TAMBÉM É INFRAESTRUTURA
O Rio possui atributos que poucas cidades do mundo conseguem reunir. Paisagem, cultura, gastronomia, comércio, patrimônio histórico, grandes eventos e vida nas ruas fazem parte de sua identidade.
Mas receber bem também depende das pequenas coisas. Uma cidade que deseja pessoas caminhando por suas ruas precisa oferecer locais para sentar. Se quer trabalhadores circulando durante todo o dia, precisa permitir que bebam água. Se pretende ampliar sua população turística, precisa oferecer informações, segurança e condições elementares de conforto.
E se quer que moradores e visitantes permaneçam durante horas em seus centros comerciais e espaços públicos, precisa permitir que encontrem um sanitário limpo quando precisarem.
A discussão, portanto, é maior do que banheiros.
O Rio já possui legislação, experiência em concessões de mobiliário urbano, tecnologia de segurança, grandes empresas interessadas na mobilidade da cidade e áreas comerciais que necessitam de infraestrutura de apoio.
As peças já existem.
Falta juntá-las.




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