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O Brasil desconhecido

Territórios que podem mostrar a potência do país

Editorial Tribuna da Imprensa
O Brasil desconhecido

A PERGUNTA QUE MERECE SER FEITA

Quem percorre a estrada entre Maricá e Armação dos Búzios dificilmente imagina que está atravessando um dos territórios mais completos do Brasil. Em poucas dezenas de quilômetros, a paisagem muda várias vezes. Praias dão lugar a lagoas. Restingas se alternam com áreas preservadas de Mata Atlântica. Pequenas propriedades rurais convivem com cidades em expansão e alguns dos destinos turísticos mais conhecidos do país. Tudo parece fazer parte de um mesmo cenário. E, de certa forma, faz.

À primeira vista, são apenas municípios vizinhos. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que existe algo maior. As lagoas não terminam nas divisas municipais. O turismo também não. A agricultura abastece mercados muito além de onde é produzida. Trabalhadores circulam diariamente entre cidades. Pesquisadores estudam ecossistemas compartilhados. A natureza, afinal, nunca desenhou linhas sobre os mapas.

Talvez nós tenhamos desenhado linhas demais. Durante muito tempo, olhamos para o desenvolvimento a partir dos limites de cada município. Cada cidade faz seu planejamento, define suas prioridades, busca investimentos e enfrenta seus próprios desafios. Essa organização é necessária. Mas a economia segue outra lógica. As cadeias produtivas atravessam fronteiras todos os dias.

O visitante que escolhe Búzios costuma passar também por Cabo Frio, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia, Iguaba Grande, Araruama ou Saquarema. O produtor rural de Tanguá abastece consumidores que muitas vezes nem sabem de onde vêm os alimentos que chegam à mesa. A Lagoa de Araruama pertence à geografia, não à burocracia. A vida sempre foi mais integrada do que sugerem os mapas oficiais.

Foi dessa percepção que nasceu a pergunta que orienta esta reportagem. Será que ainda estamos olhando para este território da maneira correta?

Nos últimos anos, algumas pessoas passaram a chamar esse conjunto de municípios de Toscana Tropical Brasileira. A expressão não pretende comparar o litoral fluminense à famosa região italiana nem sugerir que exista um modelo pronto a ser copiado. Ela serve como um convite à reflexão. Assim como a Toscana se tornou uma referência ao integrar paisagem, agricultura, cultura, gastronomia e turismo, este trecho do litoral do Rio de Janeiro também reúne atributos naturais, econômicos e culturais que merecem ser observados como parte de um mesmo território.

Sua maior riqueza não está apenas na beleza das praias, na extensão das lagoas, na força do turismo ou na fertilidade das terras, mas sim, na possibilidade de conectar tudo isso. O pescador que sai antes do amanhecer na Lagoa de Araruama, o agricultor que cultiva cítricos em Tanguá, o empresário que recebe visitantes em Búzios, o surfista que vive do mar em Saquarema, o pesquisador que estuda a Mata Atlântica em Silva Jardim e o empreendedor que investe em Maricá parecem viver realidades diferentes. No entanto, todos fazem parte da mesma paisagem econômica.

O mundo oferece bons exemplos de como essa integração pode transformar um território. A Toscana italiana, o Alentejo português, Napa Valley, na Califórnia, e a Costa do Sol, na Espanha, seguiram caminhos diferentes e respeitaram suas próprias histórias. Nenhuma tentou copiar a outra. Todas, porém, entenderam que desenvolvimento não nasce apenas de investimentos ou grandes obras. Nasce também da capacidade de reconhecer uma identidade comum e organizar talentos que já existem.

Não sabemos se a Toscana Tropical Brasileira seguirá um caminho parecido. Nem essa é a pergunta mais importante. A questão é outra: será que estamos aproveitando tudo o que esse território tem para oferecer?

É justamente essa investigação que a TRIBUNA DA IMPRENSA começa hoje. Não para apresentar respostas definitivas. Nem para defender um projeto específico. O objetivo é olhar este território com mais calma, entender suas vocações, compará-lo com experiências bem-sucedidas ao redor do mundo e ouvir quem vive, trabalha, empreende e produz riqueza todos os dias nesta região.

Toda região que prosperou começou por reconhecer sua própria identidade. Depois descobriu suas vocações. Em seguida aprendeu a organizar seus talentos. Talvez seja por aí que também que se deva começar.

QUANDO A NATUREZA ESCREVE O PRIMEIRO CAPÍTULO

Antes que existissem municípios, estradas, hotéis ou planos diretores, esse território já possuía uma identidade. As lagoas moldavam a vida das comunidades. As restingas protegiam o litoral. Os ventos orientavam a navegação. O solo indicava o que podia ser cultivado. A natureza escrevia, silenciosamente, o primeiro capítulo da economia regional.

Essa é uma das primeiras lições que um território ensina. O desenvolvimento não começa quando chega uma grande empresa nem quando um governo inaugura uma obra importante. Ele começa muito antes, quando a geografia oferece oportunidades e as pessoas aprendem a conviver com elas.

É por isso que toda região bem-sucedida do mundo costuma guardar uma relação profunda com sua própria paisagem. A Toscana não nasceu por causa do vinho. O vinho nasceu porque aquele território reunia condições naturais favoráveis e porque, durante séculos, diferentes gerações aprenderam a cultivá-lo. O mesmo vale para o azeite, os queijos, a gastronomia e a própria arquitetura rural que hoje encantam milhões de visitantes.

O Alentejo seguiu um caminho semelhante. Napa Valley também. Em todos esses lugares, a natureza ofereceu possibilidades. Coube às pessoas transformá-las em cultura, trabalho e prosperidade.

No litoral compreendido entre Maricá e Búzios, essa história ainda está sendo escrita.

Poucas regiões brasileiras concentram uma diversidade tão grande de ambientes naturais em uma área relativamente pequena. O oceano convive com um dos mais importantes sistemas lagunares do país. A Mata Atlântica divide espaço com restingas, áreas agrícolas e centros urbanos. O clima favorece diferentes atividades econômicas ao longo de praticamente todo o ano. A proximidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro aproxima produtores de um mercado consumidor formado por milhões de pessoas.

Essas características, vistas isoladamente, já chamam atenção. Observadas em conjunto, revelam algo ainda mais importante: um território capaz de desenvolver múltiplas vocações ao mesmo tempo.

É justamente aí que mora uma diferença importante entre crescimento e desenvolvimento. Crescer pode significar ampliar uma atividade econômica específica. Desenvolver-se é conseguir fazer com que diferentes atividades caminhem na mesma direção.

A pesca fortalece a gastronomia. A gastronomia valoriza a agricultura. A agricultura abastece hotéis e restaurantes. O turismo impulsiona o comércio. A preservação ambiental protege justamente aquilo que torna a região atraente.

Quando essas conexões aparecem, o território deixa de ser apenas um conjunto de atividades econômicas. Passa a funcionar como um ecossistema, e todo ecossistema possui um DNA. Esse DNA é formado por três elementos que caminham juntos. O primeiro são as vocações naturais. Clima, solo, água, biodiversidade, localização e paisagem indicam aquilo que a natureza oferece como oportunidade.

O segundo são os hábitos culturais. Eles revelam como diferentes gerações aprenderam a produzir, cozinhar, pescar, cultivar, construir, receber visitantes e viver naquele lugar. Cultura não é apenas memória. É também um ativo econômico.

O terceiro elemento é o reconhecimento dessa identidade. Em diversas partes do mundo, ele aparece por meio das Indicações Geográficas, que protegem produtos tradicionais e ajudam a transformar reputação em valor econômico. Mais do que um selo de origem, elas representam o reconhecimento de que existe uma relação única entre um produto, um território e uma comunidade.

Quando vocações naturais, hábitos culturais e identidade caminham juntos, surge uma referência capaz de orientar todo o restante. Infraestrutura. Educação. Inovação. Turismo. Industrialização. Crédito. Nada disso perde importância.

Mas tudo passa a fazer mais sentido quando nasce de uma identidade já reconhecida pelo próprio território. Esse é um dos maiores desafios brasileiros. Durante muito tempo, discutimos desenvolvimento perguntando quais empresas deveríamos atrair, quais obras deveríamos construir ou quais incentivos fiscais deveríamos conceder.

São perguntas importantes. Mas existe uma pergunta anterior. Quem somos?

A resposta nunca estará apenas nos gabinetes. Ela costuma estar espalhada pelos mercados municipais, pelas pequenas propriedades rurais, pelos barcos de pesca, pelas cozinhas, pelas festas populares, pelas cooperativas, pelas universidades e pelas pessoas que, muitas vezes sem perceber, preservam há décadas uma forma muito particular de viver e produzir.

É exatamente essa identidade que começa a revelar o verdadeiro potencial da Toscana Tropical Brasileira. Porque nenhum território se torna extraordinário tentando parecer outro. Os territórios que prosperam são aqueles que aprendem a reconhecer o valor daquilo que sempre foram.

O QUE O MUNDO PODE NOS ENSINAR

Viajar pela Toscana é descobrir que sua maior riqueza não está apenas nas colinas cobertas por vinhedos, nas pequenas cidades medievais ou nas paisagens que atraem milhões de visitantes todos os anos. O que realmente impressiona é a maneira como tudo parece conversar entre si.

A agricultura fortalece a gastronomia. A gastronomia impulsiona o turismo. O turismo ajuda a preservar o patrimônio histórico. O patrimônio reforça a identidade cultural. Nada funciona isoladamente. Cada atividade amplia o valor da outra, formando um círculo virtuoso que atravessou gerações e transformou aquele território em uma das regiões mais admiradas da Europa.

O Alentejo português percorreu caminho semelhante. Napa Valley, na Califórnia, também. A Costa do Sol, na Espanha, compreendeu que praias bonitas, por si só, não garantiriam prosperidade permanente. Em todos esses lugares, o desenvolvimento começou quando o território deixou de ser apenas um espaço geográfico e passou a ser entendido como uma marca.

Essa talvez seja a principal lição que essas regiões oferecem ao Brasil. Os territórios mais bem-sucedidos não tentam fazer tudo. Eles descobrem aquilo que fazem melhor, organizam suas vocações, fortalecem sua identidade e constroem uma reputação capaz de atravessar décadas. O resultado aparece na economia, mas começa muito antes dela.

Quando alguém compra um vinho da Toscana, um azeite do Alentejo, um queijo Parmigiano Reggiano ou um espumante de Champagne, leva para casa muito mais do que um produto. Leva uma história, uma paisagem, um modo de produzir e uma reputação construída ao longo do tempo. O valor está na qualidade, naturalmente, mas também na origem. É exatamente por isso que esses nomes passaram a ser protegidos por sistemas de Indicação Geográfica, transformando identidade em ativo econômico.

O Brasil começou a percorrer esse mesmo caminho. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, já reconhece dezenas de Indicações Geográficas distribuídas pelo país. Cafés, vinhos, queijos, mel, frutas, cachaças, artesanato e tantos outros produtos passaram a carregar oficialmente o nome do território onde nasceram. Não é apenas um selo. É o reconhecimento de que existe uma relação única entre um lugar, uma comunidade e um modo de produzir que não pode ser reproduzido em qualquer parte do mundo.

Essa lógica ajuda a compreender a força da Toscana Tropical Brasileira. A laranja de Tanguá não representa apenas uma importante atividade agrícola. Ela traduz décadas de conhecimento acumulado por produtores que aprenderam a conviver com o clima, o solo e as características da região. O açaí da palmeira-juçara, considerada por muitos a princesa da Mata Atlântica, aponta para um caminho ainda mais interessante: produzir riqueza preservando a floresta que lhe dá origem. O camarão de Cabo Frio, por sua vez, integra a identidade gastronômica do litoral e demonstra como natureza, tradição e economia podem caminhar na mesma direção.

São exemplos que ajudam a compreender uma ideia simples. Os territórios também possuem patrimônio invisível. No mercado financeiro existe uma expressão bastante conhecida para definir ativos que não aparecem fisicamente em um balanço patrimonial: goodwill. É o valor da reputação, da marca, da confiança construída ao longo do tempo. Empresas são compradas, muitas vezes, por esse patrimônio intangível.

Com os territórios acontece exatamente a mesma coisa. Uma região constrói seu goodwill quando seus produtos passam a ser reconhecidos pela origem, quando sua paisagem desperta admiração, quando sua gastronomia ganha identidade própria, quando sua cultura fortalece o turismo e quando seus moradores desenvolvem um sentimento genuíno de pertencimento. É um patrimônio que não pode ser medido apenas em hectares, edifícios ou quilômetros de rodovia. Ainda assim, costuma ser um dos ativos econômicos mais valiosos de uma região.

É justamente aí que a Lagoa de Araruama merece um novo olhar. Poucos lugares no Brasil reúnem um ecossistema tão singular. Compartilhada por cinco municípios, a lagoa guarda características ambientais únicas, uma rica biodiversidade adaptada às suas águas hipersalinas, uma história ligada às salinas e uma paisagem que impressiona em qualquer época do ano. Em vez de ser vista apenas como um recurso natural ou um cenário turístico, ela pode se consolidar como um dos grandes símbolos de pertencimento da região.

Em várias partes do mundo, áreas semelhantes transformaram-se em verdadeiros santuários ecológicos, atraindo pesquisadores, observadores de aves, fotógrafos da natureza, estudantes e visitantes interessados em experiências ligadas à conservação ambiental. Esse turismo de contemplação movimenta hotéis, restaurantes, guias especializados, centros de pesquisa e atividades de educação ambiental, distribuindo renda ao longo de todo o ano e valorizando justamente aquilo que faz aquele lugar ser único.

A Lagoa de Araruama reúne todas as condições para ocupar esse espaço. Quanto mais preservado estiver esse patrimônio, maior tende a ser seu valor científico, cultural, turístico e econômico. Preservação e desenvolvimento deixam de caminhar em sentidos opostos. Passam a fazer parte da mesma estratégia.

Essa é, talvez, a maior lição que os territórios mais admirados do mundo oferecem. Eles não prosperaram porque descobriram riquezas escondidas. Prosperaram porque aprenderam a reconhecer o valor daquelas que sempre estiveram diante de seus olhos.

E é exatamente nesse ponto que a Toscana Tropical Brasileira começa a revelar sua verdadeira força.

O TERRITÓRIO REAL

Depois de percorrer as paisagens da Toscana Tropical Brasileira e compreender como outras regiões do mundo transformaram identidade em prosperidade, chega o momento de voltar os pés ao chão. Todo território possui potencialidades extraordinárias. Também convive com limitações que não desaparecem por decreto nem se resolvem com discursos. O desenvolvimento começa quando ambos passam a ser encarados com honestidade intelectual.

A Costa do Sol, que tecnicamente vai de Maricá à Macaé, reúne condições raras para se consolidar como um dos mais importantes ecossistemas produtivos do país. Poucas regiões brasileiras concentram, em um mesmo espaço, praias reconhecidas internacionalmente, um dos maiores sistemas lagunares da América Latina, agricultura diversificada, pesca, biodiversidade, patrimônio histórico, universidades, centros de pesquisa e proximidade com um mercado consumidor formado por milhões de pessoas. Esses ativos existem. São reais. Mas, sozinhos, não produzem prosperidade.

Existe uma diferença importante entre um território rico e um território organizado. O primeiro possui recursos. O segundo faz esses recursos trabalharem em conjunto. É exatamente nessa fronteira que se encontra o maior desafio da região.

A educação é um bom exemplo. Não basta ampliar vagas ou melhorar indicadores. Um território competitivo precisa formar pessoas preparadas para suas próprias vocações. Escolas técnicas, universidades, institutos federais e centros de pesquisa devem dialogar com a agricultura, a economia do mar, o turismo, a gastronomia, a biotecnologia, a logística, a indústria criativa e a gestão ambiental. Quando o conhecimento deixa de caminhar separado da produção, surgem inovação, produtividade e oportunidades para que os jovens construam seu futuro sem precisar abandonar a região.

O mesmo raciocínio vale para a segurança pública. Durante muito tempo, esse tema foi tratado apenas como um problema policial. Hoje ele precisa ser compreendido também como uma variável econômica. A expansão do narcotráfico, os roubos a residências, a violência doméstica e a sensação de insegurança alteram profundamente a dinâmica de um território. Afetam o turismo, afastam investimentos, elevam custos operacionais, desvalorizam imóveis e reduzem a qualidade de vida. Não existe ambiente competitivo onde o medo se torna parte da rotina.

Infraestrutura também precisa ser observada sob uma nova perspectiva. Durante décadas, o Brasil mediu seu desenvolvimento pela quantidade de obras executadas. Essa lógica é insuficiente. A questão central deixou de ser construir equipamentos isolados. O desafio é integrá-los. Uma rodovia vale mais quando conecta polos produtivos.

Uma ferrovia vale mais quando aproxima agricultores, indústrias, centros logísticos e portos. Um aeroporto vale mais quando fortalece cadeias econômicas inteiras. A mesma lógica se aplica ao futuro corredor ferroviário da Costa do Sol. Mais do que transportar passageiros ou cargas, ele poderá organizar um território, reduzir distâncias econômicas, integrar municípios e estimular novas oportunidades de investimento ao longo de seu percurso.

O mesmo vale para a Lagoa de Araruama. Sua preservação não representa apenas um compromisso ambiental. Representa uma estratégia de desenvolvimento. Em diversas partes do mundo, áreas naturais semelhantes transformaram-se em centros de pesquisa, educação ambiental, turismo de contemplação e observação da fauna, fotografia de natureza e valorização imobiliária qualificada. Quanto maior a qualidade ambiental, maior tende a ser seu valor econômico. Preservar deixa de significar impedir o desenvolvimento. Passa a significar qualificá-lo.

Há ainda um desafio menos visível, mas provavelmente o mais importante de todos: a coordenação. O território já possui empresários, produtores rurais, pescadores, universidades, associações comerciais, cooperativas, pesquisadores e gestores públicos. O que ainda falta é transformar essa diversidade em inteligência coletiva. Os territórios que prosperam não são aqueles que concentram os melhores ativos. São aqueles que conseguem coordená-los em torno de uma visão comum de futuro.

É nesse ponto que o mercado de capitais deixa de ser um assunto restrito ao sistema financeiro e passa a integrar a agenda do desenvolvimento regional. O Brasil dispõe de instrumentos capazes de financiar projetos estruturantes, desde operações de crédito e fundos de investimento até debêntures, sociedades de propósito específico e parcerias de longo prazo. O problema raramente está na inexistência desses mecanismos. Está na dificuldade de transformar boas ideias em projetos financiáveis, com governança, segurança jurídica, previsibilidade de receitas e capacidade de execução. O capital não procura apenas oportunidades. Procura confiança.

Essa é uma diferença decisiva. Não basta afirmar que um território possui potencial. É preciso demonstrar que ele sabe organizar esse potencial. Investidores não aplicam recursos em promessas. Investem em projetos consistentes, conduzidos por instituições confiáveis e sustentados por uma estratégia de longo prazo.

O desenvolvimento da Toscana Tropical Brasileira não depende de uma única obra, de um único governo ou de um grande investidor. Depende da capacidade de conectar ativos que hoje permanecem dispersos. Quando educação conversa com produção, quando ciência conversa com empresas, quando preservação conversa com turismo, quando infraestrutura conversa com logística e quando o mercado de capitais encontra projetos bem estruturados, o território deixa de ser apenas promissor. Passa a construir prosperidade de forma consistente.

Essa transformação não exige começar do zero. Ela exige organização. E é justamente essa diferença que separa territórios que crescem daqueles que deixam um legado.

UM TERRITÓRIO ORGANIZADO NÃO NASCE POR ACASO

Ao longo desta reportagem percorremos uma região que muitos brasileiros aprenderam a admirar pela beleza de suas paisagens. Descobrimos praias, lagoas, montanhas, sítios históricos, agricultura, pesca, gastronomia, biodiversidade e tradições que sobreviveram ao tempo. Mas também encontramos algo menos visível: um conjunto de ativos que, embora extraordinários, ainda permanecem dispersos.

Essa talvez seja a principal diferença entre potencial e prosperidade. Nenhum território se desenvolve apenas porque possui riquezas naturais. Nenhuma região prospera apenas porque atrai turistas ou produz bons alimentos. A verdadeira transformação acontece quando seus diferentes ativos deixam de competir entre si e passam a funcionar como partes de um mesmo sistema.

É exatamente nesse ponto que a Toscana Tropical Brasileira pode representar mais do que um recorte geográfico. Ela pode tornar-se um laboratório nacional de desenvolvimento territorial, demonstrando que conhecimento, ciência, produção, preservação ambiental, mercado, logística e financiamento podem caminhar na mesma direção sem que um precise substituir o outro.

Esse é um caminho que começa pela origem. Toda cadeia produtiva sólida depende de confiança. E confiança nasce da qualidade das sementes, das mudas, das matrizes, dos alevinos, da assistência técnica, da pesquisa, da rastreabilidade e do compromisso compartilhado entre todos os participantes. O desenvolvimento sustentável não começa na prateleira do supermercado. Começa muito antes, quando se organiza a base biológica e institucional que sustentará toda a cadeia de valor.

É justamente por isso que experiências de coordenação territorial ganham relevância. Um centro tecnológico capaz de reunir pesquisa aplicada, produção de material propagativo, capacitação, assistência técnica e integração entre produtores não representa apenas uma nova estrutura física. Representa uma nova forma de organizar o desenvolvimento. Em vez de substituir agricultores, cooperativas, universidades ou empresas, fortalece cada um deles dentro de um propósito comum.

A partir dessa base, produtores organizados podem agregar escala sem perder identidade. Agroindústrias podem trabalhar com matéria-prima rastreável. Marcas regionais podem comunicar origem e qualidade. Consumidores passam a reconhecer valor onde antes enxergavam apenas mais um produto. E investidores encontram projetos estruturados, governança e previsibilidade para alocar capital de longo prazo.

Percebe-se, então, que o maior patrimônio de um território não está apenas em suas terras, em suas máquinas ou em sua infraestrutura. Está na capacidade de seus habitantes, instituições e empresas trabalharem de forma coordenada, transparente e comprometida com objetivos comuns.

Essa talvez seja a principal lição da Toscana Tropical Brasileira. Durante décadas, acostumamo-nos a discutir desenvolvimento olhando separadamente para agricultura, turismo, indústria, infraestrutura, educação, meio ambiente ou mercado financeiro. A realidade demonstra que nenhum desses elementos produz, isoladamente, a transformação que o Brasil espera. A prosperidade nasce quando eles deixam de ser políticas paralelas e passam a constituir um ecossistema.

Essa é, também, a missão do jornalismo econômico territorial. Não apenas registrar acontecimentos, mas compreender como os territórios funcionam, revelar suas vocações, identificar seus desafios e aproximar pessoas capazes de construir soluções. O jornal deixa de ser um observador distante. Torna-se um espaço permanente de investigação, diálogo e inteligência aplicada ao desenvolvimento.

A Toscana Tropical Brasileira não é uma exceção. É um convite para que universidades conversem com produtores. Para que empresários dialoguem com pesquisadores. Para que investidores encontrem projetos consistentes. Para que jovens descubram oportunidades onde antes enxergavam apenas a necessidade de partir. Para que o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil compreendam que prosperidade não se decreta. Ela se organiza.

O Brasil continua sendo uma das nações mais ricas do planeta em recursos naturais, diversidade produtiva e talento humano. O desafio jamais foi a ausência de potencial. O desafio sempre esteve na dificuldade de integrar esses ativos em torno de uma visão comum.

É hora de inverter essa lógica, porque um território organizado produz riqueza, muitos territórios organizados transformam estados, e um Brasil que aprende a organizar seus próprios territórios deixa de ser apenas um país de oportunidades.

Passa a ser um país que sabe transformá-las em prosperidade.






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