Rose Scalco
“Lábios que Beijei": A Lapa eternizada por Aguinaldo Silva
Entre a ditadura, os amores clandestinos e personagens que a história tentou esconder, o espetáculo devolve ao palco o Rio que um jovem jornalista conheceu — e que um dos maiores autores de novelas do país não deixou cair no esquecimento.
" Lábios que Beijei" Há histórias que desaparecem. E há quem se recuse a deixá-las morrer.
Muito antes de se tornar um dos mais respeitados autores de novelas do Brasil, Aguinaldo Silva foi um jovem jornalista que descobriu uma Lapa muito diferente daquela dos cartões-postais: uma cidade noturna de bares, cabarés, pensões, artistas, prostitutas, travestis, malandros e amores clandestinos. Um território onde sobreviver significava, muitas vezes, driblar o preconceito, o medo e a repressão.

É desse universo que nasce “Lábios que Beijei”, adaptação teatral de Júlio Kadetti do livro homônimo de Aguinaldo Silva. Ao transformar literatura em dramaturgia, Kadetti enfrenta o desafio de recuperar não apenas uma história, mas a atmosfera de uma época e de uma cidade marginalizada dentro da própria cidade.
A passagem da literatura para o palco devolve corpo, voz e rosto a uma memória que poderia ter desaparecido. E há um detalhe especialmente significativo: o próprio Aguinaldo fez questão de anunciar a estreia da montagem, em 31 de julho de 2026, na Casa de Cultura Laura Alvim, demonstrando orgulho diante da adaptação — uma espécie de chancela afetiva para uma história que teve origem em suas memórias.
O jovem Aguinaldo no palco
O ator Joe Ribeiro, que já participou de novelas escritas por Aguinaldo, como Fina Estampa e Império, traz com maestria para a cena a essência daquele jovem jornalista, imprimindo delicadeza e força diante da Lapa e de um Brasil marcado pela repressão.

A semelhança física de Joe com Aguinaldo em sua juventude chama atenção, mas é a construção do personagem que impressiona e produz o verdadeiro reencontro e devolve ao público o homem que existia antes da fama, antes da televisão e dos grandes sucessos que fariam dele um dos maiores autores da teledramaturgia brasileira.
É o jornalista. O observador. O protagonista.
O jovem que caminhava pela Lapa, conhecia seus personagens, vivia seus amores e, talvez sem saber, começava a guardar uma história que décadas depois voltaria para encontrá-lo.
Uma Lapa feita de pessoas
A Lapa de “Lábios que Beijei” não é apenas cenário.
É também personagem.
E sua história é contada por figuras que carregam diferentes formas de viver, amar e sobreviver.
Débora Khar, vivida com originalidade e excelência por Guilherme Del Rio, traz para a cena a experiência do ator nos palcos cariocas, especialmente no ambiente teatral dos anos 1990. Travesti conhecida como “a bicha que voava”, surge em figurino sofisticado, reverenciando o glamour das travestis daquela época. Soberana em seu território, Débora transforma vulnerabilidade em força e constrói autoridade em uma sociedade que insistia em diminuí-la e colocá-la à margem.

Ao seu lado está Bixette, interpretado por Fabiano Costa, que traz estilo e pitadas de humor ao espetáculo. Fiel escudeiro de Débora, está sempre pronto para resolver o que for necessário para sua soberana, a quem demonstra lealdade absoluta e faz questão de chamar de “Magnânima”.

Alemão, vivido por Luiz Nunes, utiliza sua presença física e a exposição corporal como elementos da construção cênica do desejo. Sedutor, intenso e imprevisível, é o grande amor de Aguinaldo e encarna uma paixão que oferece mais vertigem do que segurança.
Twist, interpretada por Elaine Baracho, revela o lado mais vulnerável da peça. Entre a angústia, a solidão e um mundo abstrato no qual cria seu próprio eu ideal, a personagem traduz, em sussurros, a necessidade de afeto de quem aprendeu a sobreviver sem encontrar acolhimento. A personagem marca também o retorno da atriz aos palcos após 15 anos.

Darlene, encarnada por Esther Elisabeth, traz potência e irreverência. Suas falas poderiam chocar se não fossem revestidas pela ternura e pela profundidade de uma personagem que se apresenta forte, mas cultiva a fragilidade do sentimento por Alemão. Vive o paradoxo de ser concorrente de Aguinaldo pelo coração do rapaz e, ao mesmo tempo, integra o mosaico daqueles que aprenderam a se adaptar às circunstâncias para continuar existindo naquela realidade.

Cine Íris: quando a noite também vira espetáculo
A peça ainda reserva uma espécie de sessão nostalgia do Cine Íris, com a recepção do ator Marcelo Mattos, que dá um show à parte.

Em uma explosão de teatralidade, com maquiagem marcada e uma boca vermelha propositadamente exagerada, o personagem surge como um verdadeiro showman. A experiência do intérprete também como dublador fica evidente na construção vocal e no trabalho corporal, utilizados de forma expressiva para traduzir em gestos, movimentos e expressões a energia e os sentimentos da personagem.
É o excesso transformado em linguagem cênica, criando uma presença vibrante, irreverente e impactante.
A sombra da ditadura
Os policiais vividos por Nil Neves e Felipe Jesus demonstram a dureza do período da ditadura e a sombra de um capítulo que o Brasil ainda precisa compreender. De forma direta, traduzem em suas falas o preconceito, o abuso de poder e as restrições de direitos que atingiam aqueles considerados diferentes.
A montagem evidencia como a repressão também alcançava as pessoas LGBTQIA+ e outros grupos marginalizados, especialmente aqueles que chegavam ao Rio em busca de uma nova vida.
A ditadura não aparece apenas como pano de fundo.
Mostra seus efeitos sobre as pessoas. Nos bares.Nas ruas. Nos quartos. Nos amores escondidos. Na necessidade de fugir. Na necessidade de sobreviver.

Luan Coradini dá vida a dois personagens — o Garçom e o Homem Torturado — e utiliza também a exposição corporal para traduzir a brutalidade das sessões de tortura. Uma participação que confirma que, em uma grande história, não existem papéis menores.
Marco Miranda: a elegância da direção
A direção de Marco Miranda conduz a peça com extrema elegância, em contraponto ao peso daquele universo.
Um líder de voz calma e presença firme, que não precisa de excessos para dominar a narrativa. Imprime sua marca permitindo que o humor encontre a dor, que o desejo encontre o medo e que cada personagem tenha seu momento de existir — e que cada ator possa dizer a que veio.
Marco não grita a história. Deixa que ela flua...
José Dias e Alex Palmeira: as grifes da cenografia e do visagismo
Na cenografia, José Dias acrescenta ao espetáculo a experiência de uma trajetória reconhecida no meio artístico, criando o ambiente que sustenta essa viagem à Lapa de outros tempos. Seu nome também carrega uma marca própria de excelência.
O visagismo de Alex Palmeira merece igual destaque. Com experiência ao lado de grandes estrelas e um olhar autoral que une beleza, caracterização e dramaturgia, ele contribui para que cada personagem tenha identidade própria.
Uma homenagem construída por quem acredita e investe na arte
A produção nasce da parceria entre a Del Rio Realizações Artísticas, de Guilherme Del Rio, e a Isabella Barros Produções, de Isabella Barros, que unem forças e recursos próprios para concretizar a montagem, viabilizada pela pauta da FUNARJ.
É um projeto que nasce, sobretudo, de uma disposição de fazer. De preservar. De contar.De homenagear.
Quando a memória volta para casa
Talvez esteja aí a força maior de “Lábios que Beijei”.
A peça não recupera apenas uma Lapa que mudou.
Recupera pessoas.
Personagens que poderiam ter desaparecido, mas que Aguinaldo transformou em memória, literatura e agora espetáculo.
São histórias diferentes, pertencentes à mesma cidade — uma Lapa de desejo, medo, humor, paixão e sobrevivência.
E há algo especialmente simbólico em vê-lo reconhecer essa história tantos anos depois, dando sua chancela ao espetáculo.
O jovem jornalista que um dia observou aquela Lapa tornou-se um dos maiores autores de novelas do país. Agora, pode assistir aos personagens que conheceu ganharem novamente corpo, voz e presença diante de uma plateia.
É como se o tempo lhe devolvesse aquilo que ele próprio se recusou a perder.

Uma espécie de pertencimento traduzido em arte.
E a Lapa voltou a brilhar sob as luzes da ribalta e diante dos olhos do público.
No palco, diferentes gerações de artistas se encontram para contar uma história que atravessou décadas.
Um encontro de talentos que se dispuseram a olhar para o passado não para prendê-lo no tempo, mas para fazê-lo viver novamente.
Uma homenagem a Aguinaldo Silva.
Uma homenagem à Lapa.
E, sobretudo, uma homenagem àqueles personagens que, apesar de tudo, se recusaram a desaparecer — e ainda permanecem. Bravo!
“Lábios que Beijei"
Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h.
Casa de Cultura Laura Alvim
Av. Vieira Souto, 176 — Ipanema, Rio de Janeiro/RJ.
Temporada até 30 de agosto de 2026.
Ingressos disponíveis pelo site oficial de vendas da FUNARJ.
FICHA TÉCNICA:
Livro: Lábios que Beijei, de Aguinaldo Silva
Dramaturgia/Adaptação teatral: Júlio Kadetti
Produção: Del Rio Realizações e Isabella Barros Produções;
Direção: Marco Miranda;
Elenco: Joe Ribeiro, Guilherme Del Rio, Luiz Nunes, Marcelo Mattos, Esther Elisabeth, Elaine Baracho, Fabiano Costa, Luan Coradini, Nil Neves e Felipe Jesus.
Cenografia: José Dias;
Figurino: Mariana Pais e Rian Oak;
Visagismo: Alex Palmeira;
Iluminação: Aurélio de SImoni
Assessoria de Imprensa: Rodolfo Abreu
Apoio a Produção e Camarim: Carrla Lisboa;
Operação de áudio e vídeo: Edson Santana e Amanda Braga;
Operação de luz: Sol Di Gabriel
Contrarregragem: Jeferson Ricardo e Roberto Novaes




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